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Venezuela: política sem democracia

por Amálgama (09/05/2014)

Estamos testemunhando um ensaio político-econômico que não é outro senão o modelo chinês

Ángel Lombardi, no Tal Cual / 8 de maio

Na Venezuela, a democracia nos últimos 15 anos tem se encolhido até quase diluir-se, em um governo com uma forte tendência para o autoritarismo e um projeto ideológico claramente totalitário, com base no pensamento único e uma hegemonia no poder que claramente nega a possibilidade de alternância. A hegemonia dominante estruturada em torno a Chávez é diversa e difusa, embora cada setor seja perfeitamente identificável.

Essa hegemonia terminou conformando uma autocracia populista (graças às generosas e abundantes receitas do petróleo e a uma tradição populista existencial orientada ao clientelismo altamente estruturada na tradição política latino-americana). Esta hegemonia política se baseia em grupos e clãs de poder, civis e militares, cujos eixos principais são uma esquerda tradicional fortemente ancorada e influenciada no modelo cubano e uma ativa “sociedade” militar de origem conspiratória.

Em sua primeira fase, 1999-2002, o ideólogo visível acabou sendo o argentino Norberto Ceresole com sua tese peregrina do tipo autoritário-totalitário, “Um caudilho, um povo, um exército”, que tanto lembra da história recente do nazi-fascismo-comunismo-franquismo.

Após os acontecimentos de abril de 2002, tentativa de golpe para alguns e vácuo de poder segundo o julgamento do Supremo Tribunal Federal da época, o caudilho aprendeu a lição e se entrincheirou no poder em um espírito de perpetuidade, assumindo a “franquia cubana”, modelo político de ditadura comunista bem sucedido a mais de meio século. O que importa não é o desenvolvimento do país e da democracia, mas “se parafusar no poder”, sujeitando a sociedade a um controle de ferro e a uma manipulação propagandística sustentada.

Fracasso econômico e social, mas com um bem-sucedido modelo político de dominação e permanência no poder, e é assim que chegamos, 15 anos depois, a este pobre país rico em ruínas, desmoralizado e cheio de incertezas. O poder cativo com o seqüestro de todas as instituições do governo delineia uma democracia sui generis que, por vezes, se confunde com uma ditadura também sui generis.

Mais do que o socialismo do século XXI, nós podemos falar de um modelo político, paradoxalmente definido como pós-moderno, sendo profundamente anacrônico. Para enfatizar o paradoxo, estamos testemunhando um ensaio político-econômico, já assumido por Cuba, que não é outro senão o modelo chinês: um Estado autoritário com uma economia de capitalismo desenfreado.

Esses paradoxos, acredito, ajudaram a tornar difícil estabelecer conceitualmente a natureza do regime e, talvez, isso fez com que seja difícil para a oposição desenvolver uma estratégia alternativa de sucesso político-eleitoral, e que hoje em dia se manifesta na dupla estratégia de ir às ruas e de dialogar – o que às vezes se percebe como estratégias complementares, e em outros momentos como antagônicas e confusas para o público.

Sem dúvida, a crise venezuelana, em pleno andamento, deve ser conduzida dentro do marco da constituição e com absoluto respeito aos direitos humanos, com realismo político, mas ao mesmo tempo com a clareza conceitual de que o projeto democrático não pode ser sacrificado.

* tradução: Ana Cecilia Rivas Amundaray

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