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Delírio pré-eleitoral

por Amálgama (24/05/2010)

por Maurício Caleiro * – A política brasileira, embora frequentemente acusada de previsível e suja por aqueles que preferem a comodidade de a todos criticar e em ninguém votar – colaborando assim, por omissão, para a manutenção de cargos eletivos nas mãos de corruptos – nos surpreende, de quando em quando, com o espetáculo das […]

por Maurício Caleiro * – A política brasileira, embora frequentemente acusada de previsível e suja por aqueles que preferem a comodidade de a todos criticar e em ninguém votar – colaborando assim, por omissão, para a manutenção de cargos eletivos nas mãos de corruptos – nos surpreende, de quando em quando, com o espetáculo das grandes transformações.

O período que antecede as eleições majoritárias tem, notadamene, se mostrado uma estação propícia para a metamorfose do homus politicus brazilienses. Nessa época a espécime, ávida por acasalar-se com o poder, se despe da plumagem desnecessária do pudor e dos ácaros nocivos da coerência e dá início à libidinosa dança do acasalamento com o eleitor.

O tucano José Serra, ave das mais emplumadas e agressivas em seu habitat natural tem, por exemplo, se exibido com a delicadeza de um beija-flor e o suave piar de um sabiá. À tamanha meiguice soma-se o amor repentino pelos céus nordestinos e sua gente – amor de pássaro tropical, sincero e desprendido, sem nenhuma intenção eleitoral, é claro!

O único-momento que o nosso pássaro-herói recai na ferocidade do passado é quando depara-se com jornalistas – essa raça agourenta e sem educação que tem o mau hábito de fazer perguntas a presidenciáveis. Nessas horas, até as leitoas amigas, por demais abelhudas, andam levando bicadas na testa.

Mas, ao contrário do que dizem as más línguas, não é a empáfia do tucano nem o arraigado hábito de atacar jornalistas e gasnar pela demissão destes que está por trás do comportamento de nosso beija-flor eleitoral: o espécime fica perturbada ao acordar cedo (antes das 13, 14 horas…) e a alteração em seu relógio biológico o leva à agressão. Tenhamos, portanto, tolerância com o meigo e sofredor pássaro – e providenciemos capacetes às suas entrevistadoras.

Febre eleitoral da floresta
Mas não só as aves boas de bico sofrem as mutações pré-eleitorais: também os seres da floresta veem-se acometidos pela febre terçã do voto. Marina Silva, a outrora aguerrida ecologista petista, que se projetou, ao lado de Chico Mendes, a partir dos seringais amazônicos, embora (ainda) não demonstre sintomas de agressividade, padece, pobrezinha, de amnésia grave e direitismo agudo.

Os sintomas têm levado a defensora da Natura a, num rasgo de autenticidade e coerência, propor uma reforma agrária que agrade até aos ruralistas e a saudar nada menos do que as privatizações perpetuadas pelo governo (sic) Fernando Henroque Cardoso, tão bem quistas por todos os brasileiros.

Para quem não era gente grande à época, explico: as privatizações foram (mais uma) jogada genial dos tucanos – sempre masoquistamente submissos à àguia ianque – para vender o Estado e, segundo eles, gerar uma fortuna capaz de levar o Brasil ao primeiro-mundo. Foi muito bem-sucedida: ao final do governo FHC, o Brasil estava mesmo no primeiro mundo – mais exatamente no prédio do FMI, de pires na mão, implorando mais um empréstimo para salvar nossa economia. Geniais esses pássaros!

Nos delírios febris da enfermidade pré-eleitoral, tanto o sabiá/beija-flor tucano quanto a amazona da Natura grasnam alto, enquanto se debatem:

– “Sapo barbudo, sapo barbudo, quero sentar no trono do sapo barbudo!”.

Pode-se aventar uma série de críticas à política brasileira, mas acusá-la de negligenciar o humor seria uma injustiça.

* Maurício Caleiro, Rio de Janeiro-RJ. Blog: cinemaeoutrasartes.blogspot.com.

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