PESQUISA

Se comediantes não podem fazer piada politicamente incorreta, quem pode?

por Amálgama (10/06/2015)

Deixar ofendido, ou mesmo enojado, é não apenas inevitável na comédia, mas com bastante frequência sua razão de existir

Tom Slater, na Spectator (10 de junho)

Chris Rock em stand-up

Chris Rock em stand-up

O ataque de Jerry Seinfeld à correção política da juventude de hoje em dia deveria nos fazer parar para pensar. Em entrevista a uma rádio americana, a estrela do sitcom e do stand-up disse que os campi universitários se tornaram uma área a ser evitada por comediantes. “Não faço shows em universidades, mas escuto um bocado de gente me dizer, ‘Nem chegue perto de universidades. Elas são tão PC’”, disse ele, antes de entrar numa história em que sua filha de 14 anos acusa sua esposa de ser “sexista” por ter sugerido que em breve ela pode ter vontade de começar a ver garotos. “Eles querem porque querem usar essas palavras. Aquilo é racista. Aquilo é sexista. Aquilo é preconceito. Eles não sabem de que merda estão falando.”

Claro, isso não é nada que já não tenhamos escutado. A incapacidade dos jovens de ouvirem uma linha mais arriscada sem lançar uma petição no Change.org já deixou irados vários outros comediantes recentemente. Em uma entrevista à Vulture, ano passado, Chris Rock disse que os vinte-e-pouco são agora tão sensíveis, que o cômico “não pode ser ofensivo nem em ser inofensivo”.

Mesmo falar de assuntos difíceis costuma provocar indignação devota, como descobriu o comediante boca-suja estilo paizão Louis CK em maio, quando seu monólogo de temática pedófila no programa Saturday Night Live fez a mente coletiva do Tumblr entrar em colapso. Mas vindo de um homem cuja contenção é conhecida, o convite de Seinfeld para que os jovens se acalmem apenas mostra o quão más estão as coisas. É como um tiozão dizendo para o sobrinho de 25 anos sair mais de casa.

Em uma era de checagem de privilégios, trigger warnings e banimento de aplausos “opressivos” no campus, é difícil se chocar com os extremos de desejo de ofensa da minha geração. Mas sempre se deu um passe livre para a comédia fazer provocações. Mesmo enquanto a loucura do PC assolou o campus nos anos 1990, comediantes acerbos como Bill Hicks, cujo infame alter ego “Goat Boy” vangloriava-se de seu gosto por meninas jovens, eram heróis. Os jovens ainda tinham sabedoria o bastante para entender que deixar ofendido, ou mesmo enojado, é não apenas inevitável na comédia, mas com bastante frequência sua razão de existir.

Agora que os radicais de cabelo azul da Geração Y levaram a correção política à sua conclusão lógica, brandamente stalinista, mesmo piadas sobre tabus são tabu. E a experiência de Seinfeld com sua filha também não é bom presságio. Parece que os jovens estão tirando suas carteirinhas do PC bem antes de sequer chegarem perto de um seminário de estudos de gênero.

Mas, apesar do coro dos quarenta-e-pouco de que “o-pc-virou-loucura” após os comentários de Seinfeld, deve-se ver de onde esse puritanismo pode ter vindo. A Geração Y não saiu do útero já colaboradora do Feministing. Ideias malucas desse jeito não aparecem do nada.

O fato de que os comediantes não conseguem mais sustentar o argumento da liberdade de expressão é em grande parte sua própria culpa. A comédia se transformou numa forma de aplicação do pensamento de grupo esquerdista-liberal. Qualquer um que tenha acompanhado a decadência do Daily Show de Jon Stewart em pouco mais que uma incessante série de piadas sobre George W. Bush – ainda ressoando muito tempo depois deste ter se aposentado e passado a pintar quadros de seus cachorros – verá que o que se passa por comédia “afiada” hoje em dia apenas satisfaz preconceitos políticos, ao invés de desafiá-los.

As coisas são ainda mais sombrias no Reino Unido. Stewart Lee, o grande representante da comédia alternativa, diz que correção política nada mais é do que “simpatia institucionalizada”. Ano passado, quando lançou-se uma campanha pela demissão do comediante machão Dapper Laughs do canal ITV2, seus colegas ficaram com a boca fechada ou se juntaram à turba. 44 comediantes de stand-up, alguns dos quais tinham quase o dobre de sua idade, assinaram uma carta aberta denunciando Dapper, alegando que seu estilo de piadas “incentiva o assédio nas ruas, a cultura do estupro e normaliza a misoginia”. A coisa toda é como um copia-e-cola de um comunicado de união de estudantes.

Seinfeld tem razão. O PC vitima a comédia. E minha geração, fechada em “ismo”, é pirada. Mas já é tempo de os comediantes deixarem de ceder à intolerância esquerdista e ensinar às gerações mais novas como encarar uma piada.

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.