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Novos métodos, velhas políticas

por Amálgama (01/05/2009)

por Gerusa Silva * – No mês de março foi apresentada pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, à Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), a proposta de utilização da prova do ENEM como forma de ingresso às Universidades. O fim maior, de acordo com o ministro, seria a reorganização do […]

[foto: O Globo]por Gerusa Silva * – No mês de março foi apresentada pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, à Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), a proposta de utilização da prova do ENEM como forma de ingresso às Universidades. O fim maior, de acordo com o ministro, seria a reorganização do ensino médio. Tal mudança, assim como todas as decisões aparentemente repentinas do governo federal, tem causado uma grande discussão no âmbito acadêmico.

Ouso dizer que é uma decisão aparentemente repentina por acreditar que, apesar do impacto causado pela proposta, e pela escassez de discussão por parte do MEC com os maiores interessados, no caso as universidades federais e estudantes do Ensino Médio, o Ministério não tirou esta idéia do nada. Contudo há vários equívocos que saltam aos olhos e que deveriam ter sido revistos e discutidos à exaustão antes desta ser apresentada, o que mostra um grande desleixo por parte do senhor Haddad e de sua equipe e nos faz colocar ainda mais em questão até que ponto esta mudança seria realmente benéfica aos estudantes e às universidades.

Em nenhum momento coloco aqui em discussão a qualidade da prova do ENEM. Muito pelo contrário, afirmo que em termos de elaboração é a que melhor se enquadra à perspectiva de transdisciplinaridade, que leva os estudantes a terem uma dimensão prática dos conteúdos, algo tão sonhado por todos os educadores para o Ensino Básico e Secundário. Por si só, já seria um ponto positivo para a proposta, não fosse o fato de tal metodologia estar muito distante da realidade da maioria dos estudantes brasileiros, principalmente os de escola pública, que sentem grandes dificuldades quando vão prestar o Exame. Pois, durante toda a sua vida escolar, eles foram ensinados a decorar matérias, e não a adquirir conhecimentos que pudessem utilizar diariamente.

Além do mais, a utilização da prova do ENEM como meio de ingresso à universidade (como já vem acontecendo desde a implementação do ProUni) é uma total descaracterização de sua função inicial, que é a de avaliar a maneira como os conteúdos vem sendo repassados durante todo o Ensino Médio. Outro ponto interessante a ser avaliado na proposta é o caráter unificado do novo vestibular que, de acordo com Haddad, irá possibilitar ao estudante concorrer com a mesma nota em mais de uma universidade, além de prestar vestibular em outros Estados sem o incômodo do deslocamento, já que a prova terá alcance nacional. Uma possibilidade muito empolgante, é verdade, mas vamos pensar um pouco, perceber as nuances, e nos perguntar: quantos e quais estudantes teriam a possibilidade de se manter fora do seu Estado?

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Haja vista que a Política de Assistência Estudantil por parte do governo federal é precária e não consegue atender à demanda de moradia e alimentação dos estudantes de baixa renda, somente os oriundos de famílias com boas condições financeiras teriam a possibilidade real de se manter em uma cidade que não a sua. Sem contarmos que os centros de excelência do Ensino Superior, concentrados no eixo sul/centro-oeste, teriam um crescimento absurdo na concorrência dos seus cursos, ou em sentido inverso os estudantes destas regiões, fugindo das altas concorrências, procurariam as universidades menos conceituadas, e diante do seu melhor preparo acabariam por eliminar a chance daqueles que moram na região Norte e Nordeste, por exemplo. O que mostra que o caráter unificado da prova não respeita as diferenças do ensino de região para região, aprofundando as desigualdades da educação em nosso país.

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O MEC tem pressa em implementar a sua proposta, tanto que o último prazo para adesão das universidades federais ao novo vestibular é o dia oito de maio. Assim sendo, o próximo vestibular para ingressos em 2010, nas instituições que aderirem à proposta, já contará com o novo método. Valendo sempre lembrar que tal adesão é voluntária. O problema maior fica na urgência desnecessária dos prazos estipulados pelo MEC e na falta de interesse, por parte das universidades que pretendem aderir à proposta, em chamar a comunidade acadêmica e os estudantes do Ensino Médio para um debate aberto sobre os prós e contras do novo vestibular.

O que é preciso ressaltar, sempre, é que a verdadeira questão vai muito além da mudança de metodologia de uma prova. O que deve ser colocado em questão é se a Reforma do Ensino Médio deve mesmo começar de cima para baixo, alterando primeiro as provas, para só depois pensar na reforma dos conteúdos; se a decisão de algo que irá mexer profundamente na estrutura do Ensino em sua totalidade cabe somente à Andifes; se precisa/deve ser discutida em um espaço ínfimo de tempo; e se a Universidade, através deste novo vestibular, caminha para a constituição de um espaço democrático ou só diminui as possibilidades de acesso dos estudantes de escola pública ao ensino superior de qualidade.

 
* Gerusa Silva está se formando em Pedagogia pela Universidade Federal do Maranhão, e se interessa muito pela relação entre Política Educacional e Mercado. Mas às vezes relaxa e escreve sobre as coisas admiráveis do cotidiano em overboestar.blogspot.com.

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