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Lula desce aos infernos – uma crônica curitibana

por Wagner Schadeck (10/05/2017)

Reencontro ninguém menos do que um antigo professor, agora assessor de certa senadora, a distribuir panfletos.

Hoje, fecha-se um ciclo na política brasileira. É a queda de um ídolo. Eu, que vira sua ascensão estelar, vislumbro seu formidável desastre.

Sou um contumaz frequentador de sebos. E encaminho-me ao coração da cidade, que guarda os volumes mais antigos. Sei dos perigos. Sigo entre os Lestrigões, os Lotófagos, o canto das sereias e as bocarras de Cila e Caríbdis na encruzilhada da Cruz Machado. Enquanto caminho, relembro a primeira notícia que tive de Luiz Inácio Lula da Silva em Curitiba.

Pela primeira vez, eleições municipais curitibanas teriam segundo turno. Era 2000, pós-Collor, e a esquerda marchava com as bandeiras da moralidade e da política participativa. Eleita, a bancada petista era a maioria. Para a prefeitura da cidade, jamais houve uma disputa tão ferrenha quanto aquela entre Ângelo Vanhoni (PT) e Cássio Taniguchi (PFL, atual DEM). Vanhoni era apoiado tanto por ex-candidatos derrotados quanto por figuras como o deputado André Vargas (PT, hoje condenado pela Lava Jato) e o famigerado Roberto Requião (PMDB).

Nas salas de aulas, professores ostentavam camisetas do candidato petista. Alunos adesivavam nas mochilas.

Celso, meu professor de sociologia, era peremptório:

– Sou contra a ALCA, o neoliberalismo e o FMI!, dizia, em pose de pugilista.

Certa vez, junto com os presidentes da União dos Estudantes e do Grêmio estudantil do colégio, arrebanharam os estudantes numa invasão ao terminal de ônibus, em protesto pelo “passe livre”.

Naquele fim de tarde, ele trazia o olhar estalado. Em sala, depois das apresentações do Lições do Príncipe, livro que justifica o Estado como moralizador da sociedade, unindo Gramsci e Maquiavel, ele convoca, a coçar a barba, todos para ver o futuro presidente Lula. Havia um ar messiânico naquela postura.

Como voltava de carona, meu primo, Romildo, um eterno seguidor do requianismo, me convenceu a assistir ao comício de Vanhoni, Requião e Lula. Com o carro paramentado com bandeirolas nos vidros e adesivos do partido, chegamos ao local. Em campo aberto, o palanque montado, a massa crescia naquele forno. Após atrações de artistas e intervenções de intelectuais, os políticos iniciaram os discursos. Os sujeitos anulavam-se na multidão. Reencontrei alguns colegas de sala de aula. Guilherme, um gordo apoplético, quase não me reconheceu. No afã vidrado de quem assiste a um filme, ele inconscientemente catava ranho do nariz e levava à boca. Também estava lá, com uma boina do Guevara, cintilando de broches do partido, o meu professor Celso. Não parecia humano; ele era uma caricatura de homem.

Naquele Woodstock, findos os discursos, coube a Vanhoni anunciar a última e esperada atração – Lula.

A multidão foi ao delírio quase erótico. A massa não estava olhando; na expressão rodriguiana sobre Sartre, ela estava “lambendo” Lula com os olhos. Eram bacantes anelando desmembrá-lo. Sim, não exagero ao usar a expressão “erótica”. Pude ouvir Celso comentar com Valentina, sua namorada feminista e vegana-hinduísta, que não se importaria em dividir a amásia com um companheiro, sobretudo, fosse um Guevara ou um Lula…

O discurso de Lula era inflamado. No microfone, a voz gutural e a língua presa eram firmadas com gesticulação. A massa queria abraçar aquele homem que veio nos salvar do imperialismo, da desigualdade e da corrupção. Havia no ar um acre odor de crisântemos esmagados.

Vanhoni não ganhara as eleições municipais daquele ano, mas em 2002, Curitiba não só ajudou a eleger Lula como Flávio Arns (PT, atualmente no PMDB) para o senado. Gramscista, Celso acertara: o partido estava ocupando os espaços, para que a revolução socialista acontecesse na consciência dos indivíduos, nas famílias, nas comunidades, etc.

Em 2003, durante a posse, enquanto Lula acalentava o mercado com a famosa “Carta ao povo brasileiro”, cuja criação intelectual hoje é reclamada por Emílio Odebrecht, militantes, como meu professor Celso, que viajara para Brasília, chafurdavam no espelho d’água.

Fruto do Foro de São Paulo, da Teologia da libertação, de movimentos sociais, da criação de ONG’s, da abertura educacional para a ONU, do gradual fortalecimento e tomada do estamento burocrático e intervenções estatais iniciadas pelos socialistas fabianos do PSDB, Lula chega ao poder. Beneficiado pela política macro-econômica, pelo crescimento da economia mundial e pelo fator China, a economia brasileira não tivera mérito algum de seu governo. No entanto, essas bases formaram o mito.

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Controlando a narrativa oficial, que cria um “espantalho de direita” forrado de vermes, com o apoio de artistas globais, jornalistas e intelectuais, casos de assassinato (como o de Celso Daniel) e corrupção (como o Mensalão) não impediram sua reeleição. Em seu plano, após pactos políticos, o PT faria um “giro à esquerda”, rompendo com o estamento burocrático e fundando o estado socialista. Embora Lula dissesse que não sabia de nada, seu amigo e ex-presidente do Uruguai, Mujica, em Una Oveja Negra al Poder, dizia que ele lhe garantiu que o mensalão era a única forma de se manter no poder. Na moral trotskista, roubar para a causa partidária é louvável – eis o punho cerrado da luta de Dirceu, Genoíno e André Vargas.

Mas Lula precisava conciliar os interesses internacionais do Foro de São Paulo e os interesses de políticos, como Eduardo Cunha e Renan Calheiros, e empreiteiras, como OAS e Odebrecht. Ao eleger e reeleger sua sucessora, Dilma Rousseff, o partido buscava a autonomia aparelhando as estatais e coletando propinas.  Era o meio para arrecadar dinheiro para a compra de apoio político e consolidação socialista. Enquanto isso, em 2014, no coração do governo, Dilma pupunha um decreto para compra de votos parlamentares que aprovassem as fraudes fiscais maquiadas pelo PL 36/14.

Nos bastidores, sem poder abafar as acusações que vazavam pela internet, Dilma et caterva lançavam sapatos nas engrenagens da Lava Jato, salvando Lula das investigações por meio de sua nomeação como ministro.

Num processo agônico de meses, Dilma fora impedida. A criação de narrativas saiu da cabeça dos intelectuais, como Augusto de Campos e Raduan Nassar, para ser reproduzida pela militância ignara. Fatos históricos passaram a ser forjados, como as discussões entre Campos e Gullar, e o discurso de Nassar, ao receber o Prêmio Camões.

Longe dessas narrativas literárias, os fatos políticos vinham à tona. Amplamente documentados, tanto por delações quanto por documentos, esses fatos têm desmantelado o projeto de poder dessa quadrilha partidária.

No segundo encontro entre Lula, Vacari e Renato Duque, segundo o relato deste, o ex-presidente perguntara sobre os negócios da Petrobras referentes a sondas… Lula não só estivera ciente disso, como também era o governante da “propionocracia”.

Respondendo por diversos processos criminais, hoje Lula presta um depoimento para a Justiça, aqui em Curitiba.

E ao caminhar rumo ao sebo, na André de Barros, esquina com a Muricy, reencontro ninguém menos do que meu antigo professor Celso, agora assessor de certa senadora, a distribuir panfletos. Pergunto a ele sobre a programação das manifestações. Ele me confirma o amplo apoio da UFPR. Conta-me que Guilherme, por ex., tornara-se um grande ativista pela democracia. Filiado ao PSOL, estudante bolsista e presidente do Centro Acadêmico, o gordo apoplético fora um dos mais veementes contra o “golpe” a protestar no prédio da Reitoria.

Por fim, pergunto a ele sobre Lula:

– Lula é o gênio popular; o Volksgeist! É o líder que nasce com o espírito popular e que vai guiar o povo para a salvação!

E, num rompante solene:

– …todos os pecados dele são redimidos, porque ele nasceu numa cultura burguesa, não socialista. Não é culpa dele. Enquanto não existir uma geração nascida em cultura socialista, a gente não vai ficar imune à tentação do Capital!

E complementa, com rosto carniceiro de quem espera a chegada do bode-expiatório:

– Hoje é guerra! Mesmo morto, Lula ressuscitará em 2018!

Ao me despedir, sinto no ar da cidade um cheiro alcalino de sangue.

Wagner Schadeck

Nasceu em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN) e com os periódicos Cândido e Rascunho. Em 2015, organizou a reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, pela Editora Anticítera.