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Qual o valor da filosofia?

por Laura Elizia Haubert (16/05/2019)

A filosofia é capaz de livrar-nos da tirania do hábito.

Não é nenhum segredo que há um tempo considerável as humanidades andam mal das pernas, entre elas, principalmente, a velha filosofia. Cada vez mais dedos são levantados para apontar sua inutilidade, seu elitismo ou seu excessivo academicismo, que julgam não servir para muita coisa, afinal.

Frente a essa posição, acredito não meramente na importância de afirmar que a filosofia ainda tem valor, mas em tentar refletir e apresentar de modo claro e acessível em que sentido e por que a filosofia ainda tem valor. Assim, detenho-me na questão: qual o valor da filosofia?

É claro que esse é um tema rico, amplo e complexo – como quase todos os temas quando começamos a pensar a fundo sobre ele. E pior, a própria filosofia, o que é, e qual seu valor, são também um objeto filosófico de discussão. Pode-se falar da filosofia de um autor x ou y, referindo-se a valores e posições completamente diferentes. Isso leva a uma aparente confusão sobre o que faz a filosofia e para que ela serve. Tentarei aqui responder a segunda pergunta (a mais fácil), e vou deixar a primeira para um outro texto.

Curiosamente, os recentes e constantes ataques à filosofia não são um evento propriamente novo. A ideia de que a filosofia é algo abstrato e uma pretensão meio tola parece fazer parte do senso comum, e se apresenta ainda na Antiguidade – basta recordar a anedota que Diógenes Laércio nos transmitiu (I, 1, 33): “Contava-se que certa vez, quando era levado para fora de casa por uma velha serviçal para observar as estrelas, Tales caiu numa vala, e seu grito de socorro levou a velha a dizer: ‘Como pretendes, Tales, tu, que não podes sequer ver o que está à tua frente, conhecer tudo acerca do céu?”.

Essa anedota tornou-se uma espécie de lugar comum para traduzir a percepção que se tinha do filósofo. Alguém dedicado à teoria, à pura contemplação, e “desligado” do mundo real. Mas essa percepção não corresponde com a realidade dos fatos, com o que faziam e fazem os filósofos do passado e dos dias de hoje. Mesmo o pobre Tales tinha preocupações bastante reais com o mundo, e ficou conhecido também por sua atuação política. Sobre essa imagem, Platão, no seu livro Teeteto, trata com ironia a respeito.

A imagem da filosofia aparentemente decaiu ainda mais mediante as maravilhas produzidas pela ciência nos últimos séculos. Perto da ciência aplicada e dos negócios, ela parece uma ocupação inocente, e até mesmo inútil, e isso tem gerado uma série de debates do porquê continuar a investir em filosofia. (E esse debate, tampouco é novo, basta dar uma espiada na situação da filosofia nas universidades alemãs no século XIX).

Contudo, essa visão da filosofia parece resultar de uma certa concepção equivocada do que a própria filosofia faz e do valor do que ela produz. Diz-se que seu saber é algo inútil, e que não teria grande serventia para o homem prático. Mas, como colocou Russell (2005), esse homem prático que reconhece as necessidades materiais, que procura alimento, que leva em conta o mundo, não daria conta de suprir todas as demandas humanas. Ainda que se vivesse bem, ainda que não houvesse pobreza, enfermidade, ou qualquer outro tipo de coisa semelhante, ainda assim haveria muito a ser feito para transformar a sociedade em algo válido, e os bens dos quais trata a filosofia são justamente esses bens que chamaremos por uma questão de facilidade, de bens do espírito. Os bens gerados pela filosofia são justamente esses bens do espírito.

Ora, mas podemos nos dar ao luxo de procurar esses bens do espírito quando há tantos problemas práticos? Devemos mesmo fazê-lo?

Acredito que sim, e acredito nisso porque a filosofia, assim como os outros tipos de saberes, gera um conhecimento, ainda que não seja um conhecimento prático no sentido de “utilidade”. É verdade, os que a acusam grosso modo, neste sentido. A filosofia é um conhecimento de questões e dúvidas.

O conhecimento que ela gera é um tipo de conhecimento de clarificação, conceituação, e reflexão que está na base de quase todas as demais áreas. Para dar exemplos simples: um físico utiliza uma equação sobre tempo e espaço sem se preocupar em ser capaz de responder e perguntar o que é o tempo, ou o que é o espaço. A questão da essência do tempo é uma questão filosófica. Assim como também o são as questões sobre o que é a arte – se um artista faz a arte, um filósofo reflete sobre ela.

É verdade que os filósofos, até agora, não tiveram muito êxito, como explicou Russell (2005, p.173), em dar conta dessas questões. Se perguntarmos a um historiador, um matemático, ou mesmo um mineralogista, sobre as verdades estabelecidas em sua área, ele poderá falar tanto tempo quanto quiser. O mesmo não ocorre com a filosofia. Parecemos ter de debater, ainda, questões colocadas na Antiguidade. Porém, “é verdade que isso se explicam, em parte, pelo fato de que, assim que se torna possível um conhecimento preciso naquilo que diz respeito a determinado assunto, este assunto deixa de ser chamado de filosofia e torna-se uma ciência especial.” Antes, todo estudo de corpos celestes fazia parte da filosofia; hoje, ele pertence à ciência autônoma da astronomia. O mesmo se pode falar da psicologia, da física, etc.

Então, num primeiro momento, destacamos que se a filosofia é marcada por incertezas, por mais questões do que por respostas, deve-se também ao fato de que os problemas para os quais já temos uma resposta vão se tornando uma ciência autônoma.

Há, também, um segundo tipo de incertezas que fazem parte da filosofia. São questões que interessam profundamente à psique humana, e que embora seja possível permanecerem insolúveis, não podemos deixar de nos questionar a respeito. São questões como: o universo tem algum propósito? o que são o bem e o mal? o que é a arte? a consciência é algo natural e permanente ou um mero acidente?

Muitos desses problemas foram, e são, colocados por diferentes filósofos, sem que se chegue a nenhuma verdade última. E, como dizia Russell (2005, p.174), “no entanto, por fraca que seja a esperança de vir a descobrir uma resposta, é parte do papel da filosofia continuar a examinar tais questões, tornar-nos conscientes da sua importância, examinar todas as suas abordagens, mantendo vivo o interesse especulativo pelo universo, que correríamos o risco de deixar morrer se nos limitássemos aos conhecimentos claramente verificáveis.”

Então, a filosofia trabalharia em duas frentes de questões: as que viram sua própria ciência autônoma e aquelas insolúveis que ainda permanecem em seu campo.

O que ambas tem em comum? Ambas dividem uma incerteza que é a principal característica da filosofia.

O homem que não tem a menor noção da filosofia caminha pela vida afora preso a preconceitos derivados do senso comum, das crenças habituais da sua época e do seu país, e das convicções que cresceram na sua mente sem a cooperação ou o consentimento deliberado de sua razão. Para tal homem o mundo tende a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objetos habituais não levantam problemas e as possibilidades estranhas são desdenhosamente rejeitadas. (RUSSELL, 2005, p. 175).

Contrário a este homem, quando se começa no caminho da filosofia, damo-nos conta de que mesmo as coisas mais bobas que fazemos e pensamos levantam questionamentos, porque dependem de um contexto, estão imersas numa tradição, partem de pressupostos que sequer sabíamos que tínhamos. Quando questionadas, não podemos dar uma resposta completa para a coisa que antes nos pareciam simples.

Basta nos recordarmos da passagem de Agostinho (1987, p.218) sobre o tempo

Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.

Ora, de fato, a filosofia não parece capaz de responder por completo as dúvidas que suscita. Porém, ela é capaz, e nisto consiste o ganho da filosofia para todos, de livrar-nos da tirania do hábito ao mostrar-nos diversas possibilidades de pensar, ampliar nossa capacidade de imaginar e argumentar. Ela diminui as certezas que temos, e aumenta a atenção, o conhecimento, sobre o que não sabemos. E quanto mais sabemos, mais sabemos que, bem, não sabemos. Ela nos torna mais humildes, e mais compreensivos.

Assim, a filosofia tem o valor não apenas crítico de questionar, de gerar um novo tipo de pensar que pode conduzir a uma nova ciência, mas gera a admiração diante do mundo, mostrando que mesmo as coisas mais familiares possuem um brilho desconhecido. A filosofia serve para nos libertar dessa esfera mais instintiva, familiar, e nos revela o mundo, nos torna mais livres.

Sendo mais poética, a contemplação da filosofia serve para libertar o homem das divisões, dos preconceitos que lhe foram passados, a não mais dividir o mundo entre amigos e inimigos, em aliados e adversários, mas prover uma visão mais alargada do que o indivíduo é e pode ser.

Prefiro encerrar com palavras de Russell (2005, p.179-180), e não minhas, porque elas me parecem bastante claras para transmitir o valor da filosofia. “[…] ela deve ser estudada, não em virtude de quaisquer respostas definitivas às suas questões, uma vez que nenhuma resposta definitiva pode, via de regra, ser conhecida como verdadeira. Ela deve ser estudada por causa dos próprios problemas, porque estes problemas ampliam as concepções que temos acerca do que é possível, enriquecem a nossa imaginação intelectual e diminuem a arrogância dogmática que impede a especulação mental; mas, sobretudo, porque, graças à grandeza do universo que a filosofia contempla, a mente também engradece e se torna capaz daquela união com o universo que constitui seu bem supremo.”

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REFERÊNCIAS

LAÉRCIO, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução do grego, introdução e notas Mário da Gama. 2 ed. Reimpressão. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.

RUSSELL, Bertrand. Os problemas da filosofia. Tradução de Jaimir Conte. Florianópolis, 2005.

PERINE, Marcelo. Ensaio de iniciação ao filosofar. São Paulo: Edições Loyola, 2007.

SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Nova Cultura, 1987

Laura Elizia Haubert

Graduada em Filosofia pela PUC-SP. Mestranda em Filosofia na mesma instituição.