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A agonia da Nova República e a crise sistêmica

por Elton Flaubert (23/05/2016)

A elite política foi obrigada a sacrificar Dilma na vã esperança de manter sua posição.

Afinal, o que é a Lava Jato? Para os petistas, uma República paralela em Curitiba e agora uma esperança para se manter agarrado aos grilhões do poder. Para alguns antipetistas, foi a esperança de escapar dos grilhões petistas que, com sua vocação hegemônica, criou uma situação totalitária ao diluir nosso cotidiano.

No entanto, ela é isso tudo e muito mais. Como já afirmei, a Lava Jato é antes um obituário de um país de almas devastadas. O que ela nos apresenta é o retrato de um longo processo de apagamento do ser nacional e uma trajetória de rebelião permanente contra a realidade. Este processo é guiado pela cultura do repúdio de uma elite iníqua e progressista. A Nova República é a última expressão dessa degradação, tornando clarividente a crise que nos governa.

A primeira elite política que ascendeu na Nova República formou-se no impeachment de Collor. A aliança PSDB, PMDB e PFL criou um modelo de “terceira via”, fazendo reformas artificiais na estrutura do Estado e na economia. Ao mesmo tempo, o primeiro consórcio foi responsável pelo fortalecimento da hegemonia de esquerda e dos movimentos sociais, pela destruição cultural, pela deformação das almas por um materialismo que saía do subterrâneo e tornava-se a expressão mesma da nação.

O primeiro consórcio da Nova República foi dominado por homens sem ânimo, que não viam sentido maior na realidade, agiam sem convicção e se importavam apenas com a carreira, o dinheiro e o poder. Movendo-se apenas na intenção de agradar, pois viviam de aparência, foram sempre pautados (e dominados) por seus inimigos. Ao recusarem sua própria alma, esses pragmáticos se tornaram reféns da elite que produz os imaginários sociais e levavam a cabo o projeto de deformação nacional na recusa obstinada. O destino desses escravos dos valores do mundo era a derrota e sua ação só serviu para semear o campo para ascensão inconteste do petismo.

Quando Lula subiu a rampa do Palácio, o campo já estava preparado para a construção da hegemonia petista. Na política, nacos do PFL e PSDB mudaram-se para o “centrão” fisiológico (PP, PTB e PR, em especial) que alimentariam com sua prostituição a fome do Leviatã petista. Para criar sua hegemonia, o PT precisava estender o seu poder sobre a sociedade para transformá-la. Isto demandava uma grande quantia de dinheiro para ter posse do Estado. Ao invés de se aliar meramente com os políticos e distribuir os nacos do Estado para favorecimentos pessoais, o PT resolveu comprar o Poder Legislativo (o famoso Mensalão) em nome de uma hegemonia de longo alcance.

Após a crise de 2005, o PMDB foi incorporado ao governo. Na oposição, ficou o que sobrou do PSDB e PFL (agora DEM para simular aparência com o partido americano de esquerda), agindo de maneira adocicada e mantendo as aparências da política. Para continuar estendendo sua hegemonia, o PT trocou o Mensalão por outra forma de apropriação do Estado. Os apoios políticos eram comprados com indicações que iriam gerir um projeto sistemático de corrupção. Nas estatais, a corrupção se tornou sistêmica, pois deveria alimentar um projeto de poder que deveria ganhar eleições, construir apoios e mesmo aquietar a oposição. Aquilo que foi ensaiado no primeiro consórcio da Nova República foi sistematizado pela vocação totalitária do PT. A partir de 2004, segundo Barusco, a propina tornou-se sistemática na Petrobras, funcionando em torno de um projeto.

Na economia, o governo Lula comprou o empresariado com benefícios, subsídios, disposição dos mecanismos estatais para diluir os riscos com os negócios. O BNDES adotou o modelo de apoio aos “campeões nacionais”, subsidiando bilhões para empresas que seriam modelo e marca do país. A maior parte dos financiamentos concentrou-se em 12 grandes empresas.  A elite econômica se torna parte do Estado. Os grandes empresários estão sempre em negociação com o governo, pois isto lhes garante mais estabilidade frente à concorrência. O Estado concentrador das atividades econômicas, e extremamente regulador, torna os empreendedores de alto porte dependentes de favores e benesses. O modelo cria uma elite econômica extremamente dependente da elite política, e uma elite política com o poder suficiente para mobilizar e transformar a sociedade a partir de todas as outras elites que dela dependem. O PT não precisa acabar com o capitalismo ou ser sectário na política. Sendo pragmático, ele consegue tornar o poder político e o poder econômico coincidentes, orientando as instituições a se tonarem um Estado socializante que reforma e intervém na sociedade.

A crise sistêmica do apagamento nacional chega ao seu nível máximo na hegemonia petista. O segundo consórcio é maior. Alia quase toda elite política, econômica, intelectual, artística e midiática em torno da farsa de prosperidade do segundo governo Lula. O Brasil potência e o seu sonho eldorado de país do futuro e progresso da humanidade é mais uma vez ilusão de uma nação regida pelo espírito do materialismo.

A rebeldia é tão somente uma escolha pelos valores desse mundo. Ou seja, o espírito sendo regido pela finalidade da grana, do poder, e do sucesso, ao invés do que realmente alimenta a alma: a busca pela beatitude, o amor pela Verdade, pelo Bem, pelo Justo. Com a deformação em pleno vapor, os brasileiros se sentiram anestesiados pela catarse do dinheiro caindo do céu e pela falsa autonomia, louvando – por causa dos valores do mundo – quem agia como o mais canalha dos seus filhos, o sr. Luís Inácio Lula da Silva. Do que importava a destruição do tecido social diante do dinheiro no bolso e das certezas fáceis?

O processo crítico quer dominar todas as variáveis do mundo, para isto, o seu tempo é o da transformação de um futuro em aberto, onde a expectativa encontra-se apartada da experiência. Como alimentador de uma crise sistêmica, o processo crítico toma o poder e se consolida no segundo consórcio, mas só pode ser vítima de sua ação. A crise sistêmica se auto-expulsa e os que antes eram “pedra” viram as “vidraças”. Descobrimos nosso pecado fáustico da pior maneira possível e o efeito destrutivo de Mefistoféles já tinha ido longe demais. A negação dominara o espírito da nação e, aqui, nada mais brota além da frustração perpétua.

A Lava Jato não veio para transformar o país. E nisto reside sua força. A operação é apenas um obituário resignado. Prende um empreiteiro aqui, um político acolá, mas sabe que, na busca incessante pela verdade, o seu bem será somente mostrar um quadro geral das almas devastadas. A carcaça de um país onde o interesse é a regra. Ela é o vislumbre de um lugar que jamais poderá chegar, pois não lhe é tangente.

A Lava Jato expõe uma crise de indiferenciação (como aludiu Martim Vasques), onde os duplos materialistas se multiplicam pela má escolha de modelos, tendendo a uma escalada para os extremos, possui como fundo o espírito regido pelos valores do mundo, ou seja, a deformação das almas pela desconexão da realidade. O Brasil tornou-se a vanguarda de uma crise mimética interna, onde as rivalidades se multiplicam junto às ilusões da política e nada serve como expiação simbólica a não ser a própria sociedade.

A crise sistêmica é uma máquina pagã de produzir novas ordens artificiais e novos expurgos dessa ordem, uma máquina de produzir mitos (Vargas, Lula, etc.), onde o descrédito da elite iníqua ocasiona uma nova ordem de apagamento do Ser por uma nova elite que toma posse do processo crítico.

A crise sistêmica chegou para devorar mais uma vez a ordem artificial. Temerosa, a elite política foi obrigada a sacrificar Dilma na vã esperança de manter sua posição. Os políticos do “centrão”, aqueles arrivistas preocupados com o dinheirinho que podiam tirar do Estado e nada mais do que isso, abandonaram o barco justamente para tentar manter sua posição em 2018. O que assistimos é a volta da “terceira via”, a volta dos políticos do primeiro consórcio, a volta dos semeadores do petismo tentando salvar a Nova República. Como fruto da crise sistêmica, esta acabou, mas não quer morrer. As elites se agarram a esses grilhões, mas eles estão podres como tudo o mais.

Nesse sentido, o impeachment foi interessante para tirar a caneta de quem realmente tinha força para dar contornos ainda mais dramáticos à tentativa de manter uma ordem iníqua e caduca. Todavia, ele está longe de concluir alguma coisa ou mesmo pôr fim a uma crise de dimensão espiritual e material.  Ao contrário do que insinua a retórica triunfalista de liberais como Reinaldo Azevedo e o MBL, o problema apenas começou. Junto com a auto-expulsão da crise sistêmica, temos o oferecimento de uma nova proposta triunfante, um novo “ismo” para nossos materialistas se debruçarem e depositarem suas alegrias e frustrações. A disputa do novo processo crítico está entre esses novos liberais e sua tentativa de sacralizar as instituições como divindades terrenas e a esquerda hipermoderna representada por Marina Silva. Que político revelará essa engrenagem que mantém o espírito nacional refém do materialismo?

Por isto, o governo Temer é de “salvação nacional” apenas para o que restou do establishment político e do seu consórcio com as elites econômicas e burocráticas. Não só incapaz de impedir a crise num sentido maior, esse governo será desafiado o tempo inteiro pelas elites intelectuais, artísticas e midiáticas. Como são homens sem ânimo, materialistas vulgares num sentido menor do que os petistas, se arrastarão perante a pressão dos inimigos. Um governo que começa com uma reforma ministerial e que volta atrás uma semana depois por causa de pressões só pode sucumbir. Michel Temer é uma personalidade pastosa à espera de um sopro para entrar na lata de lixo da história.

A nossa crise sistêmica é também parte da crise do mundo, com outros contornos e conjunturas. Os modelos já não nos deixam dúvidas. Ou refazemos nossa imaginação moral e histórica, reaproximamos experiência e expectativa, ou Prometeu será desacorrentado.

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Elton Flaubert

Doutorando em história das ideias (UnB). Estuda a fundação da ONU.