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Até que as ovelhas se tornem leões

por Eduardo Matos de Alencar (31/05/2018)

O mercado de teorias para explicar a revolta dos caminhoneiros há de apresentar larga oferta nas próximas semanas e meses.

1. Do espanto, ou: Stranger Things

Em 2013, eu estava bem longe da rua. Quer dizer, pelo menos do ponto de vista de quem se enfiou de cabeça nos protestos de rua que abalaram o país durante boa parte daquele ano. Fazia pouquíssimo tempo que assumira um cargo junto à Secretaria de Segurança Urbana da Prefeitura do Recife, e andava às voltas com a tentativa de consolidação de mais uma política pública que nunca saiu do papel, com exceção de dois ou três projetos bacanas, mas sem escala – o Pacto Pela Vida do Recife.

Basicamente, a minha ideia e de algumas outras pessoas na Prefeitura era a construção de uma política municipal de prevenção à violência que pudesse complementar o caráter repressivo da política implementada pelo Governo do Estado na época em Pernambuco, que então desfrutava de boa avaliação, apresentando números consistentes de redução da violência.

Longe de apostar em panaceias que procuravam defender toda e qualquer ação social pelo conceito de prevenção da violência, minhas expectativas confluíam no sentido de direcionar políticas para determinados grupos particularmente vulneráveis à violência. Para ser mais específico, pretendia auxiliar na construção de projetos voltados para jovens em situação de Liberdade Assistida e egressos do sistema prisional, respectivamente a porta de entrada e a porta de saída do aparato repressivo do Estado brasileiro, além de intervenções situacionais capazes de dar conta da dimensão ambiental dos problemas da violência e da insegurança.

A ideia era sair um pouco das velhas fórmulas nacionais e adaptar modelos interessantes, como o Cease Fire, implementado em Boston e outras cidades norte-americanas, e outros programas de sucesso na Colômbia[i]. Além disso, queríamos estruturar uma série de intervenções urbanas em ambientes particularmente propensos à violência, a partir dos pressupostos da Teoria das Janelas Quebradas, tendo em vista um maior ordenamento da cidade e uma diminuição dos pequenos delitos que podem resultar em degradação do espaço urbano e outros problemas correlatos.

Não preciso narrar a curta e breve história de mais esse fracasso na longa série de esforços para que alguma coisa dê certo no poder público brasileiro. Em resumo, a equação que me levou à saída da Prefeitura envolvia ciumeira pessoal por parte de determinados secretários, descrença na eficácia política do investimento de recursos públicos em uma parcela da população que basicamente não rendia votos e uma resistência localizada das estruturas de poder local, que não estavam interessadas em perder apoio na ponta com a interrupção da venda de facilidades. Para se ficar em um exemplo, diante de um mapeamento, realizado por policiais militares a nosso pedido, dos bares nas periferias em que havia presença constante de traficantes de droga e/ou exploração sexual infantil, um funcionário responsável pelo setor de controle urbano da Prefeitura torceu o nariz e disse:

– É para interditar todos esses estabelecimentos? Vocês já perguntaram para o Prefeito? E para a Câmara?

A pergunta do funcionário fazia sentido. Em uma cidade com tamanha quantidade de regulações e tributos, a autorização para funcionamento de praticamente todos os pequenos negócios passava, de uma maneira ou de outra, pela rede de relacionamentos espúrios e trocas de favores entre mercado informal e máquina pública. Nesse sentido, conseguir um Alvará Definitivo é quase como adquirir um bilhete premiado na cidade, já que as exigências para estabelecimentos como bares e restaurantes chegam ao cúmulo de incluir, por exemplo, estacionamento privativo para determinado número de carros. Tudo muito bonito do ponto de vista dos departamentos de urbanismo e arquitetura. Para o subúrbio e a periferia, onde cada nesga de terreno é disputada à tapa, a regulamentação se traduz numa só palavra: acerto.

O negócio acontecia de maneira não muito diferente do que já tinha visto, trabalhando na Prefeitura do Rio de Janeiro ou em conversas com gestores públicos de outros locais do país. O comerciante abre um negócio sem nenhuma condição de atingir os parâmetros draconianos da municipalidade e vai tocando a coisa como dá. Um belo dia, chega um fiscal da vigilância sanitária ou do controle urbano e questiona sobre os problemas estruturais e a falta de autorização para o negócio funcionar dentro dos conformes. Para bom entendedor, meia palavra basta. Ou o sujeito acerta direto com o fiscal, ou procura a liderança comunitária do bairro, que, por sua vez, está ligada a determinado vereador da área, para conseguir um Alvará Provisório de funcionamento. No meio do caminho, provavelmente precisa molhar a mão de alguém ou prestar algum favor em termos de apoio político no bairro.

É claro que muitos desses negócios funcionavam de maneira errada. O comerciante que abre um espetinho ou barraca de bebida e churrasco no subúrbio não tem controle sobre o tipo de clientela que vai aparecer no local. Nem sempre também se trata de uma figura moralmente correta. Basta a presença de um traficante ou cafetão que lhe dê um pouquinho mais de clientela ou uma contribuição mensal por mês, e a boca de fumo ou a zona está instalada. A partir daí, o local facilmente se transforma em ambiente convidativo para o crime e a violência.

Diante desse problema, eu defendia que a prefeitura procurasse criar alguma inteligência para intervir em determinados espaços. Afinal, a aplicação rigorosa de uma lei draconiana dificilmente teria resultados positivos do ponto de vista da organização e do desenvolvimento econômico da cidade. Seria mais ou menos como tentar proibir peremptoriamente o estacionamento de carros nas calçadas de subúrbios sem garagem e ruas muito estreitas – um desastre completo. Mais ainda, o esforço sanitarista dificilmente passaria pela resistência das redes políticas locais supracitadas. Afinal, resultaria em interferência direta nas clientelas sobre as quais se assentava a própria lógica da política do voto. Então, a ideia de intervir de maneira mais focada parecia uma solução de meio termo que poderia alcançar algum sucesso. Não deu nem para o cheiro.n

O enfraquecimento da minha posição dentro da Prefeitura foi relativamente rápido. Pouco antes de junho, quando as movimentações nas ruas se iniciaram, ainda timidamente, eu estava engajado em tocar para frente a aprovação de um projeto na máquina pública, de modo que a explosão de participação social e violência política me pegou meio que perdido em papeladas sem fim sobre licitação e pareceres da procuradoria municipal.

Desnecessário dizer que a coisa me deixou em estado de perplexidade. No passado, eu também militara em grupos de esquerda e tinha feito das minhas em manifestações de rua. Particularmente nos protestos de 2005 em Recife, acompanhando de perto a introdução de técnicas de guerrilha e atuação difusa do movimento estudantil, que levou a um completo desequilíbrio das forças de repressão do Estado. A bem da verdade, na época, eu andava em franco processo de desilusão com a esquerda nacional, que só se acelerou quando percebi a presença de figuras obscuras no movimento, como militantes chavistas venezuelanos, finalizando com a decepção em relação aos acordos escusos entre as lideranças estudantis e o Governo do Estado, que esvaziaram totalmente o movimento depois que o objetivo eleitoral de enfraquecimento da imagem de Jarbas Vasconcelos foi alcançado. Essa experiência, somada com a leitura intensiva de autores conservadores, liberai e reacionários, foi mais do que o suficiente para o meu “Momento Kronstadt” de desilusão ideológica[ii].

2013, entretanto, tinha uma outra dimensão. Não só pela velocidade com que a escalada se dava. A quantidade de gente envolvida parecia fora de qualquer medida conhecida. O modo como a coisa se espalhou pelos demais estados também atingiu dimensões absolutamente inéditas. E a intensidade da violência política envolvida também não encontrava correspondência alguma na história recente do país. Além disso, a incapacidade que a grande mídia apresentava em manipular os fatos era estarrecedora. Os vídeos e informações divulgados pela Mídia Ninja e por pessoas isoladas nas redes sociais desmoralizavam cotidianamente os grandes meios de comunicação. A perplexidade atingia igualmente todo mundo que trabalhava na Prefeitura do Recife e no Governo do Estado de Pernambuco, incluindo os políticos. Ainda assim, em parte porque já tinham visto o caos se instaurar em São Paulo após a repressão das forças policiais, o aparato do Estado conseguiu lidar com relativa eficiência com o problema, tendo em vista o gênio político do então governador Eduardo Campos.

No dia da maior manifestação de rua na cidade, que levou uma quantidade inimaginável de gente para a Avenida Conde da Boa Vista, pude acompanhar de perto o que as máquinas partidárias corretamente lideradas eram capazes de fazer para lidar com uma movimentação amorfa e sem lideranças centralizadas como aquela. Autorizado pelo meu chefe imediato para acompanhar os protestos de perto, enquanto ele ficava na Prefeitura para organizar barricada e segurança, entrei no meio dos manifestantes para sentir o clima e tentar compreender o que estava acontecendo. As cenas que vi foram todas elas memoráveis.

Havia pessoas com camiseta vermelha do MST, do MTST, de partidos e grupos de esquerda; grupos espaçados de black blocs circulando aqui e ali; gente que claramente nunca tinha se metido em uma manifestação de rua na vida, com cara de deslumbramento e cartazes jocosos; além de outras figuras inéditas, como monarquistas com bandeira imperial, anarco-capitalistas, liberais e pessoas sem filiação ideológica evidente, com camiseta do Brasil, ainda que em número bastante reduzido frente aos demais grupos que usavam preto ou vermelho. As mensagens veiculadas pela massa se resumiam a uma ampla reivindicação por serviços, como saúde, educação, transporte, redução das passagens, habitação etc., incluindo cartazes e faixas em prol do Passe Livre, contra a corrupção e de rejeição à realização da Copa do Mundo em 2014, numa maçaroca que só denotava o caráter decentralizado e desorganizado do movimento.

Em meio a tudo isso, não demorei a perceber parte da estratégia empregada pelas autoridades para abafar o potencial destrutivo daquela turba, que já havia se manifestado em outras cidades do país. Grupos de militantes ligados ao PSB de Pernambuco, ainda que sem camisetas de partido, misturavam-se à massa desavisada. Alguns deles, antigos conhecidos meus do movimento estudantil, levavam alfaias e instrumentos musicais, ajudando a puxar palavras de ordem e cantigas. Pari passu, policiais à paisana mal disfarçados com camiseta social, óculos escuros (de noite) e calça social passavam constantemente mensagens sobre a movimentação dos black blocs. Em todo momento que estourava algum ato de violência ou depredação, a militância chapa branca logo puxava o grito:

– Sem violência! Sem violência!

Ato contínuo, vários deles se abaixavam, ao que eram seguidos mimeticamente pelos demais, de modo que black blocs e outros manifestantes mais instigados terminavam expostos a uma vaia e não encontravam estímulo para a depredação. Esse negócio deu mais ou menos certo também para desviar o foco do nome do então governador Eduardo Campos, já que toda vez que alguém tentava puxar um refrão mais agressivo, logo se ouvia:

– Ão-ão-ão-contra a corrupção! Ão-ão-ão-contra a corrupção!

Da mesma forma, no momento em que os manifestantes procuravam encaminhar a massa para o Palácio do Planalto, logo começaram a se ouvir gritos em sentido contrário, que se transformaram em cantiga:

– Aha-Uhu! O Marco Zero é nosso! Aha-Uhu! O Marco Zero é nosso!

De fato, a coisa deu certo para o governo. O grosso da massa seguiu para o Marco Zero, uma área da cidade sem qualquer relação com prédios administrativos, de modo que logo a turba se dispersou em meio a musiquinhas e palavras de ordem. Lembro bem que muita gente que esperava mais ação voltou para casa decepcionada. É verdade que um grupo menor seguiu para o Palácio das Princesas e depois para a Prefeitura, onde ocorreram a maior parte dos confrontos com a polícia. Grosso modo, porém, a coisa teve uma dimensão infinitamente menor do que o que ocorrera em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades do país.

Não se pode dizer que, depois disso, tudo voltou ao normal na máquina pública. A todo instante, a aglomeração de pequenos grupos e protestos espaçados colocava os políticos e gestores públicos de cabelo em pé. Foram montados gabinetes de crise e planos de contingência. Acompanhei pessoalmente reuniões em que o prefeito da cidade e outros secretários discutiam abertamente o impasse que esta ou aquela ação poderia provocar. A preocupação com o impacto político dos atos administrativos atingiu um patamar que ninguém antes tinha visto. A todo instante, as perguntas por detrás de qualquer decisão eram sempre as mesmas – e se o povo for para a rua por causa disso? E se tiver protesto neste dia? E se a coisa fugir do controle por aqui?

Não era para menos. Além do caráter difuso das manifestações e dos fluxos contraditórios de informação, que dificultavam qualquer nível de previsibilidade, havia um componente a mais naquilo tudo. Em São Paulo, no Rio de Janeiro e outras cidades, a perda de deferência para com as autoridades instituídas alcançara um patamar diferente do que o país estava acostumado a ver. Sem qualquer aviso, explodiam protestos que se deslocavam do âmbito público para o privado, por assim dizer. As residências dos políticos foram visadas, a aura de intocabilidade própria dessa classe parecia, pela primeira vez, ameaçada de alguma forma. Tinha-se a sensação de uma perda progressiva do respeito e da deferência. Era como se, de uma hora para outra, sua autoridade não parecesse mais ter tanto valor quanto antes.

Tudo aquilo era muito estranho, de fato. Eu já trabalhara tempo o suficiente com aquele tipo de pessoas para saber de uma coisa: eles estavam com medo. E sabiam, como todo o restante do país, que alguma coisa tinha mudado na ordem natural das coisas. Alguma coisa estava nascendo diante dos olhos de todo mundo e ninguém sabia muito bem dizer o que era. Dali em diante, a zona de incerteza com que costumavam lidar se ampliaria formidavelmente.

2. Do desengano à perplexidade, ou: A resiliência do velho

Junho de 2013, Recife

Não contei essa história para fazer uma análise mais profunda sobre o verdadeiro significado das manifestações de junho de 2013. Nesse aspecto, não me coloco como grande estudioso do tema, acompanhado atentamente as leituras, ainda que antagônicas, de gente mais bem informada que eu nos dois lados do espectro político, como o Flavio Morgenstern, com seu até agora insuperável Por trás da máscara, ou os artigos e palestras publicados pelo Idelber Avelar nos últimos cinco anos sobre o assunto. No geral, penso que a coisa toda se iniciou com um agregado de partidos e coletivos de esquerda com alguns interesses comuns, e outros nem tanto, de inclinação fortemente revolucionária. É possível que alguns desses atores estivessem interessados numa desestabilização da imagem da então presidente Dilma, para justificar uma retomada eleitoral do nome do ex-presidente Lula no ano seguinte. Também pode ser que muitos tenham apostado em criar um ambiente propício para a implementação de mudanças socialistas radicais no Brasil, aos moldes da Venezuela, Bolívia e outros países da América Latina.

Quem ou como se iniciou esse processo são questões que pouco importam debater a essa altura do campeonato. Tenha sido ou não induzido, não se tratou de um fruto de engenharia social eficiente, na medida que a coisa fugiu visivelmente do controle de qualquer centro decisório a partir de certo instante. E os ganhos políticos alcançados pelas mesmas forças que de início estimularam o movimento vieram mais pela sua descontinuidade e arrefecimento progressivos do que como fruto de um planejamento estratégico executado de maneira meticulosa.

De todo modo, várias novidades se apresentaram durante aqueles dias. Os potenciais de destruição e construção das redes e mídias sociais se revelaram indiscutíveis. A capacidade de influência e credibilidade da grande mídia foi abalada de uma maneira que tem se mostrado a cada dia irreversível. As estratégias de mobilização política horizontal, sem lideranças visíveis, inauguraram um modus operandi até então desconhecido pelas formas tradicionais de atuação política. Toda uma geração de pessoas que não tinha histórico de engajamento em movimentos sociais ou partidos políticos pisou pela primeira vez na rua e gostou. E o sentimento de rejeição às entidades tradicionais da política, principalmente aos movimentos e partidos de esquerda, deu finalmente as caras na política tradicional.

Em grande parte, aqueles dias expressavam um sentimento difuso de insatisfação que não encontrou elites políticas, empresariais ou de que qualquer espécie capazes de lhe darem forma e direção. Ainda que tudo fosse muito nebuloso, uma coisa era certa: estávamos todos diante de uma nova atmosfera social no país, visível para a maior parte da população, mas também para as elites políticas no comando da nação. A perplexidade nos olhares de todos os que vi de perto, às vezes bem disfarçada pela húbris que lhes é particular, não deixava qualquer dúvida quanto a um dado: o tempo se acelerava a olhos vistos, todo mundo percebia aquilo[iii]. E ninguém demonstrava qualquer domínio do processo.

É claro que o caráter difuso das manifestações logo foi apropriado pela classe política a seu favor. Como diz o ditado nordestino, quem não é Cavalcanti, é cavalgado. Os governadores se apressaram em reduzir na canetada o preço das passagens em inúmeros estados. E a presidente Dilma Rousseff converteu as manifestações em capital político para a aprovação de projetos até então engavetados como o Mais Médicos e o direcionamento dos impostos do Pré-Sal para saúde e educação. Prometeu também um bocado de coisas mais, que ninguém mais lembra, enterradas no cemitério das promessas não cumpridas. Avançou até onde viu que havia clima e o resultado positivo que alcançou nas eleições foi um sinal de seu sucesso relativo ao final da empreitada.

Pouco a pouco, a normalidade voltou à máquina pública. Junho de 2013 entrou na retórica de todos os partidos do espectro político como um símbolo da demanda popular pelo cumprimento das mesmas promessas de sempre, que igualmente restariam esquecidas alguns anos mais tarde. Os céticos fizeram um brinde ao ceticismo. E os engajados trataram de polarizar as eleições em 2014, cada um escolhendo um lado do espectro político admissível, representado pelos adversários históricos PT x PSDB, em uma das disputas mais agressivas da história do país, desde 1988.

Nesse meio tempo, continuei tocando dentro dos limites que me eram impostos meu trabalho na Prefeitura do Recife. Antes das eleições, fui convidado (talvez por influência de quem não me queria mais na capital) para tentar estruturar um projeto de prevenção à violência na Prefeitura do Ipojuca, município litorâneo riquíssimo, mas com uma política e uma administração herdeira do coronelismo da Zona da Mata, com pitadas de turismo predatório e forte influência de mercados ilegais de drogas, corrupção, habitação, prostituição, exploração sexual infantil e outras mazelas típicas de cidades como essa no Nordeste.

Em que pese a proposta da prefeitura na ocasião de fazer algo diferente, a coisa não foi para frente de fato, pelas mesmas razões de antes. Dessa vez, porém, o fato de operar como assessor direto na Secretaria de Planejamento serviu para entender um pouco mais de perto como o dinheiro chegava e não era distribuído como deveria. Além disso, a aproximação com os moradores das periferias e favelas do lugar me deu um pouco da dimensão ainda maior das mazelas daquele município. A se somar a tudo isso, o péssimo ambiente de trabalho me ajudou a tomar a decisão profissional mais importante da minha vida: largar o serviço público e dedicar-me inteiramente ao doutorado na universidade e ao magistério.

Olhando retrospectivamente para esses acontecimentos, acho que a desilusão que se abateu sobre mim na ocasião resultava em parte da atmosfera que se instaurara em 2013. Diferente de muita gente, não compactuei de ideais de que o Brasil estava mudando para melhor naqueles dias, mas obviamente percebia que alguma estava, sim, diferente. E também intuía, mediante o acesso a informações privilegiadas, como a classe política reagira a esse novo cenário. Ao mesmo tempo, as denúncias que começaram a pulular na Lava Jato evidenciavam aquilo que estava sendo preservado, mas nem elas pareciam fortes o suficiente para abalar os fundamentos sobre os quais se assentava o estamento burocrático brasileiro. Como todo mundo sabe, Eduardo Campos morreu, Dilma Rousseff ganhou as eleições, Marina Silva foi destroçada politicamente e tudo parecia voltar a ser como dantes no quartel de Abrantes. Logo, não valia a pena mais dedicar qualquer tempo da minha vida àquela gente.

O cálculo era simples. Tratava-se de somar esforços no conjunto de intelectuais que silenciosamente vinha se aprofundando e estudando temas comuns, num esforço de renovação da cultura brasileira. Objetivo já antigo, que tinha se iniciado com o pioneirismo do Olavo de Carvalho havia mais de uma década, cujo chamado para a dedicação a uma vida de estudos e escrita de livros calara fundo na alma de muita gente.

Àquela altura, o time se estruturava de maneira silenciosa. As pessoas começavam a se encontrar pessoalmente ou pelas redes sociais. Pouco a pouco, consolidava-se um ambiente intelectual que funcionava como uma espécie de dissidência das opiniões dominantes na esfera pública brasileira. Aqui e ali, despontavam promessas de que coisa boa prometia sair desse processo. Foi nele que decidi engajar minhas energias, que andavam divididas desde o início: primeiro, com a finalização de um romance que nunca foi bem recebido pelo mercado editorial; em seguida, com o aprofundamento dos estudos naquelas áreas para os quais me direcionara, por profissão e destino – crime, violência, segurança pública, prisão, facções criminosas, mercados ilegais, política pública, favela, lógica do voto etc.

3. Novo susto, ou: Sístole e diástole

Março de 2016, São Paulo

Foi em meio a esse processo de reestruturação de carreira que 2015 me pegou de surpresa. O início das manifestações de rua contra Dilma Rousseff foi um susto para muita gente. Também não quero aqui me aprofundar nas causas que levaram a isso. Creio que tivessem a ver com um processo eleitoral de natureza duvidosa, de parte a parte. E também com a polarização que então se instituiu. Afora isso, o desastre econômico que então se acercava do país colocava os olhinhos para fora. E parecia bem feio, convenhamos. Lembro bem do impacto que foi ver o feijão a R$ 12,00 em um supermercado de atacado no Recife. A incompetência da gestão não podia ser subestimada. Ao mesmo tempo, a Lava Jato começava a avançar com mais vigor. O escândalo tomava mais e mais dimensões mastodônticas. Não só eu, mas muita gente, teve a impressão de que aquela configuração de poder começava a se abalar profundamente.

Nesse cenário, surgiram os movimentos de rua de 2015. As pessoas que tem algum senso de memória e honestidade sabem que a coisa não começou com incitamento dos grandes partidos ou das redes de televisão. Ao contrário, no início daquele ano, o que se viam eram pequenas manifestações aqui e ali, algumas pedindo a saída da presidente, outras como protestos difusos contra a corrupção. Pela primeira vez, via-se certo consenso na adesão da camiseta verde e amarela como símbolo de luta contra a esquerda e a corrupção. Siglas como MBL, Vem Para Rua e Revoltados On Line começaram a pipocar em todo canto – certamente, os especialistas no assunto lembrarão de outras. Personagens até então desconhecidos começaram a dar as caras. E, de novo, em algum momento, a atmosfera carregada pareceu explodir mais uma vez.

Aquele que disser que previu a quantidade de gente que se viu no auge das manifestações contra a presidente Dilma estará mentindo. Pouco importa se elas apresentavam componente de classe bem delineado. Jamais se viu na história do país uma mobilização tão grande desse estrato da população. E, de resto, para o bom entendedor, uma coisa logo ficou clara: tratava-se de disputa entre elites, se considerarmos não só os instigadores e condutores de um lado e do outro do espectro político, como também a quantidade de gente que saiu às ruas frente à maior parte da população, que, como sempre, assistia a tudo isso entre indiferente e atônita.

De um lado e do outro da disputa, mas de maneira ainda mais intensa. A mobilização pelas redes sociais, a difusão de mídias digitais, a participação de gente que até então não tinha histórico de adesão a manifestações de rua, com a diferença que o componente agônico da disputa logo impulsionou uma atmosfera de guerra política e de informação. Em pouco tempo, a quantidade de vídeos, comentários, artigos, ensaios e informações como um todo produzidas por um lado e outro atingiu uma dimensão que pouco tempo depois levaria boa parte dos brasileiros ao cansaço. Naquele momento, entretanto, era difícil não ser capturado pelo clima que se instaurava.

Obviamente, no que pude, engajei-me do lado das pessoas que vestiam a camiseta amarela. Até porque, um novo componente que se apresentava ali era evidente – a dissidência até então silenciosa da qual eu e tantos outros fazíamos parte apresentou-se com todo o seu vigor. Jovens ostentavam sem qualquer medo de repreensão cartazes com dizeres como “Olavo tem razão”, “Abaixo o Foro de São Paulo”, “Fora comunistas” e outros lemas que até então me pareciam parte de um debate bem mais limitado e menos abrangente. Não era. Uma nova esfera pública inteira se apresentava ali, sem qualquer amor particular pelo candidato pelo qual votara nas eleições anteriores. Havia intelectuais, produtores de conteúdo para as grandes massas, consumidores e divulgadores. Era como se algo, no nível das multidões da rua, que se apresentara só em gérmen em 2013, houvesse finalmente saído à tona.

Como muita gente, fui contaminado pela atmosfera agônica. Frequentei uma e outra passeata em Recife, mas não conhecia ninguém aqui desse meio novo que emergia tão de repente – afinal, retornara para a cidade em 2013, depois de morar quase cinco anos no Rio de Janeiro. Desse modo, terminei ficando mais restrito ao âmbito das redes sociais. Discuti muito, com muita gente. Agredi e fui agredido verbalmente. Disse coisas das quais me arrependo e outras não. Ouvi barbaridades e impropérios os mais variados. Amigos de esquerda se afastaram definitivamente. Outras pessoas foram se aproximando devagarzinho. Tudo isso em meio ao esgotamento natural de um pai de primeira viagem e agora professor mal pago de faculdade particular pequena, direcionada para a imensa vaga de jovens de Classe C que batia à porta do ensino superior privado surfando na onda do FIES. Claro, quando a isso começaram a se somar as visitas na prisão e uma pesquisa de doutorado perigosa, estafante e surpreendente, o afastamento gradual do debate acabou se impondo de maneira inelutável.

Nesse cenário de insatisfação, muita gente se assustou com a consequência do agravamento da crise de autoridade e perda de deferência que se mostrava para o país na sua face mais ameaçadora. De um lado e outro do espectro político, o corpo a corpo entre população e representantes eleitos chegou às vias de fato em muitas ocasiões. Políticos e outras autoridades instituídas foram intimidadas ou agredidas nos aeroportos, nas ruas, em bares, restaurantes, hospitais e outros locais públicos. Por um cabelinho de sapo não chegamos a ver a repetição das cenas ocorridas em países do Leste Europeu, com políticos atirados para dentro das latas de lixo. Pessoas que pareciam em tudo avessas à lógica do enfrentamento físico, tão comum em sindicatos e movimentos sociais, agora não só mostravam disposição para tanto, como visavam o andar de cima da cadeia de comando, não mais as autoridades policiais. De repente, o teatrinho de manifestante versus policiais parecia estar se rompendo. Os responsáveis pelo desastre em que nos precipitávamos foram cobrados diretamente, olho no olho.

O desfecho daquele ano e meio de mais aceleração ainda todo mundo conhece. Dilma Rousseff foi deposta em um processo de impeachment. Os movimentos de rua que protagonizaram as mobilizações se aproximaram e dialogaram diretamente com os partidos tradicionais, que, em certo momento, aderiram ao processo, junto com os grandes veículos de comunicação. Mais tarde, muitos deles se consolidaram como produtores de conteúdo e formadores de opinião, com impacto direto no processo de desmoralização e enfraquecimento da esquerda brasileira, agravado pela intensificação das investigações da Operação Lava Jato, que tiveram um papel fundamental para o desfecho do embate que se iniciara em 2015.

Nessa altura, o primeiro a falar que aquilo não refletia só uma disputa política entre grupos ideológicos antagônicos, foi (mais uma vez) o Olavo de Carvalho. Eu não tenho data, nem registro aqui da sua primeira postagem no Facebook sobre o assunto, mas a lembrança é clara. Para o filósofo, a sociedade brasileira entrara em franco processo pré-revolucionário. E o sentimento de insatisfação difuso não se referia somente à esquerda no poder, mas a toda a classe política que se estabelecera desde 1988, cujos privilégios estamentários e falta de legitimidade teriam provocado uma verdadeira saturação popular, que eclodira já em 2013, de maneira ainda muito confusa.

O raciocínio, de início, parecia mais ousado do que se podia aceitar, mas a sociologia política o confirmava de alguma forma[iv]. Afinal, nos estudos sobre revolução, existe certo consenso de que processos pré-revolucionários não se instauram devido a uma exploração continuada de uma classe privilegiada sobre a outra. Ao contrário, o mais fundamental para a imposição de mudanças sociais drásticas diz respeito àquilo que a economia chama de privação relativa. Isto é, o impacto causado num grande estrato da população no momento em que, após um período ou momento de prosperidade mais ou menos substantivo, ele perde aquilo que conquistou ou não consegue mais atingir os patamares que lhes foram prometidos.

Deixo para os mais informados a definição precisa de quando tudo isso aconteceu. É possível pensar, por exemplo, na “bolha política” criada pela gestão do PT com a grande quantidade de investimentos e a inflação artificial da economia pela participação maciça do Estado, junto com toda a propaganda internacional a respeito do bom momento político, econômico e social brasileiro, que tinha na realização de eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas o seu principal estandarte. Acho que qualquer um pode se lembrar que havia um clima político de promessas generalizadas no ar. Teve gente gastando dinheiro, pegando empréstimo de banco, comprando imóvel para morar e/ou revender, fazendo reforma na casa, adquirindo eletrodomésticos e eletrônicos com prestações a perder de vista, comprometendo-se com crédito acadêmico para pagar faculdade, colocando o primeiro automóvel na garagem e, sobretudo, acreditando que podia melhorar de vida de verdade e criar seus filhos num país mais digno. E então, em algum momento – e não sei dizer em que ordem de fatores isso se deu – a coisa toda começou a parecer ameaçada pelo fracasso. 2013 parece ter sido a primeira manifestação desse sentimento. 2015 deixou ainda mais clara essa insatisfação “contra tudo o que está aí”.

Tem gente bem mais inteligente do que eu que consegue ver indícios desse processo inflacionário, por assim dizer, desde antes desses acontecimentos. Em uma conversa ontem, com Ernani Carvalho, cientista político da UFPE e excelente leitor do cenário político e institucional brasileiro, ele defendeu que essa situação que definia como de “anomia”, ou seja, um distanciamento progressivo das pessoas das instituições sociais e políticas, pode ser consequência do próprio ordenamento jurídico e institucional de 1988. Afinal, ela se expressaria, por exemplo, na Judicialização crescente da política, que tem procurado dar cumprimento a uma Constituição que tudo promete num país em que pouco se dá. O problema é que essa solução precária vai engessando o Estado pouco a pouco, tornando-o refém de amarras que paralisam cada dia mais a política e a economia nacionais. Dessa forma, quanto mais o Estado promete, menos pode dar e com menor qualidade ainda. Então, de alguma maneira, pensei cá com meus botões, começamos muito mal. É como se a derrocada do sistema político-institucional instituído em 1988 já estivesse traçada desde o início. Logo na largada, todos nós passamos a remar com mais ou menos energia, para frente ou para trás, contra uma maré que nos precipita para o caos e para uma nova ordem social. Ernani não acredita muito nessa possibilidade. Acha que anormal foi o grande período de estabilidade iniciado a partir do Plano Real, que agora demonstra sinais de esgotamento. Mas não é isso mesmo o que significa, então, a entrada num processo pré-revolucionário?

Estarei mentindo se disser que todas essas reflexões me vieram à mente entre 2015 e 2018. Algumas dessas ideias se apresentavam de maneira incoerente na minha imaginação e a realidade sempre apelava para um ceticismo minimamente recomendável num país como o Brasil. Afinal, o governo Temer se instituíra, com uma agenda de reformas liberalizantes que parecia mais uma vez tender para o projeto do centro político, outrora materializado nas reformas implementadas por FHC, o que prometia uma sucessão presidencial normal para esse vasto campo do espectro político nacional. Não sou economista, mas, nesse aspecto, acho que minha percepção reflete em muito a de boa parte das pessoas comuns, que não estão completamente erradas. Em que pesem os impactos econômicos positivos de muitas dessas iniciativas, elas vem associadas à manutenção e mesmo fortalecimento de privilégios do estamento burocrático brasileiro, que tornam deveras mais amargo qualquer tipo de carestia imposta direta ou indiretamente a todos nós nesse processo. Em resumo, políticos, magistrados, funcionários públicos de alto escalão e grandes empresários mancomunados com o setor público continuavam sem perder coisa alguma.

Bola para a frente. Segue o jogo. O arranjo eleitoral saído de 2016 parece confirmar os diagnósticos mais céticos. As promessas de renovação política dão com os burros n’água. Pouquíssimos vereadores da nova cepa são eleitos, praticamente nenhum prefeito. (P)MDB e PSDB lideram a disputa, com um rearranjo visível do centro, com o fortalecimento de partidos como PSD. Afora o enfraquecimento eleitoral do PT, a Lava Jato e todos os movimentos políticos que se lhe seguiram parecem não ter resultado naquilo que a maior parte das pessoas apostava. Candidatos como Jair Bolsonaro, se expressam parte dessa insatisfação difusa, não agradam a gregos e troianos, apresentando um teto de crescimento nas intenções de voto cada vez mais aparente, com uma dificuldade tremenda de encarar uma eleição em um país com 200 milhões de habitantes, sem dinheiro, sem máquina pública, sem tempo de televisão etc. Nesse ponto, a minha aposta no continuísmo foi feita no início deste ano, quando pouca gente cogitava seriamente o assunto. Em grande parte, ela ainda permanece válida. Mas então, eis que 2018 nos surpreende com outra coisa muito parecida com uma ruptura.

4. Agora vai, ou não…

A crise dos combustíveis se encaminha para o seu 10º dia na hora em que escrevo este ensaio. As informações de que disponho para falar especificamente sobre o evento, como a maior parte dos brasileiros, são escassas, desencontradas e, muitas vezes, contraditórias. De início, acompanhei o problema atentamente pela imprensa. E confesso que acreditava na hipótese mais óbvia de mais um grupo corporativista a fazer pressões por um acordão com um governo cada vez mais fraco, dessa vez com um forte componente empresarial dando apoio e talvez mesmo financiando ativamente os manifestantes.

O problema é que as coisas não funcionaram conforme o esperado, pelo visto para nenhuma das partes envolvidas no processo. A cobertura da imprensa, que em nenhuma vez sequer deu espaço para que os caminhoneiros e suas lideranças se expressassem ao vivo, manipulando a informação com a mesma inépcia e falta de profissionalismo que se viu nas crises anteriores, de 2013 e 2015, logo começou a ser contraposta ao material que chegava em profusão pelas mídias sociais. Essas, entretanto, tampouco apresentavam grande coesão. Tive de fazer um esforço enorme para entender quais fontes estavam operando e quem estava por trás de cada fluxo de informações. A essa altura do campeonato, duvido que qualquer um possa ter uma ideia muito clara do que aconteceu de fato durante esses dez dias que abalaram o Brasil, mas não custa ensaiar um esforço de inteligibilidade, ainda que apresentar uma ordem dos acontecimentos com valor histórico não seja o objetivo principal deste ensaio.

No meio da confusão, as primeiras luzes começaram a surgir de acaloradas discussões na internet. Foi no meio de uma delas que o Idelber Avelar me recomendou o post de uma jornalista, a Larissa Jancheta Riberti, talvez um dos mais esclarecedores de tudo o que li a respeito do início desta crise. Com experiência de seis anos de colaboração em um jornal de caminhoneiros e uma lucidez impressionante, o histórico oferecido por Riberti merece ser lido na íntegra:

*

“1) A greve começou como um movimento puxado pela CNTA, a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos. A convocação da paralisação se deu após encaminhamento de ofício ao governo federal em 15 de maio, solicitando atendimento de demandas urgentes antes da instalação de uma mesa de negociação. As urgências eram: o congelamento do preço do Diesel, pelo prazo necessário para a discussão sobre benefício fiscal que reduzisse o custo do combustível para os transportadores (empresas e caminhoneiros); e fim da cobrança dos pedágios sobre eixos suspensos, que ainda está acontecendo em rodovias de caráter estadual, conforme compromisso assumido pela lei 13.103/2015, conhecida também como Lei do Motorista.

2) No ofício encaminhado pela CNTA se fala na deflagração de uma paralisação em 21 de maio, caso não fossem atendidos os pedidos da Confederação. Também se explicita o apoio de 120 entidades representativas, mas não se esclarece se essas organizações são sindicatos patronais ou de autônomos.

3) A paralisação prevista para 21 de maio aconteceu, já que o governo se recusou a negociar com a CNTA e com demais entidades. Ao que consta nos comunicados de imprensa do organismo, também estavam na pauta discussões como o marco regulatório dos transportes e a questão da “reoneração da folha de pagamento”

4) Abro parênteses para o tema: desde 2011, a discussão da desoneração da folha de pagamento vem acontecendo no Brasil com vistas a garantir a geração de empregos. Nos anos seguintes ela foi ampliada para outros setores, como o do transporte rodoviário de cargas. Com a desoneração os patrões tem a possibilidade de escolher a forma mais “vantajosa” de pagar a contribuição previdenciária, recolhendo 20% sobre os pagamentos dos funcionários e contribuintes individuais (sócios e autônomos) ou recolhendo uma alíquota sobre a receita bruta (cujo percentual variava entre diferentes setores da economia, no caso do TRC é de 1,5 a 2%). No ano passado, o governo Temer, através do Ministro da Fazendo, Henrique Meirelles, anunciou a reoneração da folha de pagamento com a justificativa de que era necessário reajustar “as contas” da União. Atualmente, a ampliação da reoneração da folha de pagamento está sendo discutida no âmbito do TRC.

5) Com a mobilização que se potencializou em 21 de maio, uma série de pautas foram levadas para as “estradas”. Dentre os mobilizados nesse primeiro momento estavam autônomos e motoristas contratados. As informações que nos chegam é a de que eles estão deixando passar as cargas perecíveis e os medicamentos e os itens considerados de primeira necessidade.

6) A paralisação continuou e ganhou adesão das transportadoras que prometeram não onerar os funcionários nem realizar cortes salariais ou demissões por causa da greve. Afinal de contas, a redução do preço do Diesel também é do interesse da classe patronal.

7) A greve conta com grande apoio nacional, porque a alta do preço dos combustíveis afeta não só a prestação de serviços, mas a vida de grande parte dos brasileiros.

8) Os sindicatos estão batendo cabeça. De um lado, muitas federações e entidades soltaram nota dizendo que não apoiam a greve e que ela tem características de lockout justamente porque a pauta tem sido capitaneada pelos setores empresariais em nome dos seus interesses. Do outro lado, existem sindicatos de autônomos, como a própria CNTA, o Sindicam de Santos que puxou a paralisação na região do porto, e agora a Abcam, que recentemente se mobilizou na negociação, apoiando o movimento. Segundo nota, o presidente da Abcam esteve em Brasília hoje e depois de uma reunião frustrada disse que a greve dos caminhoneiros continua. A reunião tinha como objetivo negociar a redução da tributação em cima dos combustíveis.

Esse é o cenário geral da mobilização. Ela é composta por uma série de segmentos que conformam o TRC. E, obviamente, suscita algumas questões:

1) Existe uma clara apropriação da pauta dos caminhoneiros por parte da classe empresarial que exerce maior influência nas negociações. Isso significa que, por mais que a greve seja legítima, pode acabar resultando num “tiro pela culatra” a depender dos rumos tomados na resolução entre as partes e as lideranças.

2) Não existe uma pauta unificada, o movimento não é homogêneo, nem do ponto de vista social, nem do ponto de vista ideológico. Existe um grupo de caminhoneiros bolsonaristas, outros que são partidários de uma intervenção militar, outros pedem Diretas Já e Lula Livre. Ou seja, é um movimento canalizado principalmente, pela insatisfação em relação ao preço do Diesel.

3) Em função da grande complexidade e fragilidade das lideranças sindicais de autônomos, o movimento carece de uma representatividade que possa assegurar as demandas da classe trabalhadora, bem como que possa evitar o crescimento dos discursos conservadores e das práticas autoritárias. Enquanto isso, os sindicatos patronais acabam por exercer maior influência, determinando os caminhos da negociação e o teor das reivindicações.

4) Isso se faz notar, por exemplo, no tipo de reivindicação expressada por grande parte dos caminhoneiros que é a redução da tributação em cima do preço do combustível. Ora, todos nós sabemos que o cerne do problema é a nova política de preços adotada pelo governo Temer e pela Petrobras, que atualmente é presidida por Pedro Parente.

5) Novo parênteses sobre o tema: desde o ano passado, a Petrobras adotou uma nova política de preços, determinando o preço do petróleo em relação à oscilação internacional do dólar. Na época, esse tipo de política foi aplaudida pelo mercado internacional, que viu grande vantagem na venda do combustível refinado para o Brasil. Aqui dentro, segundo relatório da Associação de Engenheiros da Petrobras, a nova política de preços revela o entreguismo da atual presidência da empresa e governo Temer, que busca sucatear as refinarias nacionais dando prioridade para a importação do combustível. Tudo isso foi justificado na época com o argumento que era necessário ajustar as contas da Petrobras e passar confiança aos investidores internacionais.

6) É verdade, portanto, que o movimento em si tem uma percepção um pouco equivocada da principal razão do aumento dos combustíveis, mas isso não significa que toda classe dos caminhoneiros não faça essa relação clara entre o problema da política de preços da Petrobras e o aumento dos combustíveis.

7) De fato, portanto, o grande problema nesse momento é saber quem serão as pessoas a sentar nas mesas de negociação. De um lado, existe uma legítima expressão da classe trabalhadora em defesa das suas condições de trabalho e dos seus meios de produção. O aumento do Diesel é um duro golpe entre os caminhoneiros autônomos e a reivindicação da sua redução, seja pela eliminação dos tributos, seja pelo questionamento da política de preços da Petrobras, é legítima e deve ser comemorada.

8) A questão fundamental agora é saber o que o governo vai barganhar na negociação. Retomo, então, a questão da reoneração da folha de pagamento. O governo já disse que haverá uma reoneração da folha e esse é um dos meios de captação de recursos caso haja fim do Pis/Cofins incidindo sobre os combustíveis. Na prática, porem, a reoneração pode ter um impacto sobre os empregos dos próprios caminhoneiros, resultando em demissões.

9) Se houver o fim da tributação no Diesel, conforme inclusão do relator, Orlando Silva (PCdoB/SP), na Medida Provisória, de parágrafo que exclui a tributação, a classe trabalhadora e toda sociedade serão impactadas. Afinal de contas, com redução de receita, haverá, consequentemente, um corte no repasse da verba para a seguridade social, previdência, saúde etc”

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Não vou entrar no debate a respeito de onde acho que Riberti erra. Deixo a defesa da política de preços adotada na gestão de Parente para os economistas. Também prefiro não falar das esperanças infundadas sobre o potencial à esquerda do movimento. O que importa é entender que, no seu diagnóstico, já é possível verificar inúmeros elementos presentes nas crises de 2013 e 2015. Um grupo social difuso, insatisfeito com perdas acumuladas, organiza-se por meio de redes sociais para realizar uma manifestação para pressionar o governo. A quantidade de pessoas envolvidas, a falta de centralização das representações e as preferências ideológicas mais ou menos desencontradas não garantem uma estrutura visível que facilite as negociações. O governo, agindo no calor dos acontecimentos, interpreta tudo da pior forma possível. Juntam-se uns poucos representantes para encetar negociações, que são instantaneamente divulgadas por Temer e sua equipe como de sucesso garantido tão logo se encerram as reuniões. A todo instante, esquecem de combinar com os russos. As lideranças escolhidas não demonstram capacidade de desmobilização. O governo engrossa o tom, ameaça, coloca as forças policiais para iniciar uma repressão difusa e pouco clara. Abrem-se inquéritos na Polícia Federal. Raul Jungmann, ministro da Segurança Pública, parece recordar-se dos seus áureos tempos de comunista e fala em cadeia nacional que os “empresários irão se arrepender” de terem se engajado no locaute. As Forças Armadas são convocadas. Os próprios discursos oficiais, entretanto, não batem quando se vai de uma instituição para outra. O que se decide e se declara no andar de cima não chega no de baixo da mesma forma. O sistema frouxamente articulado das instituições do Estado se demonstra fragmentado nos seus elos de conexão, fluxos de informação e cadeias hierárquicas. Integrantes das forças policiais se colocam literalmente a favor dos caminhoneiros. A crise de autoridade se intensifica. Em certa altura, o fluxo de informações desencontradas e por vezes antagônicas se torna inapreensível. Os grupos intervencionistas, que se mostraram de uma capilaridade bem maior entre as pessoas mais pobres do que qualquer grupamento político organizado da direita, tratam de difundir uma série de falsas promessas e prognósticos que inflamam os caminhoneiros ainda mais. Cheguei a ouvir áudios de pessoas com claramente menos idade que eu se fazendo passar pelo General Villas Boas a prometer uma intervenção caso os caminhoneiros resistissem mais um dia – quantas e quantas vezes não prometeram uma solução para esse desastre por “só mais um dia”! A turma da CUT tenta se aproximar e é rechaçada. Bolsonaro aparece como líder da massa, mas logo recua quando vê que não terá capacidade política de conduzir o movimento para onde deseja e freá-lo assim que for mais conveniente. O senso comum desses homens lhe torna certamente o candidato mais simpático a quase todos eles. Nesse aspecto, a capilaridade do candidato também se revela de maneira impressionante. A intervenção militar, por sua vez, ganha força como uma alternativa imediata. Para a maior parte daquelas pessoas comuns, sem formação política sólida ou ideias bem articuladas entre si, as Forças Armadas aparecem como a única classe honesta, patriótica e capaz de dar uma solução final a todos os problemas a que nos arrastaram uma sucessão de governos corrompidos. Na hora que alguém fala que a greve vai acabar, logo outros dizem que não. A imprensa anuncia uma coisa, a realidade diz outra. Os caminhoneiros, percebendo o impacto que causaram no país, começam a falar em derrubada de governo. Vários transmitem mensagens sem qualquer uniformidade em apelo à população.

Chega!

Não, a coisa não acaba por aí. Essa foi minha reação em determinado momento, quando decidi consultar as fontes primárias para saber o que estava acontecendo ao tentar me aproximar minimamente desse turbilhão num outro nível. As pessoas que me acompanham pelas redes sociais são testemunhas desse esforço, em tudo sincero e obviamente sujeito a erros de avaliação. Três fontes foram fundamentais para me ajudar na orientação, além das amplamente acessíveis para todo mundo: as gravações de px dos caminhoneiros divulgadas pelas redes sociais, os canais de Youtube intervencionistas e, obviamente, os protagonistas desse processo – os próprios caminhoneiros.

A forma como me aproximei dessa classe em tudo distante de mim pode ser resumida brevemente. O Luiz Ramiro, cientista político e articulista do Proveitos Desonestos, disponibilizou o contato de um deles, com quem sua família tinha alguma proximidade no Sul. Fagner, que estava num bloqueio em Goiás, deu uma entrevista para a gente que foi bastante esclarecedora. O homem confirmou boa parte da narrativa que apresentei aqui. Evidentemente um trabalhador como muitos outros, sem muita formação, com o mesmo senso comum conservador, permeado por ideias nem sempre coerentes entre si, como a maior parte dos brasileiros e da população de qualquer lugar do mundo. Pelo que nos falou, mas também pelos áudios, vídeos e discursos de outros caminhoneiros, havia algo ali mais ou menos evidente: a raiva dessa gente tinha um alvo claro, no final das contas – tributos.

Com toda a certeza, foi Filipe G. Martins o primeiro a fazer essa observação em um post a respeito do assunto. Em 25 de maio, levantou que as semelhanças com um evento como o Tea Party não podiam ser ignoradas. Parte dos liberais nas redes sociais, assim como eu, de início, acharam tudo aquilo um exagero. Sobraram piadas com associações entre caminhoneiros e os Founding Fathers. Nesse ponto, o desconhecimento geral de história se associou com o fetiche puro e simples. Talvez imaginassem que Benjamin Franklin ou George Washington tenham estado ali, ombro a ombro com a massa do Porto de Boston, liderando um processo dirigido a partir de um eixo programático claríssimo, para ser protagonizado por estivadores, pequenos burgueses e comerciantes leitores de Edmund Burke e perfeitamente educados como qualquer lorde inglês. Pouco importa. A analogia do Filipe era certeira. Estava-se diante de um gérmen de rebelião tributária, protagonizada por uma classe de pessoas sem qualquer consciência da sua natureza essencialmente política. O termo foi inclusive cunhado pelo Eduardo Gianetti da Fonseca, numa entrevista para a Folha dois dias depois da postagem do Filipe. Ou seja, estava claro que, novamente, uma janela de oportunidades se abria diante dos brasileiros. De novo, porém, não havia elites políticas, empresariais e intelectuais prontas a direcionar aquilo para um projeto efetivo de mudança da sociedade brasileira.

Nessa altura, os grupos de rua à direita do espectro político, que exerceram o protagonismo na crise de 2015, começam a fazer debates internos e a jogar informações nas próprias redes para sondar a conveniência e os riscos de um envolvimento direto. Eu mesmo tive conversas por redes sociais com pessoas influentes no MBL e no Livres para defender que aquilo deveria ser apropriado de alguma forma, ainda que não se soubesse claramente onde se iria chegar o final do processo. De início, muitas dessas pessoas cogitaram essa possibilidade de jogar mais gasolina na fogueira, para ver até onde a coisa iria. E esse processo de deliberação pode ser aferido pela própria ordem de postagens das suas comunidades na internet. Enquanto a maior parte das suas estrelas evitavam emitir opiniões peremptórias sobre o tema, começaram a pulular aqui e ali memes e outros materiais de divulgação que serviam para sondar o seu público. “Não tem dinheiro para reduzir o combustível? Que tal acabar com os cargos comissionados?” O tom era claro e a repercussão também foi evidente. Na hora em que um desses grupos perguntou se as pessoas estariam dispostas a sair nas ruas para protestar contra o fim dos privilégios, as respostas vieram em uníssono – SIM.

Eu não posso julgar, nem tenho acesso ao tipo de informação que essas pessoas dispunham no momento. Em situações assim, dispara-se uma ou outra gracinha, mas a verdade é uma só: a incerteza é sufocante para todo mundo. Passos em falso podem resultar em desastres irreversíveis. Os latinos diziam que a fortuna favorece os audazes, mas o ditado popular reza que prudência e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém. As escolhas entre uma fonte ou outra de sabedoria numa hora dessas podem ser igualmente válidas, dependendo da posição de quem as toma e dos riscos que enfrenta. A única coisa certa em uma situação assim é a seguinte: a certeza absoluta é o refúgio dos desesperados.

O que eu decidi fazer então? Testar o discurso. Botei a mão na massa. Juntei algumas pessoas da família da minha esposa, tradicional de um bairro de subúrbio aqui de Recife, quase toda ela composta de operários qualificados, comerciantes e funcionários públicos de baixo a médio escalão, e me engajei na confecção de algumas faixas com dizeres de rejeição aos altos tributos. Em seguida, penduramos uma delas na praça principal do bairro e gravamos um vídeo de 2 minutos comigo falando sobre o tema, da maneira mais clara possível.

Aqui, a fortuna me favoreceu mesmo. Enquanto gravava o vídeo, um caminhoneiro estacionou na galeria ao lado. Falamos com ele, que logo saiu para ouvir. Ficou muito impressionado. Trocamos telefone, disse-me que queria repassar a coisa para os seus. No caminhão, um papel riscado em papel pautado, escrito “Intervenção Militar Já”. O homem, simples, conforme nos falamos depois pelo Whatsapp, não tinha qualquer indício de formação política sólida. Mas apresentava, como o Fagner, a mesma expectativa que alguma coisa tinha de mudar de verdade nesse país. E igualmente não aguentava mais ouvir falar de imposto sobre qualquer coisa.

Nesse ponto, a minha intuição terminou se confirmando de novo. O vídeo se espalhou feito rastilho de pólvora entre as dezenas de grupos de caminhoneiros. Recebi feedback de pessoas do Mato Grosso do Sul que o aplaudiram veementemente. Todos com que falava queriam que a população fosse para rua para pedir o mesmo. Estavam desesperados. Conforme o tempo avançava, suas forças iam se esgotando e eles tinham plena consciência que não resistiriam sozinhos. Não queriam apoio de CUT, partidos ou movimentos de vermelho. Imploravam para que as pessoas fossem às ruas com as cores da bandeira nacional. Fui apresentado por telefone a algumas lideranças locais. Conversei pela rede social com gente que nunca imaginaria conhecer antes. Chegamos a tentar articular um encontro em um dos pontos de manifestação de Pernambuco. Só que a falta de gasolina me impedia de realizar o deslocamento sozinho. No meio do processo da articulação de uma carona, o meu celular ficou sem bateria e só fui religa-lo no outro dia, para descobrir que eles tentaram se comunicar comigo a noite inteira, em vão. Assim, na quarta-feira, dia 30, reiniciamos o contato, mas fomos todos pegos de surpresa pelos avisos de Brasília de chamado à desmobilização pelas principais lideranças do movimento.

Nessa altura, acompanhar o clima de desânimo que se seguiu entre esses homens, ainda que por celular e à distância, não foi fácil. Ainda que focos de resistência persistissem aqui e ali, boa parte deles já tomava o fim da greve como inevitável. Nenhum parecia satisfeito com as concessões feitas pelo governo no processo. Estavam cansados, sujos, sem dinheiro, preocupados, com medo, ansiedade, desespero e frustração. A incompreensão e revolta diante da inação da população mais geral, para além da parcela que se manifestou fortemente no fornecimento de comida, nas buzinas e nos gritos de entusiasmo, eram generalizadas. Faz bem pouco circularam alguns áudios produzidos por intervencionistas que prometiam a interferência dos militares, caso resistissem só mais um dia – só mais um, oh, Deus do céu! Nisso, porém, também se viram frustrados irremediavelmente. A imprensa veiculava declarações de Villas Boas, Mourão e outros generais sobre o caráter “tresloucado” desse tipo de reivindicação. A sensação de abandono que experimentaram quando Bolsonaro pediu que desmobilizassem o movimento foi ainda mais intensa com essa “capitulação” dos heróis nacionais. De novo, um setor amplo de pessoas alimentou a esperança momentânea de que alguma coisa mudasse de verdade a face carcomida da Nova República. E, mais uma vez, a frustração e o ressentimento se seguiram a um novo espasmo pré-revolucionário.

5. Réquiem ou anunciação

É claro que o mercado de teorias para explicar a revolta que ora dá fortes indícios que se encaminha para seu final há de apresentar larga oferta nas próximas semanas e meses. Gente mais capaz do que eu há de dar sua contribuição, que pode ser diametralmente oposta à que tentei fazer neste ensaio que mistura análise com depoimento biográfico. As acusações de locaute, interferência política, corporativismo irresponsável e ignorância generalizada devem se suceder e grassar com força na grande imprensa. Estou do lado dos que veem bem mais que isso nessa tragédia que veio a se somar ao nosso currículo de desastres sucessivos dos últimos anos.

Repito que os mesmos elementos pré-revolucionários que pululam desde 2013 estavam presentes dessa vez. Até mesmo a hipótese do crédito excessivo para a compra de caminhões da parte de trabalhadores autônomos, tão criticada pelo campo da esquerda, faz algum sentido no contexto da privação relativa que tem ensejado momentos como esse. O sinal do senso comum, entretanto, tem se revertido talvez de maneira inelutável para um espectro que é próprio da direita. Cada dia mais, brasileiros perdem completamente a confiança no Estado, na classe política e na possibilidade de obter algum retorno pelos tributos exorbitantes que pagam de maneira silenciosa e nem sempre evidente. E pouquíssimos deles parecem devotar grandes amores por alternativas estatistas que se materializem na assunção de mais poder e centralização na mão de políticos iluminados, tidos quase universalmente como de péssima reputação. Tem muita gente que vai novamente colocar a culpa disso tudo nesse agregado de demandas e expectativas contraditórias. Já eu acho que ele compõe parte do repertório do senso comum de qualquer lugar do mundo. Parafraseando o famoso carnavalesco, quem tem ideologia e projeto de país é intelectual, o povo gosta é de uma vida boa e sem grandes sofrimentos.

Claro que ainda se trata de uma minoria, comparada à grande quantidade de pessoas que permaneceu em suas casas, ainda que expressando franco apoio ao movimento dos caminhoneiros. Nesse aspecto, a novidade é que o debate se deslocou para o andar de baixo, pegando absolutamente todas as elites (incluindo a chamada classes falante) de calças nas mãos. Até mesmo o sindicalismo tradicional terminou humilhado, confuso e acuado ao final de tudo isso. Como no passado recente, em 2013 e 2015, ninguém foi capaz de prever o início de um processo de tamanha magnitude. Fica só uma certeza em tudo isso: o esgarçamento cada dia mais preocupante do tecido social brasileiro. Se o ordenamento político-institucional de 1988 pudesse ser visto como uma bexiga, cada vez que um novo influxo de desordem se lhe injeta, mais parece que a fina camada que o mantém inteiro ameaça se romper de uma vez por todas.

O que falta para que isso aconteça? Muita coisa, certamente. Uma, mais do que todas as outras: um projeto. Nietzsche dizia que só se destrói completamente aquilo que se substitui[v]. O ordenamento político-institucional vigente parece ser um exemplo perfeito e acabado daquilo que falava o filósofo alemão. Alguma hora, alguém vai ter que fazer alguma coisa. Pode ser uma revolução, uma grande reforma, uma restauração ou o início de um novo ciclo político. Pode ser de dentro para fora ou de fora para dentro. Como resultado das eleições ou precipitado por elas. Pode vir pelo centro ou pelos extremos do espectro político brasileiro. Ou pode ser que surja desde baixo, das entranhas mais obscuras do corpo social, onde residem as forças telúricas que conformaram o terror que assolou o século XX praticamente inteiro. Acreditem ou não, acho que a História bate finalmente à nossa parte – com o perdão do maiúsculo, senhoras e senhores.

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[i] As iniciativas implementadas na Colômbia nas últimas décadas tem sido tema de uma vastidão de estudos de inúmeros pesquisadores, institutos de pesquisa e organismos internacionais. Há projetos interessantes e outros nem tanto. Os interessados podem começar por aqui: dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/3646400.pdf

[ii] Em remissão à Revolta de Kronstadt, uma insurreição dos marinheiros soviéticos da cidade portuária de Kronstadt contra o governo da República Socialista Federativa Soviética da Rússia. Tratou-se de um episódio marcante de revolta contra o regime bolchevique dentro do território russo, que teve início em março de 1921. Kronstadt, no Golfo da Finlândia, e a 30 kilômetros de São Petersburgo foi palco dessa insurreição contra o governo soviético, pelos mesmos que outrora haviam atuado pela consolidação daquele regime. A repressão brutal contra os trabalhadores foi uma das primeiras fontes de desilusão que levou a várias dissidências do comunismo a partir de então. Para entender mais como acontece esse tipo de processo, recomendo a obra fundamental de Flavio Gordon, A corrupção da inteligência, publicada pela Editora Record.

[iii] Para uma discussão filosoficamente qualificada do conceito, recomendo o livro de Reinhart Kosellec, Futuro Passado, publicado no Brasil pela Editora Contraponto.

[iv] Para os interessados, recomendo particularmente o livro de Pitirim Sorokin, Sociology of Revolution, mas também os capítulos finais do clássico de Pierre Bourdieu, A Distinção.

[v] Para ser franco, li a referência em textos do Olavo de Carvalho e ainda não a encontrei nos livros do filósofo alemão. Como o Orlando Fedeli já disse em mais de uma ocasião que o trecho era de Napoleão, sem também citar a fonte, prefiro registrar aqui minha ignorância. Podia ser da minha falecida avozinha, que pouco importaria. O que eu não podia era citar o negócio como meu, afinal.

Eduardo Matos de Alencar

Escritor e sociólogo, doutorando na UFPE. Editor do site Proveitos Desonestos.