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As vadias vão às ruas

por Bia Cardoso (21/05/2012)

A sociedade não parece preocupada em ensinar os homens a não estuprarem

Em janeiro de 2011, um policial fazia uma palestra sobre segurança na Escola de Direito Osgode Hall em Toronto, no Canadá. Em determinado momento disse: “as mulheres devem evitar vestir-se como vadias, para não se tornarem vítimas de ataques”. Uma frase que com certeza muitas pessoas que lerão esse texto já escutaram e/ou repetiram, mas que precisa urgentemente ser questionada. Quando a polícia e outros órgãos do Estado perpetuam o mito e o estereótipo da “mulher vadia” estão falhando em relação à segurança das mulheres.

Mesmo sabendo que não existem espaços seguros e que somos também responsáveis por evitar a violência de modo geral, a roupa que a vítima usa, a quantidade de álcool que ela ingeriu, sua profissão, sua vida pregressa, sua aparência e qualquer outra coisa que tenha sido usada para depreciá-la não podem ser usadas como atenuante ou justificativa da violência.

A Marcha das Vadias surge no Canadá como uma resposta à afirmação do policial. Uma reação contra a culpabilização e coerção das vítimas de violência sexual. Há anos mulheres são ensinadas a não serem estupradas, mas nossa sociedade não parece preocupada em ensinar os homens a não estuprarem. Mulheres que sofreram algum tipo de violência sexual não são vadias. Nenhuma mulher é estuprável. Nenhuma roupa é um convite para o estupro.

O que começou com um pequeno grupo de pessoas que imaginavam contar com a ajuda de amigos mais próximos, tornou-se um movimento mundial. Mulheres de diversos países uniram-se e saíram às ruas para reivindicar respeito, autonomia e liberdade. Lésbicas, heterossexuais, transexuais, novas, velhas, magras, gordas, negras, brancas, indígenas, prostitutas, advogadas, professoras, donas de casa. Diversas e inúmeras mulheres mostraram que o episódio em Toronto não é um fato isolado. É preciso provocar a sociedade a repensar suas práticas e valores.

No Brasil, a partir do início do segundo semestre de 2011, as vadias tomaram as ruas em diversas cidades. Em 2012, as mulheres já começaram a ocupar as ruas novamente com irreverência e conscientização. A maioria programou-se para tomar o Brasil em uma grande Marcha Nacional que acontecerá no dia 26 de maio. Brasília, Belém, Belo Horizonte, Campo Grande, Curitiba, Florianópolis, Natal, Salvador, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória e outras cidades participarão. Confira datas, horários e locais no Calendário das Marchas no Brasil.

A ofensa ressignificada

A palavra usada pelo policial canadense foi “slut”. No Brasil, podemos traduzí-la como vadia ou vagabunda. Não é uma palavra neutra. Historicamente, “vadia” é usado predominantemente com conotação negativa. Referindo-se na maioria das vezes à sexualidade da mulher, sendo um insulto e uma acusação do caráter da pessoa. A intenção por trás da palavra é ferir, ofender e explicitar que algumas mulheres valem menos que outras.

Para as mulheres, a palavra “vadia” não tem o mesmo significado que para os homens. Vadias e vagabundas são todas as mulheres que ousam ir contra as regras do moralismo vigente. Apropriar-se do termo “vadia” e ressignificá-lo é uma das principais estratégias do movimento. Se não posso usar a roupa que quero sem ser julgada por isso, se a liberdade das mulheres não é plena, então somos todas vadias.

Muitas pessoas acham ofensivo participar de uma marcha com esse nome. Não querem associar-se ao termo. Tomar para si a palavra “vadia”, tantas vezes usada para machucar, é uma forma de empoderamento, por meio de uma reação questionadora. Porém, é preciso ter em mente que há diferentes tipos de desigualdades e violências. Por isso é interessante ver que várias marchas têm buscado a inclusão e a coletividade, além do debate em relação a gênero, raça e sexualidade.

Há o estereótipo da mulher recatada, doce, frágil e virginal. Porém, há também o da mulher hipersexualizada, interesseira e promíscua. As mulheres não estão em lados opostos, confinados em estereótipos. Negras, brancas, indígenas e pardas sofrem de maneiras diferentes no cotidiano social. Da mesma maneira, lésbicas, transexuais e transgêneros também se encontram em diferentes posições de marginalização. Enxergar essas diferenças é fundamental para reelaborar dinâmicas de poder e acabar com a invisibilidade de certos grupos. Vadias somos todas, mas a homofobia, o racismo e a misoginia estão intrinsecamente relacionados.

Números da violência

De acordo com o Mapa da Violência 2012 – caderno complementar: homicídio de mulheres no Brasil, em uma análise de 80 países, o Brasil ocupa a sétima colocação com uma taxa de 4,4 homicídios para cada 100 mil mulheres. Com o agravante de que em 68,8% dos atendimentos a mulheres vítimas de violência, a agressão aconteceu na residência da vítima.

Segundo dados do Dossiê Mulher 2011 (.pdf), no Rio de Janeiro, por exemplo, as mulheres continuam sendo as maiores vítimas dos crimes de estupro (81,2%), ameaça (65,4%) e lesão corporal (62,9%). Mesmo com a criação da Lei nº. 12.015/09, que fez com que algumas condutas, antes intituladas como Atentados Violentos ao Pudor, passassem a ser
contabilizadas como estupros, ampliando a abrangência do crime, incluindo também os homens, as mulheres permanecem como as principais vítimas de violência sexual.

A pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado da Fundação Perseu Abramo/SESC mostra que:

Uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido alguma vez “algum tipo de violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido”. Diante de 20 modalidades de violência citadas, no entanto, duas em cada cinco mulheres (40%) já teriam sofrido alguma, ao menos uma vez na vida, sobretudo algum tipo de controle ou cerceamento (24%), alguma violência psíquica ou verbal (23%), ou alguma ameaça ou violência física propriamente dita (24%). O parceiro (marido ou namorado) é o responsável por mais 80% dos casos reportados. Os pedidos de ajuda são mais freqüentes (de metade a 2/3 dos casos) após ameaças ou violências físicas, com destaque para as mulheres que recorrem às mães, irmãs e outros parentes. Mas em nenhuma das modalidades investigadas as denúncias a alguma autoridade policial ou judicial ultrapassa 1/3 dos casos.

A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 registrou em 2011, segundo seu relatório anual: 667.116 chamadas, média de 1.828 ligações por dia. Dessas, foram 74.984 ligações (11,24%) com denúncias de violências e 35 (0,01%) com relatos de tráfico.

Do total de ligações referentes às denúncias com relatos de violência, registra-se que:

a) 45.953 atendimentos (61,28%) foram relatos de violência física
b) 17.987 atendimentos (23,99%) de relatos de violência psicológica
c) 8.176 casos (10,90%) de violência moral
d) 1.298 casos (1.73%) de violência sexual
e) 1.227 atendimentos de violência patrimonial

Notório é o destaque de denúncias de cárcere privado. A Central notificou 343 casos, o que equivale a quase 1 caso por dia. E, também, 35 casos de tráfico de mulheres.

A violência contra a mulher é um problema social. Pautada, na maioria das vezes, na ideia de que a mulher existe para servir ao homem, exige, além da ação política, esforço reflexivo da sociedade para a mudança de paradigmas. O homicídio de homens no Brasil é alto, especialmente na população jovem e negra, mas esses homens morrem nas ruas, enquanto as mulheres são agredidas dentro de casa, por pessoas que elas conhecem e com as quais convivem. Ao sair às ruas para lutar pelo fim da violência contra a mulher queremos questionar a lógica de nossa cultura machista, racista, lesbofóbica e transfóbica.

Violência sexual é um crime difícil de ser denunciado. Envolve muita vergonha e exposição da intimidade. Ao culpabilizarmos as vítimas pelos crimes cometidos, ao colocarmos sobre elas o peso de uma punição por não terem se comportado na noite em que bebeu demais ou no dia em que saiu com uma saia mais curta, as pessoas são encorajadas a não denunciarem, a não procurarem ajuda. Violência sexual não é sobre roupas, nem mesmo sobre sexo, é sobre poder. Apoderar-se de nossa sexualidade não pode significar que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, seja nos relacionamentos ou na prostituição.

A Marcha das Vadias é um movimento que pretende unir não só mulheres, mas pessoas de todos os gêneros e orientações sexuais, de diferentes estilos de vida, níveis de emprego e educação, todas as raças, idades, habilidades e experiências para fazer uma declaração contra a agressão sexual e pelo respeito as vítimas de violência. Se ser livre é ser vadia, somos todas vadias.

Bia Cardoso

Feminista, coordenadora de grupos de mulheres na internet.