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Alguns livros mais

por Amálgama (05/06/2012)

Cérebro. Ditaduras na América Latina. Malvinas. República Velha. Ditadura militar. Segunda Guerra.

(outros lançamentos que merecem sua atenção, em rápidos comentários – por Daniel Lopes)

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Uma boa introdução aos submundos do cérebro. Saído nos EUA ano passado, o livro traz resultados de algumas das últimas explorações da neurociência e relembra estudos e teorias clássicas da psicologia para apresentar ao leitor o que de já fascinante sabe-se sobre nosso órgão mais interessante e apontar o caminho do ainda vastamente inexplorado. O que mais importa a Eagleman são as operações que processam tudo do que não temos consciência. O capítulo principal talvez seja o penúltimo, onde o autor analisa as eventuais consequências para o campo jurídico das descobertas da neurociência sobre o tamanho da participação do “livre arbítrio” na equação geral das ações de um indivíduo. Eagleman dirige o projeto Iniciativa em Neurociência e Justiça do Baylor College of Medicine. Ele e seus colegas muitas vezes são vistos como tentando livrar criminosos da responsabilidade de seus atos, o que é uma percepção lastimável. O foco dos estudiosos é, pelo contrário, como melhor punir os perpetradores de atos criminosos, evitando penas caras para o resto da sociedade e inúteis do ponto de vista da recuperação e aplicando punições mais sensatas. / Incógnito: As vidas secretas do cérebro , David EaglemanRocco288 páginas

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Ao contrário do que pode sugerir a capa e o título, um livro nada espirituoso. O jornalista Carlos Taquari optou simplesmente por reunir fatos e mais fatos sobre as trajetórias ditatoriais de nações latino-americanas, e apresentá-los de forma fria. Enquanto tal, um livro importante. Cada país merece um capítulo. Aquele sobre a Venezuela condensa as pragas de vários outros países: caudilhismo na pós-Independência, ditadura anticomunista com apoio estadunidense, alguns respiros democráticos, extremismos de direita e esquerda solapando a democracia, e por fim um governo que é mais de esquerda caudilhesca que de esquerda democrática. Importante para consultas futuras, mas nem tente ler, como dizem, de uma sentada. / Tiranos e tiranetes: A ascensão e queda dos ditadores latino-americanos e sua vocação para o ridículo e o absurdo, Carlos Taquari, Civilização Brasileira, 378 páginas

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Nos 30 anos da Guerra das Malvinas, as prateleiras brasileiras deixaram a desejar. O código das profundezas, de Roberto Lopes, foi um dos poucos lançamentos. É leitura empolgante para quem se interessa pelos pormenores da vertente submarina da guerra, especificamente do lado argentino. Roberto é um cara experiente na cobertura de situações de tensão e guerra – cobriu Gaza em 1981 para a Globo e a Guerra do Golfo para a Folha, por exemplo. Seu livro é rico em detalhes e transcrições de documentos, mas o leigo que se empolgar com o aniversário das Malvinas e resolver partir para O código pode se decepcionar. Passe primeiro por uma boa história geral do conflito – The battle for the Falklands, de Max Hastings e Simon Jenkins, eu ainda acho que é o mais indicado – para aproveitar melhor obras como a de Roberto Lopes. / O código das profundezas: Coragem, patriotismo e fracasso a bordo dos submarinos argentinos nas Malvinas, Roberto Lopes, Civilização Brasileira, 280 páginas

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Ensaios publicados ao longo de anos são reunidos neste volume de Venancio Filho. Todos abordam o período às vezes tão negligenciado da Primeira República. A abordagem se dá primordialmente pela história de ideias – os escritos e embates de gente como Zacarias de Góis, Afonso Arinos e Alberto Torres. Se você leu ou planeja ler A construção nacional, que eu resenhei outro dia aqui no Amálgama, saiba que estas Notas republicanas cabem bem como leitura de sequência e preparação para o volume três daquela série dirigida por Lilia Moritz Schwarcz. / Notas republicanas, Venancio Filho, Perspectiva, 264 páginas

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Este pode ser lido como um livro sobre como a ditadura brasileira poderia ter sido bem pior. Nos comentários sobre livros se diz com frequência exagerada que tal ou tal volume é indispensável, de modo que, quando aparece um que realmente seja, a gente fica até com um pé atrás antes de dizê-lo. Mas aqui está um livro indispensável para qualquer pessoa interessada em Brasil.

A política nos quartéis é da historiadora francesa Maud Chirio. A autora estuda os grupos de oficiais que estiveram à direita de quase todos os militares no centro do poder, do governo Castelo Branco ao governo Figueiredo. Esses indivíduos, às vezes menos às vezes mais organizados, fizeram pressão para que a ditadura fosse ainda mais dura, com leque de vítimas mais abrangente. Esses militares estiveram à vontade no poder durante o imediato pós-golpe, quando eles e seus sabujos chefiaram os Inquéritos Policiais Militares. Mas logo o Executivo, ainda sob Castelo Branco, começou a colocá-los de lado. Em outros momentos, contavam (ou pensavam contar) com alguns representantes no poder, como o general Albuquerque Lima – seu favorito para a sucessão de Costa e Silva.

Um dos aglutinadores iniciais dos extremistas civis e militares foi a Liga Democrática Radical, que sem dúvida escolheu seu nome em um espasmo de autoestima. Extremistas que achavam que o “ideal revolucionário” de 64 havia sido traído por militares acomodados, politiqueiros e autoridades civis tecnocráticas e pouco ou nada nacionalistas. A extrema-direita não ia com a cara de ministros como Delfim Netto e Roberto Campos, que considerava entreguistas, e no geral se postava como ultranacionalista, antiamericana, antiliberal e estatizante. Qualquer boato sobre perdão e anistia a políticos cassados a punha em polvorosa. O menor relaxamento na aplicação das leis de censura já a levava a esbravejar por uma revolução dentro da revolução.

Com a edição da Zahar, estamos diante de uma feliz combinação de escrita soberba e tradução e revisão competentíssimas. Lamento apenas que não tenha sido elaborado um índice. Dada a riqueza do texto de Maud Chirio, é certo que o leitor ainda retornará muitas vezes a ele sempre que precisar recapitular os atos e opiniões de gente como o general Moniz de Aragão, ou refazer o percurso de amor e ódio entre a extrema-direita organizada e intelectuais como Carlos Lacerda. Com um índice, tempo seria ganho. / A política nos quartéis: Revoltas e protestos de oficiais na ditadura militar brasileira, Maud Chirio, Zahar, 264 páginas

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E este pode ser lido como um livro sobre como Hitler poderia ter ganho a Segunda Guerra. É uma felicidade ele ter sido traduzido para o português. O trabalho de Andrew Roberts muito provavelmente está em qualquer top 5 com os livros mais importantes sobre a Guerra pulicados nos últimos muitos anos. Para mim mesmo, ele só perde para o infelizmente ainda não traduzido Moral combat, do também historiador britânico Michael Burleigh. Roberts, que em outro livro (Masters and commanders: How four titans won the war in the West) havia se concentrado na estratégia aliada, dedicou agora quase 700 páginas principalmente aos circuitos de tomada de posições e execuções táticas da Alemanha nazista.

O leitor vai prender o fôlego em diversos momentos. E isso não é um mero lugar comum: o leitor vai realmente prender o fôlego ao ver como uns poucos passos diferentes de Hitler poderiam ter mudado o curso da guerra. Como quando ele decidiu tirar forças fundamentais para suas ambições na frente oriental e empregá-las ao lado dos italianos no norte da África, ou quando recusou a ideia japonesa de um ataque no extremo leste soviético, o que teria forçado rumo àquela área algumas das divisões de Stalin empregadas na defesa de Leningrado, Moscou e Stalingrado.

A edição brasileira tem tradução competente e, a exemplo da original, abre com mais de 20 mapas que situarão o leitor durante a leitura e conta com bibliografia e índice avantajados. / A tempestade da guerra: Uma nova história da Segunda Guerra Mundial, Andrew Roberts, Record, 812 páginas

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