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Ucrânia: fronteira da democracia

por Amálgama (23/05/2014)

As eleições ucranianas marcam a fronteira oriental da democracia europeia

Timothy Snyder, na New York Review of Books / 22 de maio

Ukraine-elections

Neste domingo, milhões de homens e mulheres irão às urnas na Ucrânia para exercer seu direito civil de votar para um novo presidente. Uma pesquisa de intenção após outra mostra que a vasta maioria dos ucranianos por todo o país, incluindo o sudeste, onde a intervenção russa desencadeou um violento movimento separatista, deseja permanecer na Ucrânia e quer participar da eleição.

No sudeste, nas regiões de Donetsk e Luhansk, para onde a Rússia enviou soldados e criminosos armados, o comparecimento será menor. A hábil utilização de milícias e propaganda televisiva pró-russa levou a uma quebra da ordem pública e crises humanitárias associadas em algumas cidades do sudeste. Os separatistas ocupam certo número de prédios públicos, controlam estações de tevê estatais e perturbam os negócios públicos – ao, por exemplo, roubar cédulas de votação e pensões de aposentados. Eles têm algum apoio, mas em nenhum lugar apoio suficiente para estabelecer uma alternativa plausível ao governo central. Eles podem criar insegurança, mas não segurança. Sua única esperança de deter as eleições é através da intimidação.

As apostas são altas. Em fevereiro, após semanas de protestos pacíficos, os ucranianos derrubaram um presidente autoritário que havia alterado ilegalmente a constituição, roubado uma grande parcela do caixa estatal, criminalizado manifestações públicas pacíficas e presidido o assassinato de manifestantes. Após ele fugir do país, o parlamento eleito escolheu um novo governo, que imediatamente convocou eleição presidencial para 25 de maio. Ela é necessária para que a estabilidade política retorne ao país e para dar a todos os ucranianos, quer eles tenham se oposto à revolução ou a apoiado, uma chance de serem ouvidos.

As eleições ucranianas também marcam a fronteira oriental da democracia europeia, motivo pelo qual elas são tão ameaçadoras para o regime de Putin em Moscou. Com uma regularidade que claramente não é bem vinda para a liderança russa, os ucranianos lutam por seu direitos. A Federação Russa, que, ao contrário da Ucrânia, não é em qualquer sentido significativo uma democracia, questionou a validade da eleição presidencial. Enquanto isso, a propaganda russa, com bastante eficácia, esconde as verdadeiras questões em jogo, descartando a discussão política em favor de estórias fantásticas sobre uma tomada fascista em Kiev.

Grande parte da atenção da mídia russa é devotada para a extrema-direita ucraniana. De fato, existem dois candidatos de extrema-direita: Oleh Tyahnybok, o candidato do partido Svoboda, e Dmitry Yarosh do Setor Direito. Eles provavelmente são mais conhecidos na Rússia e no Ocidente, graças à propaganda russa, do que Petro Poroshenko, o chocolateiro centrista que está liderando as pesquisas. Cada um dos candidatos da extrema-direita está na casa do 1 por cento de intenções de voto. Em outras palavras, o apoio eleitoral à extrema-direita na Ucrânia é, pelos padrões europeus, extremamente baixo – uma comparação que será mais fácil de se fazer após as eleições parlamentares europeias deste domingo, nas quais espera-se que partidos de extrema-direita se saiam bem. E, claro, na própria Rússia a extrema-direita realmente está no poder.

Moscou insiste que os direitos humanos dos ucranianos russo-falantes estão sendo violados, e que isso justifica sua intervenção militar. Isso é ridículo. O atual primeiro-ministro da Ucrânia é casado com uma nativa russo-falante. O presidente em exercício da Ucrânia é um russo-falante. A propósito, os dois candidatos que lideram a corrida presidencial na Ucrânia, Poroshenko e Julia Tymoshenko, são eles próprios falantes nativos do russo, e originários do sudeste do país.

A Ucrânia é um país bilíngue. Os pôsteres eleitorais aparecem nas duas línguas. Os candidatos mudam de uma língua para outra em talk shows políticos. Os banners gigantescos nos prédios públicos que dizem “Um País” estão nas duas línguas. Se você assistir a um jogo de futebol na tevê, poderá observar que o narrador fala ucraniano, enquanto o comentarista fala russo: quase todos os ucranianos entendem ambos, e a maioria fala as duas línguas. Se você for a um café, poderá encontrar uma gentil garçonete que se ajusta à língua que ela acha que você conhece melhor. Nesse respeito, nenhum país na Europa é mais cosmopolita que a Ucrânia.

As pessoas no sudeste da Ucrânia certamente possuem reclamações políticas legítimas – corrupção antes de mais nada –, mas a língua simplesmente não é um problema. As pessoas no sudeste falam russo o tempo todo em todos os locais sem qualquer obstáculo, e o atual governo em Kiev, bem como os candidatos líderes nas pesquisas, tem se esforçado para garantir às pessoas que eles continuarão permitindo o uso do russo onde elas quiserem usá-lo. Salvo uma catástrofe, a Ucrânia terá em breve como seu presidente um falante nativo do russo livremente eleito. Isso é mais do que se pode dizer sobre a Federação Russa, onde as eleições são de mentira. Na Ucrânia, pessoas que falam russo podem concorrer a cargos públicos sem obstáculos. Isso simplesmente não é verdade na Rússia.

A essa altura, a propaganda russa é tão autocontraditória que o orwellianismo não dá conta. A Rússia alega estar apoiando a democracia, embora ela própria não tenha democracia e esteja agindo para perturbar a democracia de um vizinho. Moscou prega para o Ocidente, absurdamente, que o governo ucraniano é fascista, enquanto ao mesmo tempo apoia fascistas reais na Europa e orienta sua própria política externa de acordo com o tradicional programa fascista de proteger co-etnias através da força militar, quer elas queiram proteção ou não.

A Rússia ilegalmente invadiu, ocupou e anexou a península da Crimeia, província mais ao sul da Ucrânia. O último domingo marcou a comemoração do septuagésimo aniversário da mortal deportação dos tártaros da Crimeia, a população nativa da península, pela NKVD soviética em 1944. Eu vi tártaros da Crimeia, que no geral são russo-falantes, celebrarem dignamente em Kiev. Na Crimeia, sua terra ocupada, eles foram proibidos pelas autoridades russas de fazer uma celebração. Esse é apenas um exemplo, ainda que um especialmente melancólico, de como os falantes do russo possuem direitos na Ucrânia que eles não possuem na Rússia.

A intervenção russa na Ucrânia tem sido justificada com mentiras absurdas. É uma vergonha que percamos tanto tempo com elas. Os ucranianos merecem ter sua eleição presidencial discutida em seus próprios termos, ao invés daqueles impostos por violência e propaganda. O país tem profundos problemas, que podem ser melhor enfrentados por líderes surgidos de novas eleições – as presidenciais no domingo, e esperançosamente as eleições parlamentares neste outono. Os ucranianos devem ser permitidos seguir com o processo.

Domingo, os ucranianos provavelmente votarão em números bem maiores do que os americanos fizeram nas últimas eleições presidenciais, e por isso eles merecem respeito. Os ucranianos que votarem no sudeste, apesar da ameaça de violência, merecem admiração. Nos Estados Unidos, sabemos um pouco sobre a coragem que é preciso ter para ir votar quando pessoas com armas não querem que você o faça. Eleições podem ser, como deveríamos lembrar quando pensamos na história recente do sudeste dos EUA, uma ocasião para a simples coragem humana.

Timothy Snyder é professor de História em Yale e autor de
Terras de sangue: A Europa entre Hitler e Stalin. [tradução: Daniel Lopes]

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