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A história viva de Tancredo Neves

por João Villaverde (20/04/2017)

Tancredo teve uma forma de atuação política bem particular, o que o colocou em patamar diferente de figuras como Leonel Brizola e Ulysses Guimarães.

“Tancredo Neves, o príncipe civil”, de Plínio Fraga (Objetiva, 2017, 648 páginas)

1.

Na noite de 15 de janeiro de 1985, a Rede Globo transmitia ao vivo trechos das apresentações do Rock In Rio entrecortados com entrevistas com os artistas, em especial os brasileiros. Cazuza, então vocalista do Barão Vermelho, falava aos microfones que o show que sua banda acabara de apresentar fora tomado de uma energia extra, que vinha do público, todos embalados no contexto de “esperança, todo mundo achando que vai raiar uma coisa nova, uma coisa de esperança, da coisa nova que está pintando aí com o Tancredo, com o que o Tancredo vai fazer”, como disse ele para a repórter Leila Cordeiro, logo depois de deixar o palco. Naquele dia, Tancredo Neves vencera, no colégio eleitoral, a eleição para a Presidência da República. Dois meses depois, ele receberia a faixa de João Figueiredo e, com isso, encerraria os 21 anos de regime militar. No dia 21 de abril, chovia torrencialmente no Estoril, em Portugal. Naquela tarde, o piloto brasileiro Ayrton Senna venceria sua primeira prova de Fórmula 1, ao liderar de ponta a ponta uma corrida que dedicou vitória ao Brasil. “Você conseguiu dar uma alegria hoje a seu país”, disse Sarney, presidente interino, para Senna, por telefone. Horas mais tarde, em São Paulo, Tancredo, o presidente que nunca conseguiu assumir, morreria em São Paulo depois de passar mais de um mês internado.

Para fechar a tragédia brasileira, os dois ídolos brasileiros que invoquei acima também deixariam a vida de forma dramática. Cazuza faleceria em 1990, aos 32 anos, vítima da AIDS, e Senna, em 1994, aos 34, depois de um acidente na prova de Ímola, na Itália. Tal qual Tancredo, o velório público do piloto levaria multidões às ruas para lamentar a perda precoce do ídolo.

A frase de Cazuza na celebração da vitória de Tancredo e a de Senna, dedicando sua primeira vitória ao país que prendia a respiração acompanhando os momentos finais do líder político apenas três meses depois de sua consagração nacional, não fazem parte da nova biografia de Tancredo de Almeida Neves, lançada há poucos dias pela editora Objetiva. Mas todo o resto está nas 571 páginas de Tancredo Neves, o príncipe civil, do jornalista Plínio Fraga.

O livro chega em boa hora. Hoje, abril de 2017, o Brasil vê se esfacelar toda a geração da Nova República, apelido dado por Tancredo à fase que começaria depois da ditadura militar. Algo novo pode surgir em 2018 e, diante de tanta incerteza, o país está mais uma vez com a respiração presa. Ler sobre Tancredo neste momento é importante e a obra de Fraga é um prato cheio para ser degustado com calma.

O presidente que não foi tem um currículo idiossincrático, a começar pela forma como era chamado. Ele foi o último de uma geração de líderes conhecidos pelo primeiro nome e não pelo sobrenome. Dos presidentes inaugurais da República (Deodoro, Floriano, Prudente) até os anos 1960, com Jânio, os líderes eram conhecidos principalmente assim. A partir de Castelo Branco, com o golpe militar, vem a sucessão de presidentes chamados pelo sobrenome ou apelido (Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo, Sarney, Collor, FHC, Lula, Temer), tendo como exceções raras dois mineiros: Itamar e Dilma.

Tancredo, no entanto, estava muito, muito longe da forma de atuação desses dois outros mineiros. Antes de ser presidente da República sem ter tomado posse, fora governador de Minas Gerais sem ter terminado o mandato (deixou o cargo justamente para se candidatar a presidente), ministro da Justiça que deixou o cargo porque o presidente se matou, e também primeiro-ministro inaugural da curtíssima experiência parlamentarista brasileira. Sua onipresença na política, a partir do início dos anos 1950 até literalmente o último respiro, na noite de 21 de abril de 1985, foi de forma mineira.

Não apenas isso, porém. Ele combateu a ditadura militar sem o estilo ferrenho de exilados como Leonel Brizola e Miguel Arraes ou a forma acadêmica, como de FHC e Florestan Fernandes, ou a forma guerrilheira armada, de Dilma Rousseff, ou sindicalista, de Luiz Inácio Lula da Silva. Seu combate ocorreu em Brasília, dentro das regras do jogo estipuladas pelos militares. E, mesmo assim, sua forma também não foi como a de colegas do MDB como Márcio Moreira Alves ou mesmo de Ulysses Guimarães. Foi uma forma dele, somente dele.

2.

O jeito Tancredo pode ser definido em cinco frases pinçadas de O príncipe civil:

“Nu, Tancredo seria um ótimo aspirante à sucessão. O que me preocupa é vê-lo vestido com o paletó de Ulysses Guimarães, as calças de Lula, a camisa de Roberto Freire, as cuecas de Jarbas Vasconcelos e metido nos sapatos de Miguel Arraes”, frase atribuída ao ex-presidente Ernesto Geisel e publicada no Jornal do Brasil de 03/09/1984.

“(Eu) considerava Tancredo Neves um político escorregadio”, disse o general Newton Cruz ao autor do livro.

“Tancredo era um ímã. Quem falava com ele tendia a ser mais compreensivo”, disse Francisco Dornelles também ao autor.

“Suas qualidades de negociador fazem dele hoje o mais moderado dos radicais e o mais radical dos moderados”, do editorial do Jornal do Brasil, em 6 de abril de 1976.

Por fim, uma do próprio Tancredo, quando assumiu o cargo de primeiro-ministro, no fim de 1961: “Somos um governo do centro, com tendências para a esquerda conservadora”.

Esse foi o personagem escolhido por Plínio Fraga, quatro anos atrás, para biografar. Ele coletou jornais, revistas e livros e buscou personagens – políticos e familiares – para longas entrevistas que ajudassem a reconstituir passos. Escarafunchou o Arquivo Nacional e coletou novidades. A narrativa de Fraga é jornalística e seu texto continua o mesmo (para quem o acompanha desde os tempos da Folha ou mesmo mais recentemente, quando trabalhou na revista Piauí). É fácil ler O príncipe civil, com sua edição bonita e sua esperta amarração de temas complexos. Apesar de alguns deslizes (que apontarei nesta resenha) considero ser impossível ler o livro e não gostar.

Trabalhando com fontes primárias (entrevistas com pessoas próximas a Tancredo, em diferentes estágios de sua vida) e secundárias (outros livros, além de jornais e revistas do período todo), Fraga organiza a trajetória política de Tancredo de forma habilidosa.

Quando peguei a obra, fiquei curioso em saber como Fraga abriria essa biografia. Há sempre, no mínimo, duas formas de começar uma história que todos já conhecem o final: 1) pelo momento mais lembrado pelo público em geral (que, no caso de Tancredo, é justamente o final) ou 2) pelo momento mais marcante de sua biografia.

Na dúvida, Fraga optou pelas duas. O primeiro capítulo trata justamente da apoteose e da tensão de 1984, quando o Brasil ia às ruas pelas Diretas Já e paralelamente Tancredo organizava sua candidatura indireta junto à esquerda, à direita e ao centro. O segundo capítulo volta para 1954, quando Tancredo, ministro da Justiça do presidente Getúlio Vargas, dividiu as horas finais do líder, inclusive ouvindo o estampido do tiro suicida de dentro do Palácio do Catete. As duas histórias são cativantes. Mas, terminada a leitura da obra como um todo, fica claro que o segundo capítulo (1954) é mais eletrizante que o primeiro.

Outro conceito prévio que tive, ao folhear o livro antes de ler, foi de que poderia estar diante de uma biografia laudatória, que é quando o autor, por aproximação ou encomenda, é apaixonado pelo biografado e críticas simplesmente desaparecem do trabalho final. Obras com esse perfil têm seu mérito, que fique claro, mas quando o biografado é um ator político, o alerta é ligado. Foi o que pensei quando, folheando, vi Fraga citar nos agradecimentos “especiais”, entre outros nomes, o do senador, ex-governador de São Paulo e duas vezes candidato à Presidência pelo PSDB, José Serra, além dos netos de Tancredo, o ex-governador de Minas e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, e sua irmã Andrea.

É claro que escrever sobre Tancredo sem consultar seus parentes e parceiros políticos seria muito pior. Meu medo não era esse, mas que isso fosse confundido com defesa política, uma vez que as personalidades de um lado do espectro político estão mencionados como “especiais” nos agradecimentos. O risco estava ali, mas a obra não é laudatória — é essencialmente jornalística. Todos os lados são apresentados e este é um dos grandes trunfos do livro.

Sutilmente, elogios do autor à Tancredo surgem, ao longo do livro, apesar da narrativa jornalística. Exemplo: “A palestra proferida por Tancredo Neves (…) foi um exemplo raro de atuação política digna” (página 316). Também dois escândalos – um envolvendo Tancredo e outro seu neto são trazidos ao leitor com a mesma palavra, “polêmica”, que é mais suave. No caso do neto, o dinheiro público usado durante a gestão Aécio no governo mineiro para a construção de uma pista no aeroporto dentro da fazenda da família no município de Cláudio (MG) é lembrada como obra que “rendeu polêmica” na campanha de 2014 (página 136). De fato, rendeu, embora o caso parece ser algo mais grave do que uma simples polêmica. Em defesa do autor, entendo que o caso não poderia ocupar muito mais do que o punhado de frases na página 136, uma vez que o livro não é sobre Aécio, mas sobre o avô do atual senador. É sobre ele, então, que a palavra “polêmica” para caracterizar um escândalo é usada novamente. Desta vez para descrever o caso em que Tancredo, quando diretor do Banco do Brasil em 1956 autorizou um empréstimo de R$ 3,8 milhões (em valores de hoje) ao então vice-presidente da República João Goulart, já enrolado com outros financiamentos não pagos ao BB. O crédito extra a Goulart foi negado pela área técnica do próprio BB, mas autorizado por Tancredo nos poucos dias em ele ocupou interinamente a presidência do banco, por viagem do titular. Mais uma vez, em defesa do autor, está o caráter eminentemente factual da obra, porque a operação é descrita em detalhes (páginas 149 e 150) e cabe ao leitor o julgamento.

3.

Com o golpe militar em 31 de março de 1964, Tancredo adotou um caminho do meio: não estava entre os diretamente ligados a Jango (como Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Celso Furtado e outros) ou entre os que lutaram fervorosamente para a ruptura institucional ocorrer (como Carlos Lacerda, Magalhães Pinto etc.), e nem entre aqueles que calculavam que uma arrumação da casa pelos militares e civis no restante de 1964 garantiria uma eleição presidencial em 1965 que fizesse o país voltar à normalidade. Neste grupo estavam algumas lideranças, a mais destacadas delas JK, que, como senador, votou por Castelo Branco em abril, nas eleições para definir quem assumiria a Presidência. Tancredo se absteve. Em agosto, JK foi forçado a ir para o exílio, ao ter os direitos cassados, e se arrependeu da conivência, como conta Carlos Heitor Cony em seus diários de JK. Pouco depois foi a vez de Carlos Lacerda se desiludir. As eleições presidenciais de 1965 foram canceladas.

Tancredo, no entanto, ficou no Brasil e foi ficando. Tinha aliados dentro do regime, que o protegiam do pior, entre eles Orlando Geisel, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e irmão do futuro presidente Ernesto Geisel.

Como foi ficando e fazendo a oposição dentro do jogo estabelecido pela ditadura, Tancredo também fazia suas análises políticas. Ao JB, em 26 de outubro de 1965, por exemplo, ele fez uma previsão arguta: “Ruim com Castello, pior sem ele” (página 250). Saiu Castello, veio Costa e Silva e, com ele, o Ato Institucional número 5 (AI-5), e a ditadura então se instalou de forma plena. O período do terror, iniciado em dezembro de 1968, se alongaria até meados dos anos 1970, passando pelo fim da gestão Costa e Silva, o curto período da Junta Militar, todo o governo Médici e o início da fase Geisel, quando enfim a distensão começou, muito lentamente.

Durante todo esse sombrio período, Tancredo continuou como parlamentar, entre sessões do Congresso (quando aberto) em Brasília, estadias em seu apartamento na zona sul do Rio de Janeiro e períodos em sua cidade natal, São João Del-Rei, em Minas.

Chegou a dizer ao JB, em 24 de abril de 1968, que acreditava que o então presidente Costa e Silva estava sendo “pressionado” a “endurecer a política de seu governo”. A análise de cenário era correta, mas dita por um parlamentar de oposição a frase parecia uma espécie de chancela, de anuência, para o que o governo queria fazer – e que faria, em 13 de dezembro. Anos depois, em 1983, ainda sob o regime de exceção, Tancredo enviou recado ao aposentado ex-presidente Médici dizendo que o ditador tinha dado “dignidade, austeridade à presidência”. Fez a ressalva que ele, Médici, errara ao “não impedir abusos da repressão política”, mas não criticara a repressão em si – apenas os “abusos”.

Enquanto a ditadura prendia, sequestrava, torturava e matava, Tancredo fazia oposição consentida no Congresso, inclusive com tempo para repetidos almoços no antigo restaurante de luxo Piantella (página 262), acompanhado de sua secretária pessoal e amiga íntima Antônia Gonçalves do Araújo.

Considerada até por adversários como a pessoa mais próxima de Tancredo, Antônia tinha pulso firme. Fraga lembra inclusive reportagem de Rodolfo Fernandes na Folha de S. Paulo de 7 de julho de 1985 que trazia uma troca de farpas dela com José Sarney, o vice que assumira o governo três meses antes. Ela pediu a Sarney que fosse nomeada diretora da estatal siderúrgica Acesita e o presidente perguntou se ela teria qualificação para o cargo. “Antônia perguntou ao presidente qual a qualificação que Tancredo Augusto, filho do presidente morto, tinha para ser indicado para o conselho diretor da Petrobras e qual a qualificação que Aécio Neves, neto, possuía para ser nomeado diretor de loterias da Caixa Econômica Federal”, registra o autor. Ao final, ela perdeu condições de trabalhar para o governo Sarney.

4.

Não há um problema grave na obra de Plínio Fraga, mas há deslizes. Na página 67 há uma frase de Tancredo (referente à nota de rodapé de número 88) que está sem as aspas — é perfeitamente possível supor onde a frase começa, no entanto. Depois, na página 154, há uma frase de Dornelles que parece ter sido dada ao autor, mas não há indicação no livro — como Dornelles é uma fonte importante do livro, provavelmente a frase saiu de uma entrevista dele à Fraga, mas essa informação ficou de fora (diferente das demais, que são registradas). Na página 408 há duas frases repetidas no mesmo parágrafo (“aumento de preços de petróleo de 1973”). Já na página 421 há uma citação de Bresser-Pereira sem indicação de fonte. A nota de rodapé 698 aparece com a data trocada (1920 em vez de 2012, na página 605).

Há um erro de digitação na página 358 (“Queixavam-se de que havia vinte anos que estavam foram (sic) da política”) e duas páginas depois, duas incongruências. A primeira, menos problemática, é a reprodução da carta de Tancredo, já da internação hospitalar em março de 1985, para Sarney, ponto que será tratado cem páginas depois. A reprodução do fac-símile é ótima, mas parece colocada na página errada, porque surge num momento anterior da história. Na mesma página, o autor cita que em junho de 1983, na véspera de um ato convocado por centrais sindicais em Minas, Tancredo assegurou que a polícia não debelaria manifestações. Mas não existiam, ainda, centrais sindicais naquele momento. Havia um acordo entre sindicatos, firmado na Conclat realizada na Praia Grande (SP) no fim de 1981 para a formação de uma. Ela só nasceria em agosto de 1983 (seria a CUT). Em 1985 viria a segunda, a CGT e, em 1991, a Força Sindical.

Por fim, há uma inconsistência nas páginas 372 e 375. Fraga argumenta que, enquanto São Paulo sediava o maior comício pelas Diretas Já, em 25 de janeiro de 1984, Tancredo, então governador mineiro, recebia a visita do presidente militar João Figueiredo, em Ouro Preto (MG). Há, inclusive, a reprodução de uma foto dos dois juntos. Três páginas depois, no entanto, uma foto mostra Tancredo ao lado de Franco Montoro ouvindo Ulysses Guimarães ao microfone num palanque, e a legenda informa ser o comício das Diretas Já de 25 de janeiro de 1984, ou seja, no mesmo dia.

Quanto aos grandes momentos do livro, entre tantos, cito dois. São os capítulos 7 e 8, num bloco, e o epílogo.

No primeiro caso, Fraga traz a público, pela primeira vez, documentos que estão no Arquivo Nacional e ajudam a contar como foi a experiência parlamentarista brasileira no único momento em que ela teve alguma chance de funcionar, que foi quando Tancredo, o primeiro a ser escolhido primeiro-ministro, foi o chefe do governo. Isso ocorreu entre setembro de 1961 e o fim de junho de 1962. Dada a fragilidade política de João Goulart (o vice que assumiu a presidência depois que Jânio Quadros renunciou em agosto), Tancredo tinha alguma legitimidade nos seus primeiros meses. Esse poder foi se esvaindo rapidamente, com Jango operando acertadamente e contando com a boa vontade do Congresso, dos governadores e de praticamente o país inteiro, todos acostumados com o presidencialismo. Quando pediu para deixar o cargo, Tancredo foi substituído por nomes muito mais fracos, culminando com a volta oficial do presidencialismo logo após o plebiscito de janeiro de 1963.

Pois bem. Fraga traz no livro os diários de Mauro Salles, secretário da presidência do Conselho de Ministros, isto é, secretário de Tancredo Neves. As anotações, embora personalistas, são o mais próximo de um registro imediato, do calor do momento, das discussões dos ministros (como Walther Moreira Salles e San Tiago Dantas) com o primeiro-ministro Tancredo. Às anotações, até aqui inéditas, Fraga coteja também depoimentos exclusivos de Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo e que esteve colado no tio durante todo esse turbulento período.

O segundo grande momento do livro, o epílogo, foi uma escolha magistral de não concluir a obra com o clichê – a morte de Tancredo após erro médico na retirada de um tumor benigno no intestino. Plínio Fraga amarra a biografia com uma discussão sobre o financiamento de campanhas. Das dívidas de Tancredo, que provavelmente o levaram à presidência do BNDES na gestão JK depois de perder a eleição para governador de Minas no fim de 1960, até a provável compra de parlamentares para garantir sua eleição indireta pelo colégio eleitoral, em 15 de janeiro de 1985. Os empresários encarregados de levantar o dinheiro para pagar a campanha, Sérgio Quintella e João Pedro Gouvêa Vieira, terminaram com uma sobra gigantesca, avaliada em US$ 10 milhões em valor presente. Há desde o testemunho do próprio Quintella sobre o uso do dinheiro durante a campanha e o destino das sobras, até as lamentações irritadas do filho do presidente, Tancredo Augusto, quanto ao uso das sobras. Jornalista, Fraga sabe que financiamento eleitoral não é apenas um dos grandes temas que emergiram da enorme bagunça nacional de 2014-2017, mas um que continuará em debate nos próximos meses. O livro ganha ainda mais peso no quadro atual, mesmo tratando de um político mineiro morto há 32 anos. Ao fechar com os vícios do financiamento eleitoral, Fraga deixa a história viva.

Há outros momentos muito bons na obra, como a reconstituição do atentado do Riocentro, em 1981, a intensa negociação de Tancredo para viabilizar o seu Partido Popular entre 1979 e 82, a formatação de sua campanha presidencial, no segundo semestre de 1984, tendo que organizar desde o seu próprio lado (com os diversos campos do PMDB, além do PDT de Brizola) até os diálogos com a situação, encarnada pelos militares ciosos de deixarem o poder depois de duas décadas, e a participação americana no golpe de 1964 e na sustentação da ditadura.

Há muitos bastidores deliciosos, e citar os meus preferidos tomaria ainda mais tempo do leitor desta resenha, mas lembrarei um: as anotações de próprio punho feitas por Ulysses Guimarães após encontro a sós com Tancredo, em 7 ou 8 de fevereiro de 1985, para a definição dos ministros do presidente eleito, reveladas por Fraga.

A maior parte dos nomes da luta pela redemocratização morreu e aqueles que permanecem estão duramente atingidos politicamente. Ninguém, hoje, sabe o que acontecerá em 2018. Por isso mesmo, este é o melhor momento para ler O príncipe civil.

João Villaverde

Jornalista, autor de Perigosas pedaladas: Os bastidores da crise que abalou o Brasil e levou ao fim o governo Dilma Rousseff. Foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo em 2015 e pesquisador visitante na Universidade de Colúmbia, NY. Atualmente é mestrando em Administração Pública e Governo na FGV-SP.