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Caminhar, branco e criança, na lua

por Amálgama (29/06/2009)

por João Grando * – Aqui mesmo neste site, falei isso de Obama: “Na última terça [então dia 4/11/2008], um Lindemberg filho de um Richthofen poderia atirar uma Isabella Nardoni pela janela que não teria vez nos telejornais: só deu Obama. A Ivete poderia assumir um namoro com a Luana Piovani e o Dado Dolabella […]

por João Grando * – Aqui mesmo neste site, falei isso de Obama: “Na última terça [então dia 4/11/2008], um Lindemberg filho de um Richthofen poderia atirar uma Isabella Nardoni pela janela que não teria vez nos telejornais: só deu Obama. A Ivete poderia assumir um namoro com a Luana Piovani e o Dado Dolabella com o Júnior da Sandy & Júnior, que também não teria vez: Obama para o povo também”. Aplica-se o mesmo aos últimos dias e a alguns dos que estão por vir: Michael. Parou tudo: o Pelé (sinônimo de raro rei indiscutível) do pop morreu.

Sob um viés costurado pelo pop, música, comportamento etc, Michael Jackson era um dos poucos até então que podia olhar Elvis nos olhos, olhar os Beatles nos olhos, Bob Dylan olho no olho (talvez o Kurt possa também, mas eu gosto demais de Pixies e Smashing Pumpkins, então fico meio de cara com o obscurecimento destes pelo Nirvana, mas sob o mesmo viés especificado antes talvez ele também possa). E claro, há a Madonna, que sempre soou para mim e para a torcida do Flamengo como uma esposa do Michael, ou uma amante, irmã, melhor amiga, uma que exerce um contraponto a ele, como a relação entre o esforço disciplinado (ela) e a criatividade perturbadora e meio rebelde (ele), o que se percebe bem pelos caminhos opostos que ambos tomaram dos 90’ em diante, da relação oposta que tiveram com seu público: baseando-se nos exageros, tudo que Michael fizesse era estranho, ruim, e Madonna, por outro lado, é “tudo de bom”, para usar um termo muito associado a ela.

As personalidades se encontram num limbo da realidade, situam-se entre coisa (objeto) e ser humano, entre sonho e cotidiano, sendo a imagem o elo dessas extremidades. Por trás da ilusão de uma personagem de cinema, gigante, antigamente preta e branca, com sua voz chegando por auto-falantes, há a referência a um ser humano comum, que se revela parecido com cada um de nós.

Os Beatles são eternamente jovens, suas vozes estão lá, suas imagens estão por aí: e nelas nada mudou. Enquanto coisa, as personalidades podem desprezar o tempo, os limites, o politicamente correto. É sexy Stanley Kowalski ser um explorador, mas isso é errado na realidade, Marlon Brando não poderia ser assim de verdade. Na ilusão, na fantasia, permite-se tudo. Mas na realidade (e nós exercemos o papel de seus agentes) isso não pode, há limites.

Então Michael foi além: queria que sua pessoa pudesse tudo que sua imagem poderia. Queria concretizar a ilusão. Michael encarnou por excelência o não-humano: conquistou através do estranhamento (bizarrice se identifica melhor com o povo) um modo de não ser pessoa comum, de ser coisa, de estar não sobre ou sob, mas à margem do comum, ser por excelência uma personalidade, numa época em que ser personalidade é muito mais fácil, em que há muitas delas, em que pessoas comuns podem se passar (e assim de certa forma ser) por elas. Michael conseguiu quebrar as regras numa época em que somos motivados a quebrar as regras. E foi além.

Michael queria ser branco
Uma vez li um texto do Arnaldo Antunes que falava sobre a balela que era criticar Michael por isso. As pessoas fritam no sol em vez de ficarem no mar para se tornarem morenas e não há problema algum nisso. Silicone, botox, peruca, chapinha, maquiagem, creme, perfume: em maior ou menor intensidade, são todos meio artificiais de se melhorar segundo as próprias escolhas: quem não está feliz consigo tem o direito de mudar e assumir as conseqüências por isso – efetivamente isso não deveria ofender ninguém, cada um é dono do próprio nariz, quem não quer não faz etc. Mas ele não, ele não podia: ele era negro, e não querer ser negro era negar a raça, era ser racista.

Michael pôs seu filho bebê numa janela para os fotógrafos
Palmas para ele: o fato de os fotógrafos estarem lá dispensa maiores comentários. E o bebê estava bem seguro.

Michael queria ser criança para sempre
As pessoas vêem filmes como Em busca da Terra do Nunca e pensam: “Pobre injustiçado homem, vítima do moralismo”: mas é o Jonnhy Deep, e ele é bonito, ele é puro; mas Michael não, ele quase não tem nariz, ele é monstro: ainda temos o velho problema da Bela e a Fera (Madonna e Michael?): não sabemos lidar com a feiúra, com o estranho, com a dúvida. Dúvida, porque pedofilia que eu saiba nunca foi comprovada. E se foi, sabe-se lá como foi. Eu, se tivesse que chutar, pois nunca me informei muito a respeito, apostaria na inocência do Michael e, mais que isso, na sua ingenuidade incompreendida (e talvez incompreensível).

Michael queria ser rei
Isso ele foi.

* João Grando é funcionário público (filósofo, portanto), escritor não reconhecido, estudante de artes, técnico em administração não praticante, meia-armador amador e amador também para com o resto das coisas da vida. Blog: joaogrando.blogspot.com.

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