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por Estêvão dos Anjos * – Recentemente Alagoas tem passado por um momento de efervescência no cenário musical. Em apenas dois meses, três dos principais representantes de nossa música lançaram discos novos: a Banda Ôxe, há anos afastada de Alagoas, lançou seu segundo disco, Karranka, realizando shows, inclusive no exterior. No sábado, 23 de maio, […]

por Estêvão dos Anjos * – Recentemente Alagoas tem passado por um momento de efervescência no cenário musical. Em apenas dois meses, três dos principais representantes de nossa música lançaram discos novos: a Banda Ôxe, há anos afastada de Alagoas, lançou seu segundo disco, Karranka, realizando shows, inclusive no exterior. No sábado, 23 de maio, foi a vez de Sonic Jr lançar seu Orgânico. Mas foi a banda Gato Zarolho que revelou-se uma surpresa agradável, lançando seu primeiro disco, Olho nu fitando átomo, um trabalho que diverge bastante do padrão regionalista de outras bandas locais.

Existente há cinco anos, a banda formada por Marcelo Marques (voz e violão), Vitor Peixoto (guitarra), Yuri Pappas (bateria), Bruno Ribeiro (baixo), Bruno Brandão (percussão), Daniel Soares (percussão) e Gilliane Santos (vocais) possui como marca a diversidade sonora e a poeticidade nas letras. Passando por rock, sambas, bossas, cantos medievais e canções infantis, o repertório, de uma forma ou de outra, atinge uma boa variedade de gostos.

Longe dos palcos há cinco meses, a banda volta de forma meteórica, vendo mais de mil downloads do disco em seu site, em apenas uma semana, o que só reforça essa visão de longo alcance a que o trabalho se predispôs. (Para baixar o disco inteiramente grátis, visite www.gatozarolho.com.br)

O disco inicia-se com a já transformada em hit “Inês é morta”, brincadeira feita em cima da história de amor entre a castelhana Inês de Castro e Pedro I. Inês desperta a paixão de um Pedro já envolvido em um casamento que renderia bons frutos a Portugal. Para evitar o enlace, Inês torna-se madrinha do filho de Pedro, o que tornaria a relação incestuosa. Com a morte do menino, nada impediria o amor dos dois, a não ser a relação política entre Pedro e sua esposa. Esta, buscando afastar os dois, faz com que Inês seja enviada para viver reclusa em um castelo. Após algum tempo Pedro fica viúvo, mas é forçado a realizar outro casamento, o que se recusa a fazer, pois deseja apenas Inês. Para pôr um fim a essa história, o pai de Pedro, Afonso IV, manda degolar Inês.

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Essa faixa não é a única referência a épocas remotas no disco. Indo mais longe na linha do tempo, uma composição em estrutura poética medieval: “Fábula Trancosi”. Apesar de ser a mais entediante do disco, ela soa como ponto diferencial no álbum e mostra até onde pode ir a diversidade da banda.

Mas é em “Trajetória” que as raízes se mostram mais presentes. Tendo como foco a história de amor entre Lampião e Maria Bonita, a composição de Igor Brasa, Marcelo Marques e Bruno Ribeiro busca mostrar a predominância do amor em situações adversas. Mesmo no sertão escaldante e em estado de guerra o amor prevalece. A música, a mais bela do disco, é na verdade uma homenagem aos sertanejos em sua batalha diária.

Apesar de aparentar um tom de conservadorismo ao se fixar em sonoridades (“Fábula Trancosi”) e temas antigos ou característicos do nordeste (“Trajetória”), Olho nu…, tal qual um Guimarães Rosa, consegue, por meio de seus versos, ser universal falando de seu quintal, conforme eles mesmos indicam em “Alasca”: “Entre a caverna e o laser, os homens são o que são”, diz uma linha.

Outra faixa que merece destaque é “O mágico”, trilha infantil composta por Marcelo Marques para sua filha. Apesar de ser taxada de tola, a união da voz suave de Gilliane casa-se bem com as palavras que, apesar de não sabermos bem aonde querem chegar, conferem à composição uma aura infantil e ao mesmo tempo surreal ou onírica, criada pelas mãos mágicas da poesia.

Além de estilos mais enraizados, Olho nu fitando átomo traz estilos mais “modernos”, como a bossa-nova em “Bossa atômica”, composição que traz a assinatura de um dos novos nomes da literatura alagoana, Milton Rosendo; e o “Samba safado prum dia triste”. Duas faixas que destoam das outras músicas do disco, mas que se enquadram perfeitamente em toda a variedade musical que a banda constrói.

 
* Estêvão dos Anjos, jornalista, mora em Maceió. Blog: artenaarteria.blogspot.com.
[foto na abertura do post: por Thiago Rebêlo/Divulgação]

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