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Mentiras sobre o desastre da flotilha de Gaza

por Amálgama (04/06/2010)

M. J. Rosenberg, no Political Correction / 2 de junho A primeira coisa que se precisa saber sobre o desastre da flotilha de Gaza é que a intenção dos ativistas a bordo dos navios era quebrar o bloqueio israelense. Entregar os bens embargados era incidental. Em outras palavras, os ativistas eram como aqueles que protestavam […]

M. J. Rosenberg, no Political Correction / 2 de junho

A primeira coisa que se precisa saber sobre o desastre da flotilha de Gaza é que a intenção dos ativistas a bordo dos navios era quebrar o bloqueio israelense. Entregar os bens embargados era incidental.

Em outras palavras, os ativistas eram como aqueles que protestavam pelos direitos civis sentando-se em restaurantes exclusivos para brancos no sul dos EUA e se recusavam a deixar o local até que fossem servidos. O objetivo real não era tomar café-da-manhã. Era acabar com a segregação.

O fato é tão óbvio que é difícil de acreditar que o lobby “pró-Israel” o esteja usando como uma acusação.

Claro que o objetivo da flotilha era quebrar o bloqueio. Claro que Martin Luther King provocou as autoridades civis do sul para quebrar a segregação. Claro que o movimento polonês Solidariedade utilizou o direito dos trabalhadores como um pretexto para quebrar o comunismo imposto pela União Soviética.

O ponto principal é que os homens e mulheres da flotilha tinham todo direito de tentar destruir um bloqueio ilegal que Israel não tinha direito de impor, e que foi concebido para infligir punição coletiva ao povo de Gaza. (Não há qualquer verdade na história de que Israel teria entregue a Gaza os bens dos navios; os israelenses nunca fizeram essa oferta e, julgando por precedentes de anos anteriores, teriam bloqueado qualquer entrega.)

Em relação ao argumento israelense de que seus soldados foram atacados, isso é ridículo. Tropas israelenses foram ordenadas a entrar em um navio civil em águas internacionais e o governo que as enviou alega que os passageiros resistentes as atacaram sem provocação. Isso é como um ladrão de automóvel reclamar à polícia que o motorista o golpeou com um pé-de-cabra que estava embaixo do assento. Nem ladrões de carro nem sequestradores deveriam esperar de suas vítimas consentimento pacífico.

Eis os fatos sobre a vida em Gaza hoje em dia – fatos que podem ser superados apenas com o rompimento do bloqueio. Esses dados são da Associação Americana para Ajuda ao Oriente Médio (ANERA, na sigla em inglês), que provê ajuda aos habitantes de Gaza até onde é permitido por autoridades de Israel (e dos EUA). A ANERA não é “pró-Israel” ou “pró-Palestina”. Não tem qualquer objetivo político, apenas determina quais são as necessidades humanas e tenta dar uma resposta a elas:

8 em cada 10 habitantes de Gaza dependem de ajuda externa para sobreviver.

O Programa Mundial de Alimentação diz que Gaza requer no mínimo 400 caminhões entrando em seu território por dia, para atingir necessidades nutricionais básicas – e no entanto uma média de apenas 171 caminhões com suprimentos entram em Gaza por semana.

Roupas que ficaram estocadas no porto de Ashdod por cerca de um ano foram liberadas para Gaza, mas chegaram cobertas de bolor e fungos, inutilizáveis.

95% da água utilizada em Gaza está abaixo dos padrões da Organização Mundial da Saúde, o que deixa milhares de recém-nascidos com risco de contaminação.

A anemia entre crianças com menos de 5 anos é estimada em 48%.

75 milhões de litros de esgoto não-tratado são emitidos no Mar Mediterrâneo todos os dias – porque tubulações e tanques de armazenamento não são permitidos.

Durante o bombardeio de 2009:

Mais de 120.000 empregos foram perdidos com a destruição da zona industrial de Gaza… 15.000 casas e apartamentos foram danificados ou destruídos… 1/3 de todas as escolas foi destruído.

Nada disso pode ser recuperado, porque materiais de construção não são permitidos pelas autoridades israelenses.

Veja ainda essa nota da The Economist. Ela traz uma lista parcial de bens permitidos e banidos em Gaza:

.

Então, para que serve esse bloqueio?

Não tem nada a ver com parar o terrorismo. O Hamas repetidamente ofereceu a Israel cessar-fogo sem prazo para acabar, em troca da suspensão do bloqueio. E, em uma dezena de ocasiões, Israel aceitou o acordo mas não cumpriu sua parte no mesmo. Na verdade, a guerra de 2009 começou após Israel ignorar seu compromisso ante o acordo de cessar-fogo, continuar o bloqueio e provocar a retomada de ataques a Sderot após uma série de assassinatos de autoridades palestinas. (Israel alega que nenhum acordo de cessar-fogo pode lhe restringir o direito de matar qualquer palestino que julgue um terrorista.)

Israel afirma que não aceitará qualquer acordo de cessar-fogo a longo prazo com o Hamas porque o grupo não reconhece seu direito de existir.

Mas Israel não precisa da permissão de ninguém – muito menos do Hamas – para existir. Tudo que ele precisa do Hamas é um fim da violência, e é precisamente isso que o Hamas está oferecendo em troca da suspensão do bloqueio.

Isso não quer dizer que o Hamas nunca deverá reconhecer Israel. Deverá. Mas é ridículo insistir no reconhecimento como uma precondição para qualquer outro passo. O reconhecimento seria o resultado final das negociações, não uma precondição para elas.

Mas não é isso que Israel quer. Ele quer destruir o Hamas porque trata-se de uma organização terrorista. Isso faz sentido, até que se lembre que o Congresso Nacional Africano, Sinn Fein, a Irgun israelense, FLN argelina e muitos outros movimentos de resistência eram chamados de organizações terroristas antes de negociações os levarem ao poder. Os ex-primeiros ministros israelenses Menachem Begin e Yitzhak Shamir foram ambos terroristas descarados antes de entrarem na política respeitável. E daí? Se lidar com terroristas – como Israel tem feito com o Hizbollah – vai ajudar a se atingir um objetivo nobre, por que não fazê-lo? Afinal de contas, se as negociações falharem, pode-se sempre cair fora.

Mas Israel não mudará as políticas que atentam contra seu próprio interesse até que mudemos as nossas aqui nos EUA. E não há evidência de que isso esteja ocorrendo (pelo menos, não até após as eleições de novembro, por motivos óbvios).

Por enquanto, nossas políticas estão intricadas com as de Israel. Apoiamos o bloqueio de Gaza. Nos opomos a qualquer esforço de reconciliação entre o Fatah e o Hamas. Até mesmo apoiamos a oposição de Israel à Iniciativa de Paz árabe, que oferece a Israel paz completa e a normalização das relações com todos os países árabes, em troca da criação de um estado palestino na Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental.

O governo Obama precisa se juntar ao resto do mundo na exigência de que se encerre o bloqueio a Gaza como um primeiro e importante passo rumo à retomada das negociações.

O ataque à flotilha foi um dos erros mais estúpidos e desastrosos da história de Israel. Finalmente, o mundo todo vê a política de punição coletiva de Israel como o que ela realmente é – uma forma de perpetuar para sempre a ocupação. Apenas o governo dos Estados Unidos escolheu fechar os olhos.

A ocupação está matando Israel. E estamos permitindo que isso aconteça. Que aliado!

* tradução: Daniel Lopes. Para ler o original, clique aqui.

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