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por Aline Lima * – Para o acidente que aconteceu essa semana não é preciso nenhuma introdução ou lembrete: todos sabemos que um avião desapareceu no Atlântico e vitimou 228 pessoas, de 32 nacionalidades diferentes, entre homens, mulheres e crianças, num voo entre Rio de Janeiro e Paris. Sabemos, aliás, muito mais do que isso. […]

Brasileiros vítimas do acidente com o voo 447 da Air Francepor Aline Lima * – Para o acidente que aconteceu essa semana não é preciso nenhuma introdução ou lembrete: todos sabemos que um avião desapareceu no Atlântico e vitimou 228 pessoas, de 32 nacionalidades diferentes, entre homens, mulheres e crianças, num voo entre Rio de Janeiro e Paris. Sabemos, aliás, muito mais do que isso. Sabemos das profissões, idades, dos motivos de vários deles para estarem naquele avião, sabemos como eram seus rostos, porque há fotos e registros abundantes nas mídias nacionais e internacionais.

Basicamente, eu vejo a cobertura jornalística desse acidente em duas instâncias: uma central, que se encarrega das informações objetivas e técnicas a respeito do acontecimento principal, que é a queda do avião. As demais informações a respeito das vítimas funcionam mais como um subtexto, cujo objetivo é menos informar do que elaborar o luto coletivo. É difícil não se comover com cada uma das histórias, porque todas elas humanizam as vítimas e as aproximam de nós. Os mortos no voo 447 tem nome, passado, personalidade, família, aspirações que foram abruptamente interrompidas.

E eu entendo esse movimento quase literário da mídia de construção de uma narrativa que ao mesmo tempo dê um sentido à existência das vítimas e exponencie a tragicidade de sua morte inesperada. Entendo, porque foi a isso que Flaubert nos destinou quando escreveu Madame Bovary: o protagonismo. Isso faz com que esta não seja a história de um acidente, mas a história de 228 mortes trágicas e mais um punhado de quase-mortes, já que alguns não embarcaram e ganharam igualmente visibilidade. É assim que essas pessoas são colocadas do nosso lado, é assim que seu desaparecimento consegue nos estremecer e confrontar com a nossa própria mortalidade. É assim que 228 vítimas desconhecidas passam a ser os nossos mortos, receptoras de sentimentos, rituais, considerações.

E não é que não mereçam, absolutamente. Mas tenho pra mim que esse luto coletivo e sincero aponta pra um pouco além desse acidente, e deixa à mostra uma solidariedade seletiva que nos faz reivindicar alguns mortos, não todos. Não é tão fácil sentir pesar por gente desconhecida, Hamlet não profere sua frase diante de um crânio qualquer, é o crânio de seu bobo da corte, seu passado lhe diz respeito e cria com o presente a ponte necessária para a reflexão sobre a finitude. Digo isso porque recentemente houve no nordeste enchentes que vitimaram pessoas: entre mortos, feridos e desabrigados, pouco se falou. Não conheço seus rostos, suas histórias, suas frustrações, tampouco sei da causa mortis: se afogamento, se soterramento, se tristeza. Maneiras certamente trágicas e extremamente cruéis de morrer, mas que por algum motivo não possuem o alcance para comover o grande público e conquistar esse privilégio do amor implicado no luto. O mote do presente texto é justamente esse “algum motivo”.

Não aprecio clichês, mas eles existem. No caso, o clichê que estou prestes a conjurar está mais do que surrado, e mesmo assim (ou talvez por isso mesmo), ele cause pouco incômodo. Nós choramos por aqueles que protagonizam histórias como as nossas, ou histórias que nos são caras. Não é preciso ser um príncipe ou um alto executivo europeu para se comover com sua morte, porque eles detêm o lugar de protagonistas por excelência, e assim, um potencial de afetação muito grande. O critério de semelhança funciona mais como um limite mínimo; é preciso haver ao menos um denominador comum para que a morte e o sofrimento do outro toque e comova. Tanto é assim que nordestinos pobres e negros não pautaram jornais inteiros, não estiveram na primeira página, não receberam missas nem narração. A história de sua morte está contida em um fenômeno meteorológico, e num plano secundário e pouco visível. Não há protagonistas na narrativa de que fazem parte porque ela não conta com sujeitos individualizados; é antes como um cenário naturalista em que as pessoas no cortiço são como formigas num formigueiro. São anônimos. Os corpos dos nordestinos mortos nas enchentes são um único corpo, velado por gente cansada e mal vestida, enterrado precariamente sem que os jornais e os leitores cuidem de forjar um sentido à vida ou horrorizar-se com a gratuidade da morte. Definitivamente não são nossos, esses mortos.

Assim, o “algum motivo” que faz com que nosso luto seja seletivo é um motivo velho de guerra: a tragicidade da morte e a intensidade do luto dependem da qualidade do falecido. Não é o caso de reduzir a conta das condolências e deixar de se importar com alguém que morre fora de nossa própria casa. Se a morte nos aflige, se ela se apresenta dura e ameaçadora, se é triste que estraçalhe vidas e laços, então que assim seja com todos: com os que morrem nas águas do Atlântico a caminho de Paris e os que morrem arrastados no caminho das águas lamacentas da chuva.

 
* Aline Lima é paulistana, mas mora em Niterói. Tem 25 anos, mas isso muda a cada novembro. É professora apaixonada, mas atualmente dedica-se à atividade de estudante de literatura. Nas horas vagas que finge ter, conversa com amigos reais e imaginários, assiste a todo tipo de filme, inventa receitas de cheese cakes e bloga no ateaquitudobem.opsblog.org.

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Na imagem que abre o post, 3 brasileiros vítimas do acidente com o o voo 447.

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