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Mario Vargas Llosa na literatura e na vida real

por Amálgama (03/06/2009)

por Julio Daio Borges * – Jorge Mario Pedro Vargas Llosa nasce em Arequipa, no Peru, a 28 de março de 1936. Seus pais se separam antes de seu nascimento e – por conta de seu avô, que é nomeado cônsul honorário – sua família materna passa a viver na Bolívia. Vargas Llosa estuda até […]

por Julio Daio Borges * – Jorge Mario Pedro Vargas Llosa nasce em Arequipa, no Peru, a 28 de março de 1936. Seus pais se separam antes de seu nascimento e – por conta de seu avô, que é nomeado cônsul honorário – sua família materna passa a viver na Bolívia. Vargas Llosa estuda até o quarto ano primário no Colegio La Salle de Cochabamba e, com o regresso de sua família ao Peru, em 1945, completa o ginásio no mesmo La Salle de Lima. Conhece seu pai só com dez anos de idade, mas este se reconcilia com sua mãe durante a adolescência de Vargas Llosa, obrigando-o estudar dois anos no Colegio Militar Leoncio Prado de Lima.

Embora falte pouco para concluir o primeiro grau, e embora tenha ingressado, já como colaborador, nos jornais locais, Vargas Llosa não termina seus estudos no Colegio Militar, retornando a Piura, cidade onde havia residido de passagem, e onde presencia a encenação de sua primeira peça teatral, La Huída del Inca. As diferenças com o pai culminam com o ingresso de Vargas Llosa no curso de Letras e Direito, da Universidad Nacional Mayor de San Marcos, e com o casamento, aos dezenove anos de idade, com sua tia mais politizada, Julia Urquidi (a quem dedicaria Tia Julia e o Escrevinhador, de 1977).

Os primeiros anos de casamento são de “urgências econômicas”, conforme descreveria em sua biografia. Vargas Llosa chega a exercer sete ofícios diferentes, desde responsável por fichamento de livros até redator de notícias na Radio Central (hoje Radio Panamericana do Peru), até revisor de nomes em lápides de cemitério. Em 1959, graças a uma bolsa de estudos “Javier Padro”, segue para a Universidad Complutense de Madrid, onde se tornará doutor em Filosofia e Letras. Apostando numa bolsa, que posteriormente não se concretiza, segue ainda para a capital da França. Entre “a escassez e a angústia”, na luta para sobreviver em Paris, Vargas Llosa aceita dar aulas de espanhol na escola Berlitz e até se torna locutor na ORTF francesa, também jornalista na seção espanhola da France Presse. Obtém algum êxito com a edição de seus primeiros contos, Los Jefes, ainda em 1959, mas sua sorte só mudaria a partir de 1963, quando publica A Cidade e os Cachorros (inspirado em suas experiências no Colegio Militar). Seu primeiro casamento, contudo, fracassa, e o divórcio ocorre em 1964.

Ainda em 1964 regressa ao Peru. E, em 1965, casa-se novamente – desta vez com uma prima, Patricia Llosa. Com ela tem três filhos, Álvaro (1966), Gonzalo (1967) e Morgana (1974). Ainda em 1967, Vargas Llosa passa a trabalhar como tradutor da Unesco, na Grécia, ao lado de Julio Cortázar. E até 1974, sua vida se centra, mais uma vez, na Europa, com passagens por Paris, Londres e Barcelona. É em 1969, aos 33 anos, que publica um de seus mais importantes romances, Conversa na Catedral (um monumental roman-fleuve). E é em 1971 que Vargas Llosa publica García Márquez: Historia de un Deicidio, sua tese de doutorado pela Universidade de Londres.

Depois desse verdadeiro tour de force, entra numa fase que o especialista Raymond Williams chamaria de “o descobrimento do humor”, onde se destacariam obras como Pantaleão e as Visitadoras (1973). Ainda impressionariam, em termos de disposição e fôlego, A Guerra do Fim do Mundo (1981), aparentado de Os Sertões do nosso Euclides da Cunha, e igualmente sua candidatura à presidência do Peru, em 1990, quando seria derrotado por Alberto Fujimori. Em 1993, obtém nacionalidade espanhola – sem perder a peruana – e fixa-se definitivamente em Madri. Em 1993, também, publica El Pez en el Agua, seu livro de memórias. Em 1994, torna-se membro da Real Academia Española. E, entre suas obras mais recentes que merecem destaque, estão A Festa do Bode (2000) e Travessuras da Menina Má (2006).

Os leitores brasileiros podem conferir, sempre em tradução, as colunas semanais de Mario Vargas Llosa, para o jornal El País, republicadas dominicalmente em O Estado de S. Paulo. Mas, em termos literários, o grande acontecimento mesmo foi o desembarque do selo Alfaguara em 2006, hoje parte da editora Objetiva (por sua vez adquirida pelo Grupo Santillana), onde estão sendo reeditadas as obras de Mario Vargas Llosa, replicando a mesma qualidade gráfica com que são lançadas no mundo hispano-americano. Não se pode negar que o editor Pedro Paulo de Sena Madureira fez um belo trabalho, traduzindo anteriormente as obras de Vargas Llosa, na editora da família Siciliano, mas só atualmente temos o privilégio de adquirir títulos (inclusive de outros autores hispano-americanos) em lançamentos simultâneos. Dele, no Brasil, a Alfaguara já (re)publicou A Cidade e os Cachorros, Pantaleão e as Visitadoras, Tia Julia e o Escrevinhador, A Guerra do Fim do Mundo e Travessuras da Menina Má.

E uma bela introdução à obra de Mario Vargas Llosa é Elogio da Madrasta, uma novela de 1988, cuja reedição, pela Alfaguara, acaba de sair do forno no Brasil. Alternando ficção e temas da mitologia, numa grande homenagem à literatura erótica, Vargas Llosa conta a história de Lucrécia e dom Rigoberto. Ele, casando-se em segundas núpcias; ela, ainda no esplendor de seus 40 anos. Tudo iria bem, num eterno idílio amoroso, não fosse por Alfonso, ou “Fonchito”, o filho de dom Rigoberto – que, aceitando tão amplamente a chegada da madrasta, envolve-se com ela, estabelecendo um triângulo amoroso, e desastroso. Repleto de humor, com acabamento fino e ritmo quase perfeito, a trama provoca o mesmo suspense de um folhetim, mas atingindo um nível literário que só pode ser encontrado, em termos de autores contemporâneos, numa obra de Gabriel García Márquez.

Imitando a ficção, reza a lenda que os dois grandes da literatura latino-americana contemporânea teriam se desentendido por causa de uma mulher, décadas atrás – e que só haviam se reconciliado ultimamente, por conta da edição comemorativa, da Real Academia Española, de Cem Anos de Solidão… Verdade ou não, Vargas Llosa merece ser lido, para além da ideologia, pois sua obra literária guarda momentos de brilho.

 
* Julio Daio Borges é editor do Digestivo Cultural.

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