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Uma fera domesticada pelo espetáculo

por Amálgama (21/05/2009)

por João Paulo da Silva * – Nos três primeiros filmes sobre os X-Men, a história de Wolverine sempre foi cercada por muito mistério. Com suas lembranças fragmentadas, o passado do mutante de garras afiadas não passava de uma colcha de retalhos. X-Men Origens: Wolverine (AUS/EUA/CAN, 2009), que estreou nos cinemas brasileiros no último dia […]

por João Paulo da Silva * – Nos três primeiros filmes sobre os X-Men, a história de Wolverine sempre foi cercada por muito mistério. Com suas lembranças fragmentadas, o passado do mutante de garras afiadas não passava de uma colcha de retalhos. X-Men Origens: Wolverine (AUS/EUA/CAN, 2009), que estreou nos cinemas brasileiros no último dia 30 de abril, revela o surgimento do personagem e sua vida antes de se juntar aos pupilos do Professor Xavier. Aguardado com grande expectativa, o filme talvez seja uma decepção para os fãs que esperavam bem mais do que bons efeitos especiais.

A história tem início no Canadá, em 1845. O jovem James Howlett descobre tragicamente seus poderes mutantes durante um acesso de fúria. Ao testemunhar seu suposto pai ser morto por um homem, o garoto acaba enterrando suas garras no corpo do assassino, que revela ser seu verdadeiro pai. Desesperado, o futuro Wolverine foge na companhia de seu irmão, o cruel Victor Creed.

Dotados de um poder de cura instantânea e de sentidos ultra-aguçados, Logan/Wolverine (Hugh Jackman) e Victor Creed/Dentes de Sabre (Liev Schreiber) crescem e atravessam os tempos sem envelhecer. Lutam na Guerra Civil Americana, nas duas Grandes Guerras Mundiais e no Vietnã. Até que são recrutados pelo coronel William Stryker (Danny Huston) para se juntarem a uma equipe de mutantes com objetivos pra lá de questionáveis.

Discordando das barbaridades cometidas pelo grupo do coronel Stryker, Logan decide deixar a equipe, a vida de violência e passa a viver pacificamente nas colinas do Canadá com a bela Kayla Silverfox (Lynn Collins). Mas a calmaria dura pouco. Logo antigos pesadelos voltam a atormentar os dias de Wolverine.

Depois que Kayla é assassinada por Dentes de Sabre, Logan inicia uma caçada que o leva até o obsessivo Stryker. Para poder matar seu irmão, ele aceita passar por uma perigosa experiência, que consiste em revestir seu esqueleto com adamantium, uma liga metálica indestrutível. A partir daí, Wolverine começa uma corrida por vingança e respostas que revelem quais são os verdadeiros planos do coronel Stryker.
Muito espetáculo, pouco conteúdo
De fato, é difícil imaginar um filme de super-herói sem efeitos especiais e sequências de ação. Mas uma boa história não precisa, essencialmente, se sustentar sobre tais recursos. Uma trama consistente necessita de um bom diretor e um roteiro bem escrito. É nisso que Wolverine tropeça. Ao invés de recriarem o complexo universo do personagem, o diretor Gavin Hood e o roteirista David Benioff optaram por fazer um filme para entreter, apenas.

A história peca pela falta de densidade e pela correria na qual se apóia. Trata-se de um filme que explora pouco a complexidade psicológica do protagonista, gerando uma superficialidade em seus dramas e dilemas. O conflito interior de Logan entre os lados humano e animal poderia ter sido mais bem desenvolvido e aprofundado, por exemplo.

Tal escolha distanciou bastante esta narrativa do conteúdo alegórico sobre a discriminação presente nos dois primeiros X-Men. As lacunas do roteiro de Wolverine são preenchidas por cenas espetaculares de combate entre mutantes, algumas até dispensáveis. Apenas um grande show pirotécnico não faz um bom filme de super-herói.

Outros pontos do roteiro mostram uma história mal amarrada. Durante todo o filme, não fica claro qual a razão determinante para Victor Creed querer eliminar Wolverine. Muitas vezes aparenta que a única motivação é porque ele ser um vilão e pronto. Há também uma injustificável luta de boxe entre Logan e um de seus ex-companheiros. Além, é claro, da presença de mutantes secundários alheios à trama, cuja única função é gerar mais cenas de combate e ação.
A fera domesticada
A versão deste Wolverine para as telonas não se rendeu apenas ao puro espetáculo dos efeitos especiais. O lado animal e mais impiedoso do mutante – comum nas histórias em quadrinhos – também foi domesticado para permitir que fãs menores pudessem conferir o filme nos cinemas. A tática deu certo. Conseguiu atrair outros públicos, mas afastou um pouco mais o personagem da versão original.

Entretanto, X-Men Origens também guarda seus pontos positivos. Hugh Jackman e Liev Schreiber conduzem com maestria seus papéis. Suas boas atuações demonstram conhecimento sobre as personalidades dos personagens. Schreiber encarna com sangue frio o monstro Dentes de Sabre, dando a ele uma convincente feição animalesca.

Quanto a Hugh Jackman, é impossível hoje pensar em outro ator que possa dar vida a Wolverine. O ator australiano encontrou a dose certa para retratar o humor rude e sarcástico, o senso de justiça e a rebeldia que transformaram o personagem numa das referências mais importantes do mundo dos quadrinhos. Jackman interpreta com eficiência a dualidade homem e animal de Wolverine.

Seria injusto dizer que o filme é inteiramente descartável. Mas é impossível não reconhecer a grande chance que foi perdida de se produzir algo imensamente maior.
Vazamento e contratempos
Ainda durante sua produção, o longa enfrentou alguns contratempos. Para o desespero dos estúdios Twentieth Century Fox e alegria dos internautas, uma versão inacabada do filme vazou na rede, recebendo mais de 4 milhões de downloads. A preocupação da produtora em não perder dinheiro era tão grande que até o FBI foi acionado para investigar o caso. Suspeita-se de que a empresa contratada para finalizar o filme esteja envolvida no vazamento.

Além disso, a Fox pediu que o roteiro original fosse reescrito por outro autor, e as divergências sobre o foco da história causaram atrasos e refilmagens de cenas. Ao que parece, a intenção por trás de Wolverine sempre foi a de produzir um filme “arrasa quarteirão”, pronto para estourar as bilheterias.
[veja o trailer]

* João Paulo da Silva, Maceió-AL, é jornalista e professor de literatura e português.

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