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por Eustáquio Gomes Campinas, domingo, 8 de maio de 2005 Querida mãe, Há um mês, escrevi a seu respeito: “Vai fazer 83 anos em abril. Borda panos de prato muito bonitos. E embora já não brinque com bonecas de pano, conserva ainda nos olhos a escarpa, a fonte, o vale, o rio, a mata e […]

por Eustáquio Gomes

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Campinas, domingo, 8 de maio de 2005

Querida mãe,

Há um mês, escrevi a seu respeito: “Vai fazer 83 anos em abril. Borda panos de prato muito bonitos. E embora já não brinque com bonecas de pano, conserva ainda nos olhos a escarpa, a fonte, o vale, o rio, a mata e o pote de barro, em suma, a infância da caboclinha de Bambuí com seu vasto arco-íris ao fundo”.

Não sabia, àquela altura, que você não chegaria a celebrar seu aniversário. Abril chegou, mas não o dia 30. Ao menos não para você, que morreu no dia 29, uma sexta-feira, durante uma cirurgia imprevista – seu coração reateou, tornou-se necessário implantar um marcapasso.

Um vento frio varreu o saguão do hospital quando o médico desceu a escadaria e se dirigiu até nós, que esperávamos embaixo, para nos dizer que tinha havido uma intercorrência, que o eletrodo não passara pela veia cava, que você, lúcida, tinha concordado em adiar o implante para o dia seguinte, mas que, na sala de terapia intensiva, você teve uma parada cardíaca. Por um longo tempo tentaram reanimar você, sem sucesso. E assim você se foi, disse o médico, sem sofrer, como um passarinho.

Uma informação dessas não se compreende de imediato, a gente procurava um jeito de não acreditar nela, rodava pelo saguão e não encontrava o rosto da verdade, a verdade da linguagem. Foi como naquela outra ocasião, lá em Minas, no povoado, você deve se lembrar, em que entrei num ônibus-jardineira a caminho do colégio interno e você acenou para mim como se fosse a última vez, com uma tristeza de mãe que perdia o menino do meio. E isto joga meus pensamentos ainda mais para trás, para meus três ou quatro anos de idade, quando pela janela da casa de pau-a-pique você me mostrou uma coisa extraordinária: a manhã rebentando por trás do dorso da serra, numa explosão de cores e de nuvens lançadas como tapetes no ar, com uma lua delgada pairando entre dois nimbos. E você, que estava passando roupa (isso era lá hora de passar roupa?), sempre avisando com doçura para eu não chegar muito perto do ferro de brasas, você disse que aquilo era a porta do Céu, que o Céu começava ali, e que a partir daquele ponto começavam as salas atapetadas do interior do Céu. Eu acreditei sem esforço, com o rosto em êxtase voltado para cima, mantendo-o assim todo o tempo que levou para o cenário se dissolver, enquanto você ia cuidar de outras coisas. Esta é uma de minhas lembranças mais vívidas de você.

No hospital, nestes dias que precederam sua morte, você logo descobriu a capela. Ali, nenhuma nuvem nacarada rasgava o horizonte, mas mesmo assim era bonito de ver. Uma sala diminuta de paredes nuas, alguns bancos de madeira e uma Bíblia aberta sobre um suporte longilíneo. Aposto que você rezava para voltar logo para casa e poder retomar sua vida de antes, o fogão, as panelas, o quintal, a roupa na máquina, os panos de prato. À noite você se sentava para assistir à novela. Da safra atual, dava preferência à versão nova d’A Escrava Isaura. No sábado, dia 23, no hospital, você pediu que eu sintonizasse a Record e ali ficamos durante horas vendo o programa do Raul Gil. Até que achei interessante o desfile de calouros. Torci por aquele que caiu nas suas graças, mas ele foi eliminado. Nos intervalos nos falávamos de coisas banais ou que se tornaram banais com o tempo, a dificuldade de se encontrar bananas em bom estado, algumas apodrecem antes mesmo de amadurecer, você disse, um assalto que houve na sua rua, um dos ladrões morreu durante o assalto, alguém conseguira chamar a polícia no transcurso e ela, contrariando todos os prognósticos, veio logo e foi cirúrgica. E você suspirava animada com a perspectiva de não precisar mais de medicamentos depois do marcapasso, eu concordava calado, sabendo que o tempo não tem volta e é amigo íntimo das farmacopéias, quase diria sócio majoritário delas.

A pungência das pequenas lembranças: seria preciso fazer um inventário delas para depois esquecê-las. O modo como, na enfermaria, você folheava sua caderneta barata onde anotava os telefones dos filhos, dos netos e da vendedora da Avon, da qual você era revendedora, a capa rasgada e já quase separada da espiral — em busca de um fio de esperança na algaravia de seus apontamentos?

Então começou a sucessão de crises, breves desmaios dos quais você voltava como se nada tivesse acontecido. Era socorrida e depois não se lembrava de nada. Houve uma ou duas manhãs em que você acreditou que estava melhor, mas era engano ou mero desejo de viver. As crises se amiudaram e na quinta-feira seguinte, véspera de sua morte, eu escrevi para mim mesmo: “Minha mãe. Miúda, encolhida numa cadeira ao lado da cama, acossada pela falta de horizontes”. Mas não sabia ainda que era o seu último dia. Nem no dia fatal desconfiei de nada.

Nesse dia, por volta da uma da tarde, telefonei para o seu quarto. Você atendeu e passou a me contar, num fio de voz, que tinha passado mal outra vez e que, no seu delírio ou seja lá o que fosse, viu-se flutuando e girando à altura do teto do quarto, para depois ser colada de volta à cama, à realidade do pré-operatório. Você tinha apenas mais quatro horas de vida. Achei a descrição semelhante à daqueles depoimentos de quem volta das portas da morte com o relato de uma outra dimensão entrevista, acreditando nisto quem quer ou quem pode. Mas nem assim consegui compreender que na angústia de sua voz, no desamparo de sua narrativa, havia um prenúncio do fim. Burro que sou!

Fazia uma manhã luminosa no dia do seu enterro. Apareceu muita gente, amigos, parentes, seus doze filhos e até suas duas irmãs de Goiânia, Santa e Santinha, que tomaram às pressas um avião em Brasília. Tia Santa, que se parece muito com você, disse à beira do caixão uma frase bonita a seu respeito: “Foi uma grande mulher”. E uma de minhas irmãs, ao me ouvir lamentar você ter perdido a festa de seu próprio aniversário, disse acreditar que no lugar para onde você foi (e que se existir deve ser como aquele Céu que nós vimos juntos, quase meio século atrás, um céu luminoso e de salões atapetados) havia gente esperando por você, com uma mesa atoalhada e um bolo de oitenta e três velas. E imagino você chegando no seu passo miudinho, tímido, para receber os cumprimentos daquela turma. Seja bem-vinda, dona Maria. Feliz aniversário, dona Maria. Parabéns, dona Maria.

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Eustáquio Gomes escreveu, entre outros livros, Viagem ao centro do dia: Um diário (2007). Acesse a página do autor no Amálgama.

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