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Alguns livros mais

por Amálgama (16/05/2013)

Guerra polonesa-soviética. Stálin. Culturalismo. Homem e universo. Homem e social. Inconsciente.

(outros lançamentos que merecem sua atenção, em rápidos comentários – por Daniel Lopes)

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varsoviaO curto livro de Adam Zamoyski serve de introdução à guerra polonesa-soviética de 1919-1921. Apesar de tomarem o poder em um país agrário, os chefes bolcheviques nunca esqueceram que a única chance de sucesso a longo prazo do comunismo seria uma série de revoluções na Europa ocidental, a começar pela Alemanha. Para isso, o Exército Vermelho, criado por Trotsky, precisava passar por cima da Polônia, no processo destruindo seu governo e sociedade civil e “libertando” a classe trabalhadora. “Voltemos os olhos para o Ocidente”, dizia um panfleto de mobilização para os soldados soviéticos. “Levaremos na ponta de nossas baionetas a felicidade e a paz às massas trabalhadoras da humanidade.” Na segunda metade de julho de 1920, Lenin aventou junto a Stálin a possibilidade de a revolução chegar até Romênia, Tchecoslováquia, Hungria e Itália.

Se você acha que a descrição acima lembra bastante os passos de 1939 até o imediato pós-guerra, é isso mesmo. De fato, o principal motivo pelo qual a heroica vitória polonesa do entre-guerras ainda hoje passa batida em várias narrativas dos principais eventos do século passado é que, diante dos acontecimentos das décadas seguintes, o rechaço polonês aos soviéticos em 1920 empalidece a ponto de se perder da vista de muita gente. De que adiantou todo aquele esforço se, logo depois, os soviéticos conseguiriam incorporar a Polônia à sua esfera e chegariam de qualquer jeito até a Alemanha?

Ainda assim, como explica Zamoyski em suas páginas finais, o espírito de resistência de 1920 e da democracia (defeituosa) vivida até 1939 foi importante, se não por outra, porque inspirou o movimento antisoviético dos tempos de Guerra Fria, e “o instinto democrático e cívico dessa parte da Europa é hoje, em grande parte, o produto de duas décadas de liberdade assegurada por Pilsudski e seus exércitos, em 1920, no Vístula.” Esta é uma referência, claro, ao famoso reagrupamento das forças polonesas restantes (que muitos comunistas já consideravam vencidas), no segundo semestre daquele ano, em torno da capital Varsóvia, e o contra-ataque que se seguiu, bem sucedido em mandar os soviéticos de volta para além das fronteiras da Polônia. / Varsóvia 1920: A derrota de Lenin, Adam Zamoyski, Record, 2013, 208 páginas

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vidaPraticamente todas as informações contidas no livro da franco-romena Lilly Marcou, originalmente de 1996, já haviam sido expostas em biografias de Stálin feitas por autores como Robert Tucker e Alan Bullock. Mas como nem todo mundo tem disposição para encarar essas obras enormíssimas, livros como A vida privada de Stálin acabam tendo sua função. O foco, como está óbvio, são as relações pessoais do tirano com sua família e poucos amigos íntimos, e como essas relações se desenvolviam em paralelo a (e às vezes influenciando) eventos momentosos como o Grande Terror. Os leitores mais interessados nesses aspectos da vida de Stálin ficarão satisfeitos com a leitura; porém, leitores que não têm um conhecimento mínimo da política soviética e da geopolítica europeia que cobrem os anos de atividade de Stálin ficarão perdidos em algumas páginas. / A vida privada de Stálin, Lilly Marcou, Zahar, 2013, 256 páginas

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democraticNão é possível cobrir todas as falácias e contradições do culturalismo em um só volume, mas estes dois autores dinamarqueses passam perto, em quatro centenas de páginas. Esta é uma crítica firme aos culturalismos de direita (nacionalismo, etnopluralismo) e de esquerda (multiculti) – “Um culturalismo é o inimigo automático do outro precisamente porque culturalismos são, naturalmente, particularismos, o que significa dizer que cada um deles seleciona seu povo escolhido, e nem todos podem ser escolhidos. Mas essa estridente antifonia de particularismos (…) não deve convencer ninguém de que os culturalismos de esquerda e de direita constituem a principal antítese na política moderna. Pelo contrário, o conflito é entre o Iluminismo e o culturalismo” (p. 238) – e uma defesa dos direitos dos indivíduos sobre os direitos do grupo, “raça”, cultura, etnia ou as diretrizes de autointitulados “líderes comunitários”. Trata-se de um livro sóbrio, bem argumentado, não de um discurso raivoso – poucas vezes uma sinopse foi tão feliz como a deste livro, ao classificá-lo como um “manifesto erudito”. / The democratic contradictions of multiculturalism, Jens-Martin Eriksen e Frederik Stjernfelt, Telos Press, 2012, 410 páginas

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universeAinda que este seja apenas o segundo livro de Neil Shubin, o arqueólogo e professor da Universidade de Chicago já é um dos autores de ciência mais admirados do planeta. Seu livro de estreia, em 2008, Your inner fish: A journey into the 3.5-billion-year history of the human body, é uma das coisas mais empolgantes que eu já li. Acontece que Shubin foi um dos pesquisadores que descobriram em 2004 fósseis do Tiktalik – um dos “links perdidos” da evolução, membro de uma espécie que possuiu características tanto de peixe quanto de tetrápode –, e Your inner fish parte de tal descoberta para esmiuçar estruturas do corpo humano que claramente evoluíram de estruturas de seres como o Tiktalik.

Agora, em The universe within, Shubin vai mais longe no tempo e estuda a relação íntima entre nossas estruturas mais íntimas, como o “relógio interno” e os átomos, e o mundo material surgido a partir do Big Bang, a formação dos planetas e o comportamento da Terra ao redor do sol. O livro apresenta fatos bem conhecidos, mas organizados e ligados de modo interessante, de forma que novamente temos Shubin ganhando nossa atenção e admiração por mostrar, em uma escrita bela (ah sim, ele começou a se interessar por ciência lendo Carl Sagan), nosso pertencimento visceral, não apenas ao mundo animal, mas ao universo como um todo.

PS: Só vim saber dia desses que Your inner fish saiu em português, pela Campus. Nada contra a editora, mas não deixa de ser triste que Shubin não tenha conseguido sair no Brasil por uma de nossas grandes editoras, com todas as consequências de distribuição, divulgação e discussões em resenhas que isso acarretaria. Espero que com The universe within seja diferente. / The universe within: Discovering the common history of rocks, planets, and people, Neil Shubin, Pantheon, 2013, 240 páginas

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conquistaO biólogo Edward O. Wilson é talvez o autor de ciência contemporâneo que mais desperta paixões, pró e contra. Como relata Steven Pinker em Como a mente funciona, a defesa que Wilson faz do enraizamento do ser humano no mundo natural tem lhe rendido não apenas discordâncias, mas vaias e tentativas de agressão em conferências, da parte de gente das ciências humanas que acha que a Cultura criou o Homem e descansou no sétimo dia. Nos livros que li de Wilson, não percebi tentativa de diminuir a importância de ciências como a antropologia – pelo contrário, o autor usa bastante estudos antropológicos para reforçar seus pontos. De modo que decidi ver o esbravejar fundamentalista como déficit de leitura honesta – ou leitura simplesmente.

Se serve de consolo, A conquista social da Terra não é de seus livros mais polêmicos – embora, tradicionalmente, tenha sim causado alguma polêmica. Aqui, Wilson acabou divergindo mais de gente de seu próprio campo, a biologia. A teoria da evolução eussocial de Wilson tem pontos de atrito com a teoria da aptidão inclusiva, ou seleção de parentesco – em suma, com a teoria do “gene egoísta” de Richard Dawkins. Grosso modo, Wilson joga no time da seleção de grupo, não da seleção de indivíduo.

Fora adentrar na polêmica e tirar suas próprias conclusões, o leitor de A conquista… será guiado ao longo do livro pela pergunta: somos nós, Homo sapiens, apenas mais uma espécie entre tantas que existem ou já existiram? A resposta de Wilson, implícita em toda a obra, é: sim e não. Wilson quer nada menos do que responder, de uma perspectiva científica e algo filosófica, às interrogações de Gauguin em seu quadro D’où venons nous/ Que sommes nous/ Où allons nous. A “conquista social” aqui não se refere apenas à humana (ou primata), mas também às prévias conquistas de, principalmente, abelhas e (especialidade e paixão de Wilson) formigas. O autor acredita que analisando as prováveis origens do comportamento social em insetos, pode-se jogar uma luz valiosa nas origens do comportamento social humano. / A conquista social da Terra, Edward O. Wilson, Companhia das Letras, 2013, 392 páginas

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subliminarÉ sempre ótima notícia quando um autor como Leonard Mlodinow consegue virar best-seller no Brasil. O andar do bêbado, seu primeiro livro, publicado por aqui também pela Zahar (em 2009 na edição convencional e, em 2011, na edição econômica), vendeu entre nós mais de 90 mil exemplares. Mlodinow é físico por formação, mas um grande conhecedor de diversos campos. Como diz o subtítulo em português, Subliminar é sobre “como o inconsciente influencia nossas vidas”.

Apesar do tema ser muitas vezes automaticamente associado à psicanálise, a abordagem aqui é outra – “Embora os aspectos inconscientes do comportamento humano tenham sido investigados por Jung, Freud e muitos outros no século XX, os métodos que empregaram (…) propiciaram apenas um conhecimento difuso e indireto. (…) Novas e sofisticadas tecnologias revolucionaram nosso entendimento da parte do cérebro que funciona no nível abaixo da consciência – o que estou chamando aqui de mundo subliminar. Essas tecnologias tornaram possível, pela primeira vez na história da humanidade, uma verdadeira ciência do inconsciente”. Quem aposta que isso torna o livro chato, e o inconsciente pouco complexo, realmente precisa ler Mlodinow – pode-se começar por esta sua recente entrevista à revista Época. / Subliminar: Como o inconsciente influencia nossas vidas, Leonard Mlodinow, Zahar, 2013, 304 páginas

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