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Quarterlife Crisis: modo de não usar

por Amálgama (08/05/2009)

por Tiago Casagrande * – Está pipocando no Twitter – inclusive brazuca – um link para matéria da Eyeweekly sobre a tal da quarterlife crisis, ou “crise dos 25”, que é descrita assim, tradução livre: “Indecisão implacável, isolamento, confusão; ansiedade com trabalho, relacionamentos e futuro. São sentimentos relatados por pessoas com idade entre 25 e […]

[imagem: ehow.com]por Tiago Casagrande * – Está pipocando no Twitter – inclusive brazuca – um link para matéria da Eyeweekly sobre a tal da quarterlife crisis, ou “crise dos 25”, que é descrita assim, tradução livre:

“Indecisão implacável, isolamento, confusão; ansiedade com trabalho, relacionamentos e futuro. São sentimentos relatados por pessoas com idade entre 25 e 35, geralmente urbanas, de classe média e boa educação – que deveriam ser capazes de lucrar com sua juventude, liberdade sem precedentes e individualismo desenfreado. Mas eles não conseguem tomar qualquer decisão porque não sabem o que querem, e não sabem o que querem porque não sabem quem são, e não sabem quem são porque podem ser qualquer coisa que desejem.”

O termo “quarterlife crisis” foi cunhado em 2001 por Alexandra Robbins e Abby Wilner, em livro homônimo. Uma tradução chegaria ao Brasil em 2004, pela Sextante – inclusive recebendo alguma repercussão, como uma reportagem na IstoÉ. Hoje, ao ver o assunto sendo redescoberto via redes sociais, tive a mesma sensação que tive naquela época:

PERIGO. Se o tema chega a ficar realmente popular, será consumido como mais uma doença “bonitinha”, bacana, cute. “Olha como isso me justifica e tem tudo a ver com meu horóscopo” – justificativa fácil pré-cozida pela mídia e usada e descartada como se fosse motivo de orgulho. Um “defeito legal de ter”, na visão de gente provavelmente muito fútil (o que não diminui o problema).

Da mesma forma como banalizou-se a bipolaridade e o TDAH/DDA, e palavras como TOC e anorexia foram incorporadas ao vocabulário rotineiro; não é apenas a vulgarização mas também a glamourização de doenças psicológicas. Num estado de sociedade onde a busca por diferenciação parece patologizar-se, a incorporação de uma doença “da moda” parece dar (uma evidentemente falsa) profundidade ao indivíduo. Coloca-se algo muito sério na prateleira do supermercado – onde, inclusive, profissionais preguiçosos (pra dizer o mínimo) de psicologia/psicanálise/psiquiatria compram e, pior de todos os males, disseminam (e se apóiam na) desinformação.

Quem conhece alguém que realmente sofre dos transtornos listados acima sabe que, nem por um instante, é algo para se desejar.

*

[imagem: bamboosong.wordpress.com]Quarterlife crisis foi escrito por uma jornalista e uma psicóloga. Com aparições substanciais na mídia dos EUA (sim, Oprah), parece ter chegado ao seu objetivo: Quarterlife Crisis, O Negócio. Com continuações oficiais da série, palestras motivacionais (US$ 3,600), o kit completo.

Era inevitável que acontecesse, talvez. Mas há de se lamentar, principalmente, dois fatos:

1. A clara intenção de marquetizar uma angústia. É simplesmente triste. Pra citar um exemplo oposto, Douglas Coupland, que também criou um rótulo geracional (inclusive “prevendo” inúmeras características) no romance Generation X (1991), sempre recusou a pecha (e a grana) de guru ou autoridade no tema. Talvez por ser escritor/observador, ou simplesmente por princípios. (Ainda que outros tenham lhe “tomado” o nome e feito dinheiro mesmo assim; isso também era inevitável.)

2. Que se invista na produção/capitalização de uma angústia quando há um diagnóstico claro e bem posicionado sobre o tema – e ele provém da sociologia. É fácil reconhecer o “enlatado crise dos 25” já na sinopse de O mal-estar da pós-modernidade (Jorge Zahar, 1998):

Neste livro, Zygmunt Bauman faz uma vigorosa reflexão sobre as ansiedades modernas, estabelecendo nexos diretos com o famoso “O mal-estar da civilização”, de Freud. Para o sociólogo, a marca da pós-modernidade é a própria “vontade de liberdade”, princípio que se opõe diretamente à segurança projetada em torno de uma vida social estável, ou da ordem, como pensou Freud. (…) Enquanto outros teóricos do pós-modernismo assinalam a fragmentação da cultura e do sujeito contemporâneos, Bauman lida com a universalização do medo ou das perdas derivadas da troca da ordem pela busca da liberdade.

Se a Crise dos 25 caracteriza um conjunto identificável de sintomas repetidos em larga escala para ser classificado como uma psicopatologia, eu não sei dizer. O que posso afirmar é que os efeitos existem e podem ser verificados – num grupo de amigos, por exemplo. Porém, não como um surto de histeria coletiva, e sim por uma gama de mudanças sociais que colocam o conceito de modernidade (e seus indivíduos) em xeque, e pelo descompasso que se cria entre expectativa (deslocada atemporal/geracionalmente) e probabilidade, possibilidade e desejo.

E/ou como disse Bauman, numa entrevista para a Tempo Social:

Maurice Blanchot disse certa vez, em palavras que ficaram famosas, que as respostas são a má sorte das perguntas. De fato, cada resposta implica fechamento, fim da estrada, fim da conversa. Também sugere nitidez, harmonia, elegância; enfim, qualidades que o mundo narrado não possui. Tenta forçar o mundo numa camisa-de-força na qual ele definitivamente não cabe. Corta as opções, a multidão de sentidos e possibilidades que a condição humana implica a cada momento. Promete falsamente uma solução simples para uma busca provocada e impelida pela complexidade. Também mente, pois declara que as contradições e as incompatibilidades que provocam as questões são fantasmas – efeitos de erros lingüísticos ou lógicos, em vez de qualidades endêmicas e irremovíveis da condição humana.

 

Creio que a experiência humana é mais rica do que qualquer uma de suas interpretações, pois nenhuma delas, por mais genial e “compreensiva” que seja, poderia exauri-la. Aqueles que embarcam numa vida de conversação com a experiência humana deveriam abandonar todos os sonhos de um fim tranqüilo de viagem. Essa viagem não tem um final feliz – toda a felicidade se encontra na própria jornada.

 

(…)

 

Diferentemente da sociedade moderna anterior, que chamo de “modernidade sólida”, que também tratava sempre de desmontar a realidade herdada, a de agora não o faz com uma perspectiva de longa duração, com a intenção de torná-la melhor e novamente sólida. Tudo está agora sendo permanentemente desmontado mas sem perspectiva de alguma permanência. Tudo é temporário. É por isso que sugeri a metáfora da “liquidez” para caracterizar o estado da sociedade moderna: como os líquidos, ela caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades “auto-evidentes”. Sem dúvida a vida moderna foi desde o início “desenraizadora”, “derretia os sólidos e profanava os sagrados”, como os jovens Marx e Engels notaram. Mas enquanto no passado isso era feito para ser novamente “re-enraizado”, agora todas as coisas – empregos, relacionamentos, know-hows etc. – tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas, flexíveis. A nossa é uma era, portanto, que se caracteriza não tanto por quebrar as rotinas e subverter as tradições, mas por evitar que padrões de conduta se congelem em rotinas e tradições.

 

Como um exemplo dessa perspectiva, li outro dia que um famoso arquiteto de Los Angeles estava se propondo a construir casas que permanecessem lindas “para sempre”. Ao ser perguntado o que queria dizer com isso, ele teria respondido: até daqui a vinte anos! (…) Virtualmente todos os aspectos da vida humana são afetados quando se vive a cada momento sem que a perspectiva de longo prazo tenha mais sentido.

 

Jean-Paul Sartre aconselhou seus discípulos em todo o mundo a ter um projeto de vida, a decidir o que queriam ser e, a partir daí, implementar esse programa consistentemente, passo a passo, hora a hora. Ora, ter uma identidade fixa, como Sartre aconselhava, é hoje, nesse mundo fluido, uma decisão de certo modo suicida.

*

Descompasso; o temor de um caminho sem trilhos. Uma angústia que pode crescer a um ponto patológico. Não um produto. Até porque, se experimentada a termo, não encontra solução ou saída ou resposta fácil. Em ensaio na Cronópios, Nete Benevides aponta muito bem:

Do mesmo modo que na Idade Média observamos o “estilo teológico” e durante a modernidade verificamos o “estilo econômico”, na pós-modernidade vem sendo elaborado o “estilo estético” e uma nova ordem se esboça. É a partir dessa ordem que se deve buscar, conforme Nietzsche, “a profundidade na superfície das coisas”. Para isso, é necessário olhar novamente para as coisas e, nesse novo olhar buscar uma identificação (que é um conceito mais “móvel” que a identidade) com as várias culturas e “tribos”, apreendendo e apreciando cada coisa a partir da nossa coerência interna e não a partir de um julgamento exterior que dita o que ela deve ser, como se fosse possível estabelecer a supremacia de um código, principalmente, quando compreendemos que a idéia central da trajetória do “aprender a viver” possui a mesma dimensão filosófica de se “aprender a morrer” – angústia maior do homem.

Você se identificou com a quarterlife crisis? Só não siga nem deixe que sigam um hype falso, a expandir essa tendência nefasta de consumir doenças como produtos (da confusão de identidade). Reflita, avalie sua autocobrança, procure mais informações. Se a angústia estiver muito grande, às vezes conversar com um profissional é a saída, ou pode tranquilizar. Às vezes se aprende com cascudo e peitaço, também. E se vale um recado direto de Bauman, ao ser perguntado “Qual seria sua mensagem para os jovens de hoje?”, ele diz:

Gostaria que tentassem, apesar de tudo (e talvez esteja aí o elemento de nostalgia que você notou), apesar de todas as tendências em contrário e de todas as pressões de fora, reter na consciência e na memória o valor da durabilidade, da constância, do compromisso. Eles não podem mais contar, como a antiga geração, com a natureza permanente do mundo lá fora, com a durabilidade das instituições que tinham antes toda a probabilidade de sobreviver aos indivíduos. Isso não é mais possível e, na verdade, a vida humana individual, apesar de ser muito curta, abominavelmente curta, é a única entidade da sociedade de agora que tem sua longevidade aumentada. Sim, somente a vida humana individual vê crescer sua durabilidade, enquanto a vida de todas as outras entidades sociais que a rodeiam – instituições, idéias, movimentos políticos – é cada vez mais curta. Assim, o único sentido duradouro, o único significado que tem chance de deixar traços, rastros no mundo, de acrescentar algo ao mundo exterior, deve ser fruto de seu próprio esforço e trabalho. Os jovens podem contar unicamente com eles próprios e só haverá em suas vidas o sentido e a relevância que forem capazes de lhes dar. Sei que essa é uma tarefa muito difícil… mas é a única coisa que posso lhes dizer.

 
* Tiago Casagrande é publicitário, músico e responsável pela rede de blogs Verbeat. Com ligeiras diferenças, este texto foi publicado inicialmente em seu blog, Bereteando.

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