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Dr. House e seus clones

por Amálgama (11/05/2009)

por Emilio Gonzales * – Tenho acompanhado com uma certa frequência o seriado da Universal Channel. E eu, como muitos outros, adoro o estilo cético, niilista e agnóstico do Dr. House. Tudo nele é uma incógnita, um desafio, um negação da felicidade tal como a conhecemos. Nada de água com açúcar, nada de abraços e […]

por Emilio Gonzales * – Tenho acompanhado com uma certa frequência o seriado da Universal Channel. E eu, como muitos outros, adoro o estilo cético, niilista e agnóstico do Dr. House. Tudo nele é uma incógnita, um desafio, um negação da felicidade tal como a conhecemos. Nada de água com açúcar, nada de abraços e beijos. O contato se reduz ao mínimo, a troca de afeto inexiste para ele, pois tudo na vida é uma eterna dor e sacrifício. Eis a necessidade de acreditar apenas na ciência, nos fatos passíveis de comprovação.

O curioso é que não lembro ter ouvido ou visto, em nenhum capítulo do seriado, qualquer situação ou crítica ao sistema. Lidamos apenas com situações individuais (a doença) e a descoberta da sua cura. Nada de extrapolações ou alusões ao contexto sócio-político-econômico. O coletivo se reduz à equipe dele, à chefia gostosa e um ou outro convidado especial. Raramente temos externas, afinal o sofrimento do Dr. House está internalizado e tudo o que vem de fora provoca repulsa e medo. As necessidades do corpo como extensão da mente não interessam. O que conta apenas é o corpo como máquina e seu funcionamento (ou mau funcionamento).

Bem diferente do ceticismo do Dr. House é o ceticismo do jornalista Ricardo Boechat, âncora da Band News FM no horário matutino (e também âncora do Jornal da Band à noite). Aqui é a situação política do país que está em discussão constante, pois nada presta e só nos resta – segundo ele – a alienação como opção de vida. Nesta semana, por exemplo, o jornalista defendeu o boicote às eleições enquanto a legislação eleitoral não for profundamente alterada. Criticou de forma ferrenha o Congresso e a classe política. Lançou diversas dúvidas sobre a política do governo federal de prevenção da gripe suína no Brasil e por aí vai. Enfim, tudo está perdido. A sociedade civil deve desconfiar dos seus representantes e tocar a vida olhando e preocupando-se apenas com o seu círculo de amigos e familiares. Chega de eleições, está na hora de fechar o congresso e trocar o governo por pessoas mais dignas e confiáveis sem qualquer vinculação política-partidária.

É lógico que não estou aqui para defender os maus políticos, longe disso. Devemos fiscalizar, punir e acabar com os desvios e excessos. Mas para que fazer o jogo da direita e defender o boicote às eleições? Por que generalizar e afirmar categoricamente que todos os políticos não prestam? Por que desconfiar a priori de tudo aquilo que o governo faz ou tenta fazer? – “Se o ministro da Saúde fala apenas em 4 casos comprovados de gripe suína é porque devemos ter muito, muito mais”. Protejam-se, escondam-se, vamos todos morrer e salve-se quem puder.

O Ricardo Boechat precisaria trocar algumas palavras com o Dr. House. Mesmo que o ranzinza médico deteste cuidar das doenças da alma, um check up completo talvez possa ajudar com tanta descrença e ceticismo.

 
* Emilio Gonzales é publicitário, poeta diletante e pequeno empresário. Nascido no Peru, brasileiro por opção e paulistano de coração.

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