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As tolices de Chomsky

por Amálgama (09/05/2011)

Os pronunciamentos do professor sobre Osama Bin Laden são estúpidos e ignorantes [tradução]

Christopher Hitchens, na Slate / 9 de maio

Qualquer um visitando o Oriente Médio na última década teve a experiência: encontro com uma pessoa áspera e agressiva, que primeiro nega que Osama Bin Laden tenha sido responsável pela destruição do World Trade Center, e então prossegue para descrever o ataque como um justificado ato de vingança por décadas de imperialismo americano. Tal dissonância cognitiva – para dar-lhe uma designação cortês – nem sempre toma essa forma precisa. Às vezes a mesma pessoa que saúda a bravura dos mártires da al-Qaida também acredita que os judeus planejaram a “operação”. Até onde sei, apenas o “truther” britânico David Shayler, um ex-agente de inteligência que também anunciou sua própria divindade, negou que os eventos de 11 de Setembro de 2001 sequer ocorreram. (Aparentemente, a ilusão foi criada por meio de um holograma exibido pela televisão.) Em seu recente artigo na revista Guernica, entretanto, o professor Noam Chomsky decide deixar em aberto essa questão central. Não temos mais motivo para dar crédito às confissões de responsabilidade de Osama Bin Laden, ele diz, do que à alegação do próprio Chomsky de que venceu a Maratona de Boston.

Não posso decidir de imediato se isso é ou não uma avanço em relação ao que Chomsky escreveu à época. Dez anos atrás, aparentemente compartilhando do consenso de que o 11/9 foi mesmo obra da al-Qaida, ele escreveu que o ataque não era uma atrocidade pior do que o prévio uso de mísseis pelo presidente Clinton contra o Sudão, em retaliação pelos ataques a bomba nos centros de Nairóbi e Dar es Salaam. (Não voltei para conferir se ele enfim reconheceu que aquelas bombas nas embaixadas foram mesmo obra da al-Qaida.) Ele ainda argumenta espalhafatosamente a favor da equivalência moral, defendendo que o ataque em Abbottabad, Paquistão, justificaria uma contingência por meio da qual “comandos iraquianos aterrizassem na residência de George W. Bush, o assassinassem e descarregassem seu corpo no Atlântico.” (De fato, equivalência pode ser uma palavra fraca num contexto desses, já que ele defende que, “incontroversivelmente, os crimes [de Bush] vastamente ultrapassam os de bin Laden.”) De modo que o principal novo elemento é o do mistério intrigante. As Torres Gêmeas vieram abaixo, mas ainda busca-se saber quem foram os responsáveis. Desde “abril de 2002, [quando] o diretor do FBI, Robert Mueller, informou à imprensa que após a mais intensa investigação de sua história, o FBI não podia dizer nada além de que ‘acreditava’ que o plano foi incubado no Afeganistão”, nenhuma evidência foi apresentada. “Nada sério”, como coloca Chomsky, “foi provado desde então”.

Chomsky ainda goza de certa reputação tanto como acadêmico quanto como intelectual público. E, face aos bombardeios da propaganda oficial, ele orgulha-se de sua firme insistência em “voltar-se para os fatos”. Então deve-se assumir que ele estudou os achados completos da Comissão 11/9? Viu qualquer dos vídeos em que os sequestradores de 11/9 são vistos em companhia de Bin Laden e Ayman al-Zawahiri? Leu as transcrições do processo de Zacarias Moussaoui, o chamado “vigésimo sequestrador”? Seguiu as investigações jornalísticas de Lawrence Wright, Peter Bergen ou John Burns, apenas pra citar alguns de maior destaque? Inteirou-se dos procedimentos de investigações associadas e ancilares do ataque a bomba ao USS Cole ou mesmo da primeira tentativa de derrubar as Torres Gêmeas, nos anos 1990?

Com a paranoica “esquerda” anti-guerra, você nunca sabe onde a ênfase vai cair em seguida. No Telluride Film Festival em 2002, me vi debatendo Michael Moore, que, um bom ano após os ataques, insistia que Bin Laden era “inocente até prova em contrário” (e não havia sido provado culpado). Exceto que ele havia sim, pelo menos de acordo com o próprio Moore no dia seguinte aos ataques, quando escreveu que “NÓS criamos o monstro conhecido como Osama bin Laden! Para onde ele foi para aprender terrorismo? Para a CIA!” Portanto, inocente a menos que manchado por associação com Langley, Va., que parece ter tido escolas de voo sob vigilância antes de 2001, mas que parece ter sido morosa na compreensão de suas atividades. Por um bom tempo, de fato, toda a “narrativa” anti-Bush envolveu algo como colusão com a malvada família criminosa Bin Laden, possivelmente baseada em interesses mútuos na indústria do petróleo. Tão culpado era Bin Laden, que lhe foi permitido, por um fraco governo republicano que ignorou relatórios diários sobre a crescente ameaça, preparar um novo Pearl Harbor em solo americano. Gore Vidal foi capaz de soltar muitas lamuriosas e sugestivas linhas a esse respeito, sugerindo uma traição de alto nível da república.

E então vieram aqueles que, impacientes com meras insinuações, acusaram diretamente o governo de explodir seu próprio Pentágono e de realizar uma “demolição controlada” do World Trade Center. Esse cenário parecia deixar uns poucos errantes aviões de sobra, já que os que atingiram as torres eram apenas uma nota graciosa na sabotagem pré-existente, e aqueles na Virgínia e na Pensilvânia, com passageiros, tripulação, sequestradores e tudo, apenas sumiram de alguma forma.

Não é uma crítica válida apenas dizer que a análise de Chomsky é inconsistente com aquelas de outros indivíduos e facções que essencialmente pensam que o 11/9 foi um embuste. Entretanto, é digno de nota que ele escreva como se a massa de evidência contra Bin Laden jamais tenha sido apresentada ou não pudesse ser apresentada diante de uma corte. Esse tipo de negação do 11/9 não se preocupa em esconder uma premissa não declarada mas evidente, que é a de que os Estados Unidos em grande parte mereceram a investida contra seus cidadãos e sua sociedade civil. Afinal de contas, como Chomsky impressionantemente coloca, nosso hábito de “nomear nossas armas assassinas a partir das vítimas de nossos crimes: Apache, Tomahawk … [é] como se a Luftwaffe chamasse seus aviões de combate ‘Judeu’ e ‘Cigano’.” Talvez isso não seja verdade no caso do Tomahawk, que é realmente o nome de uma arma, mas o argumento é tão bom quanto qualquer outro que ele faz.

Em resumo, nós não sabemos quem organizou os ataques de 11 de Setembro de 2001, ou quaisquer outras investidas relacionadas, embora tolo e incrédulo fosse aquele que engolisse a palavra (não amparada pelos fatos) de Osama Bin Laden de que seu grupo foi o responsável. Uma tentativa de sequestrar e assassinar um ex-presidente dos Estados Unidos (e presumivelmente, por extensão, o atual ocupante) seria tão legalmente justificável quanto a batida em Abbottabad. E a América é uma incarnação do Terceiro Reich que nem mesmo esconde seus métodos e aspirações genocidas. Está aí o somatório do que foi aprendido pelo guru da esquerda na última década.

* tradução: Daniel Lopes

Amálgama

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