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Por trás da Cordilheira

por Amálgama (06/05/2009)

por Camila Teixeira * – Se me lembro bem da proposta inicial do projeto Amores Expressos, os autores convidados viajariam para cidades diferentes ao redor do mundo com o compromisso de produzir um romance, tendo sua cidade de destino como pano de fundo. Ok. Outro aspecto é que as histórias deveriam falar de amor. Pois […]

por Camila Teixeira * – Se me lembro bem da proposta inicial do projeto Amores Expressos, os autores convidados viajariam para cidades diferentes ao redor do mundo com o compromisso de produzir um romance, tendo sua cidade de destino como pano de fundo. Ok. Outro aspecto é que as histórias deveriam falar de amor. Pois bem. Ao terminar Cordilheira, obra festejada de Daniel Galera, publicada pelo selo no final de 2008, me pergunto: onde está a história de amor em sua trama? Chego a duvidar da minha sensibilidade por não identificar manifestações de amor em Cordilheira. Estaria no desejo louco da protagonista, Anita, em ser mãe? Em seu amor volátil pelo namorado? Nas lembranças que guarda de seu pai morto? No amor pela literatura? O que Anita ama?

Durante toda a leitura procurei por esta resposta. Talvez tenha lido errado, mas o fato é que Anita não ama nada. Não existe amor em Cordilheira.

Dito isso, e superada uma expectativa frustrada, o livro de Daniel Galera é um salto em relação às suas obras anteriores, Até o dia em que o cão morreu e Mãos de Cavalo. Na primeira, Daniel brinca de roleta-russa. Arrisca ao escolher soluções fáceis, como a morte do cão ou a doença de Marcela, como se estivesse testando o humor de seus leitores. Na segunda, a impressão de que o autor sentia na pluma o peso de ser publicado por uma grande editora me acompanhou por todas as páginas. Apesar da coerência da história, não há ali a pegada de Galera, sua criatividade, tão evidentes nos contos de Dentes guardados.

Quanto ao Cordilheira, apesar de ressalvas e poréns para algumas passagens que descrevem o comportamento feminino, o livro merece os elogios que recebeu. Nele, o autor narra a história de Anita, uma jovem escritora de relativo sucesso e que agora renega o livro que lhe deu notoriedade. Anita é irredutível em seu desejo de engravidar. Apesar de viver de alguns bicos, e com um namorado que prefere adiar a paternidade, a escritora bate o pé e faz manha, sem dar ouvidos a quem ousa contrariá-la em sua vontade.

Cansada dos tormentos do seu mundinho, do fantasma da morte que ronda sua história pessoal, a personagem aceita um convite para falar de sua obra na feira do livro de Buenos Aires. Lá conhece Holden e seus amigos tão misteriosos quanto esquisitos, que não economizam no fervor e na paixão para defender seus livros favoritos. É neste ponto que realmente começa a trama de Cordilheira, uma alfinetada sobre a importância que se dá à literatura, a de L maiúsculo e a de L minúsculo. O tema ganha contornos originais nesta ficção, com o desenrolar da história sinistra dos personagens que Anita encontra em Buenos Aires. Rituais, mistério, um pouquinho de violência e sexo são manipulados com habilidade pelo autor no desenvolvimento de seu tema.

Sobre Anita, sem dúvida, é uma moça atormentada, mimada (apesar de órfã, o que não deixa de ser estranho). Mas o que incomoda, o que levanta a dúvida sobre a pertinência do seu desejo de ser mãe, é sua completa falta de ternura pelo que quer que seja. Anita não vê o mundo com bons olhos, vive com os fantasmas da morte e do suicídio, e ter uma percepção positiva do mundo é condição fundamental para que uma mulher queira colocar um filho nele.

Por outro lado, elementos presentes nos primeiros contos de Daniel, como os rituais, sendo alguns macabros, e também uma certa violência gratuita, como o acidente no meio da estrada em Ushuaia, deram fôlego ao texto. Em Cordilheira, ao invés destas cenas terem um fim em si, elas são costuradas e justificadas pelo mesmo tema, que é o papel da literatura, o que realça ainda mais a dramaticidade das cenas.

Apesar de ter passado boas horas na companhia de Anita, arrisco afirmar que o forte de Daniel ainda é o conto. A naturalidade com que coisas bizarras acontecem, a forma como o autor discorre sobre sentimentos, e principalmente a maneira como ele consegue traduzir sensações tão profundas de maneira muito simples, tudo isso tem impacto ainda maior em seus textos curtos e suas frases bem torneadas. Espero seu próximo livro, torcendo para que seja de contos.

 

::: Cordilheira ::: Daniel Galera ::: Companhia das Letras, 2008, 176 págs. ::: compare preços :::

* Camila Teixeira é jornalista freelance e atualmente mora no Rio de Janeiro.

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