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Milamor – Suave nocaute

por Amálgama (26/05/2009)

por Camila Teixeira * – Alguns romances permitem opiniões indiscutíveis a seu respeito. No caso de Milamor, há três afirmações categóricas que posso fazer. A primeira: o romance de Livia Garcia-Roza é de uma delicadeza aguda. A segunda: Maria, a protagonista, uma viúva que é levada a reviver o amor e o desejo na virada […]

por Camila Teixeira * – Alguns romances permitem opiniões indiscutíveis a seu respeito. No caso de Milamor, há três afirmações categóricas que posso fazer. A primeira: o romance de Livia Garcia-Roza é de uma delicadeza aguda. A segunda: Maria, a protagonista, uma viúva que é levada a reviver o amor e o desejo na virada de seus 60 anos, é uma verdadeira lady. Terceira: o humor fino e a delicadeza da autora não a impedem de nocautear o leitor com uma história de solidão dura e triste.

Com uma estrutura não-linear, Livia narra a vida de Maria, filha de imigrantes alemães, de sua infância ao seus 60 anos. Como diz a própria protagonista, sua história é a reconstrução de uma ruína. Maria foi abandonada pelo marido quando o casal tinha dois filhos pequenos, Vitor, que virou um rapaz reservado e discreto, e Maria Inês, a mais nova, com quem mal consegue dialogar. Levou a vida toda para superar o trauma da separação, viveu tão bem quanto mal. Encontrou Haroldo, seu segundo marido, um homem precioso, que não amava, mas que lhe transmitia paz. Era o mais importante. Maria teve ainda uma infância solitária, com poucos amigos, viu a mãe abortar e o pai morrer. Tem amigas que atravessam os dramas e alegrias da terceira idade, como a transformação do corpo e a vinda dos netos.

Livia escreve como quem cochicha um segredo. Aos poucos, leva o leitor a conhecer os pensamentos mais secretos de sua protagonista. O contato com as dúvidas e opiniões de Maria é uma espécie de revelação silenciosa que a autora nos entrega. Como pensa uma mulher de 60 anos que tem a alma de quem descobre a vida?

A autora apresenta ainda Alencar, um homem distinto e interessante, sobre quem sabemos pouco, mas por quem Maria tem um ataque fulminante de paixão à primeira vista. Surge a pergunta: o que fazer? Com base nos conselhos que recebe de uma de suas amigas, Maria decide viver.

Apenas um detalhe não consegui entender. Quando um livro leva como título o nome de um personagem, subentende-se que este personagem terá um papel fundamental na trama, sendo este o protagonista ou alguém muito próximo a ele. Neste caso, Milamor é uma coadjuvante, longe do tema central. É uma vizinha que Maria teve na infância, única amiguinha mencionada, citada duas ou três vezes no livro todo. A presença de Milamor não é crucial, e tem pouca influência sobre a formação da protagonista. Além da poesia do nome, não há nada nesta personagem que justifique ter dado título à obra. Fico pensando se algo no texto de Livia não me escapou.

Para quem não quiser conhecer alguns detalhes sobre a trama de Milamor, a resenha termina aqui. Um belo livro. Suave, mas, contraditoriamente, com o peso da tristeza. Nos parágrafos abaixo, pequenos spoilers.

Senti falta de dois elementos na costura da história. O primeiro é o desfecho sobre o fim do casamento de Maria Inês, filha da protagonista. Desde o início, a narradora toca no assunto, dizendo que contará os motivos da separação dolorosa mais adiante. Mas essas razões não são apresentadas. Certo, não são fundamentais para a coerência da trama, mas pela insistência com que o tema foi tratado, pensei que conheceríamos os tais motivos. Minha teoria é que Livia teria incluído o esquecimento como característica de sua personagem. Por isso, Maria acaba não comentando este assunto, que, para ela, é importante. Mas é só uma teoria.

O segundo elemento fica por conta do aparecimento do marido, 30 anos depois de ter abandonado a família. Quando Maria descobre que o marido ligou, seu mundo cai. Pela narrativa, tive a impressão de que aquele telefonema seria uma reviravolta na vida da protagonista e de seus filhos. Eu esperava um choque, um grande conflito. Mas não. Tudo acontece suavemente, como se nada tivesse acontecido. Teria Maria superado, enfim, o trauma da separação e finalizado a reconstrução de sua ruína? Não é o que parece.

 
* Camila Teixeira é jornalista freelance e atualmente mora no Rio de Janeiro.

::: Milamor ::: Livia Garcia-Roza ::: Record, 2008, 208 páginas :::
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