PESQUISA

Hoje, em todo o mundo, os fãs de James Joyce (1882-1941) comemoram o Bloomsday. Foi no dia 16 de junho que Joyce ambientou toda a ação do seu Ulysses, um dos mais revolucionários livros de todos os tempos. O Amálgama publica abaixo alguns trechos selecionados das páginas iniciais de O gozo de Ulysses, livro recém-lançado […]

Hoje, em todo o mundo, os fãs de James Joyce (1882-1941) comemoram o Bloomsday. Foi no dia 16 de junho que Joyce ambientou toda a ação do seu Ulysses, um dos mais revolucionários livros de todos os tempos. O Amálgama publica abaixo alguns trechos selecionados das páginas iniciais de O gozo de Ulysses, livro recém-lançado de Noga Lubicz Sklar*, uma espécie de diário de leitura do clássico joyceano.
—–

Capa da primeira edição de UlyssesJá tendo lido, e com prazer inenarrável, as primeiras em páginas do velho Ulisses de James Joyce – meu livro fechado de cabeceira há mais de 15 anos e que só agora, nestas férias de verão, me dedico a encarar –, não consigo entender o motivo de ter hesitado tanto. Deve ter sido o marketing ou, no caso, o antimarketing, reforçado em reunião de família por minhas jovens primas, que acham que esse livro é chato: um adjetivo que não se aplica, de maneira alguma, a este ícone da literatura. Incomum, tudo bem, pode ser, meio difícil até para quem, não tendo o hábito da boa leitura, se limita aos lançamentos – resenhados e apreciados por razões às vezes obscuras (pra não dizer comerciais mesmo). Agora, chato? Inovador, isso sim. Poético. Instigante; gratuito, nunca: dá pra sentir a clara intenção do autor por trás das muitas citações, dos neologismos, da ordem expressa das palavras. E nada de preguiça de (re)escrever. Ou pressa em publicar.

Por enquanto estou lendo, claro, a versão em português de Antônio Houaiss e, por falta de opção melhor**, confiando nela, na lendária erudição do tradutor e na ampla compreensão que ele teve do original, coisa que eu certamente jamais alcançarei. Porque o próximo passo, me acreditem, é perscrutar o original que encomendei na Amazon.

Pois é. Com meu vício de folhear à frente, já deu pra perceber: quase tudo que se considera avançado, transgressor e original na literatura contemporânea está lá, pasmem, há quase cem anos pra todo mundo ler. Meu romance Hierosgamos, por exemplo, tem trechos inteiros que parecem copiados dele, mas como, juro que não sei. Deve ter sido por osmose, por metempsicose (“mentem-se o quê?”). Diz Augusto de Campos, na orelha desta edição de 1966, que “a divulgação deste livro é capaz de contribuir, e muito, a curto e longo prazo, para o soerguimento qualitativo da nossa prosa que, salvo raras exceções, ainda não se apropriou do legado da revolução joyciana”. Ah bom, muita coisa mudou desde então. Ou não?

*

Descubro no Google que até fome o escritor passou para escrever Ulisses, e quem garantiu a sobrevivência dele, da família dele e do próprio livro, foi Sylvia Beach – editora americana radicada em Paris, fundadora da livraria Shakespeare and Company –, ao transcender as limitações de um mercado que, na época, imaginem, quase relegou Ulisses à não-publicação.

*

Vocês, eu não sei, mas eu não sabia disso: o Ulisses, banido sob a acusação de obscenidade, só veio a ser publicado nos EUA – graças à sensibilidade do juiz federal John M. Woolsey – em 1933, onze anos após a primeira edição na França. “Joyce foi atacado e frequentemente incompreendido, por ter sido fiel à sua técnica e por ter tentado, honestamente, dizer o que pensavam seus personagens”, declarou na sentença o juiz Woolsey. “Foi sua tentativa honesta e sincera de atingir este objetivo que o levou a usar certas palavras geralmente consideradas sujas e que motivou o que muitos julgam ser uma preocupação excessiva com sexo no pensamento dos personagens.” Nossa. Eu não fazia ideia. Imaginem um livro tão proibido sendo lido e apreciado na Minas careta dos anos 1960 e, pior, pelos meus pais.

“O caso de Ulisses”, afirma o editor americano do romance, “marca um momento de virada. Foi eliminada a necessidade de hipocrisia e circunlóquio na literatura. Os escritores já não precisam buscar refúgio em eufemismos, e podem agora descrever as funções humanas básicas sem medo da lei”. Uau! James Joyce, imaginem… Hermético autor de um romance globalmente famoso, complicadíssimo apanhado de neologismos incompreensíveis… Pois lendo, descobri que não é nada disso.

O livro é intuitivo. É bem-humorado. E acaba sendo sofisticado ao retratar sem nenhuma evasiva, “com franqueza inédita”, o pensamento fluente da “classe média baixa da Dublin de 1904”. Na versão original, fica bem clara a origem sonora dos tais coloquialismos, pinçados genialmente, se não me engano, da linguagem descuidada das ruas: eis aí a delícia de Ulisses, legítimo parque de diversões da mente. Segue o extrato de um dos meus trechos favoritos:

Um jornal. Gostava de ler no assento. Espero que nenhum macaco resolva bater no que estou. Agachado no trono dobrou seu jornal, virando as páginas sobre os joelhos nus. Algo novo e fácil. Sem pressa. Segura um pouco. Nosso bocado premiado. O Golpe de Mestre de Matcham. Escrito pelo Sr. Philip Beaufoy, do Clube dos Frequentadores de Teatro, Londres. Leu calmamente, se controlando, a primeira coluna e, cedendo, mas resistindo, começou a segunda. A meio caminho, vencendo a última resistência, permitiu que os intestinos se aliviassem calmamente enquanto lia, lendo ainda pacientemente, a leve constipação de ontem quase resolvida. Espero que não grande demais pra causar hemorróidas de novo. Não, no ponto. Ah. Isso. Prisão de ventre, um tablete de cáscara-sagrada. Rasgou com firmeza metade do conto premiado e com isso se limpou. Depois levantou as calças, ajustou-as, se abotoou. Empurrou a idiota da porta desconjuntada da casinha e saiu das sombras para o ar livre.

Isto é Joyce, gente. Maravilhoso, não? Ops. Virginia Woolf não gostou nem um pouco, achou o texto vulgar, nojento: problema dela e de quem concordar com ela, de quem se limita – por vontade própria – a um eufemismo cultural imaturo, ameaça à evolução da raça. Me contem fora dessa.

* Noga Lubicz Sklar nasceu em Tibérias, Israel, em 1952. Graduou-se em arquitetura no Rio de Janeiro. Desde 2004, dedica-se exclusivamente à literatura e escreve em seu blog de crônicas. O gozo de Ulysses é seu terceiro livro – para comprá-lo, clique aqui.

** Quando a autora primeiro publicou esse texto, em seu blog, a nova tradução de Ulisses, por Bernadina da Silveira Pinheiro (2008) ainda não havia sido publicada.

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.