PESQUISA

O rock nacional morreu?

por Amálgama (05/06/2009)

por Estêvão dos Anjos * – Lançado com a proposta de fazer uma retrospectiva dos clássicos do rock nacional, o recente Biquini Cavadão, Ao Vivo no Circo Voador (Som Livre, 2008), vai mais longe do que, a princípio, se propõe: o álbum sugere um questionamento acerca do que se vem produzindo neste gênero aqui no […]

por Estêvão dos Anjos * – Lançado com a proposta de fazer uma retrospectiva dos clássicos do rock nacional, o recente Biquini Cavadão, Ao Vivo no Circo Voador (Som Livre, 2008), vai mais longe do que, a princípio, se propõe: o álbum sugere um questionamento acerca do que se vem produzindo neste gênero aqui no Brasil.

Com 21 regravações dividida em um CD duplo, a banda formada por Bruno Gouveia (voz), Miguel (teclados), Carlos Coelho (guitarra e violão) e Álvaro Birita (bateria), e que possui alguns músicos convidados, como Valmer Carvalho (sax) e agora Marcelo Magal (baixo), passeia por grande parte das canções que foram marco de uma época caracterizada pela poesia e canções de protesto.

No repertório, músicas de bandas consagradas, outras acabadas, mas que possuem letras que já fazem parte do melhor de nossa música, como “Índios”, da Legião Urbana; “Astronauta de mármore”, dos gaúchos do Nenhum de Nós; “Marvin” dos Titãs; e “Infinita Highway”, dos Engenheiros do Hawaií.

Além de canções nacionais, duas internacionais foram inclusas, destoando completamente da proposta do disco (“Taned love”, conhecida na versão gótica de Marylin Manson, e “Overkill” do Men at work, banda que, sinceramente, desconhecia).

O ponto fraco do CD encontra-se nas versões que não superaram as originais. A voz de Bruno encontra-se descompassada, ou soa estranha aos versos tornados conhecidos pela voz de Renato Russo em “Índios”; assim como a versão de “Fórmula do amor”, popularizada pelo Kid Abelha e por Leoni.

Mas não é nas canções que se encontra a tônica desse álbum. Atravessamos tempos em que o rock nacional encontra-se ofuscado por diversos gêneros que pipocam aos montes por aí, como o eletrônico, grande estilo da década, ou por “roqueiros” que fizeram do movimento uma modinha e mais um produto comercial, indo em direção contrária aos primórdios do gênero. Uma cantora que ainda ameaçou dar uma luz de esperança foi a baiana Pitty em seu primeiro disco, Admirável mundo novo, mas decepcionou nos dois seguintes. Em suma, o gênero perdeu sua identidade meio aos já mencionados novos estilo.

O hardcore pareceu ser, tempos depois, o movimento que viria resgatar a “aura” dos anos 80 e sua voz de protesto, mas tomou o mesmo rumo seguido por Pitty, tornando-se mais um na multidão. Alguns representantes ainda buscam manter-se firme em seu propósito de ser uma voz de alerta, porém as letras, quando chegam à sociedade, chegam com um discurso taxativo, beirando uma rebeldia sem causa e, pior, sem poesia – quando comparada a época de ouro resgatada pelo Biquini Cavadão.

Pergunto-me o que estaria sendo produzido no cenário fértil de hoje por bandas como Plebe Rude e RPM, representantes exponenciais dos que possuíam forte entonação política em suas, antes de qualquer coisa, poesias.

Até mesmo bandas que possuíam essa postura mais crítica parecem ter “mudado de time”, como se diz por aí. É o caso dos Titãs, que desde a década de 90 se popularizou mais (popularizar no sentido de se tornar pop, estilisticamente falando), e dos Paralamas do Sucesso, hoje uma negação. Talvez o fim dessas bandas tivesse sido mais proveitoso.
* Estêvão dos Anjos, jornalista, mora em Maceió. Blog: artenaarteria.blogspot.com.

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.