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Rascunhos rudimentares antes do fim do mundo

por Alberto Oliva (18/06/2017)

Retomar ideias que foram soterradas sob os escombros do Muro de Berlim leva a Caracas, não a Estocolmo.

1. A Fisionomia esconde uma Fisiologia

Concita-nos o compositor: “Brasil, mostra tua cara!” Qual delas? A dos educados, ordeiros, trabalhadores e empreendedores ou a dos incivis, baderneiros, corruptos e seus defensores? Nossa sociedade está bem fotografada no varejão da corrupção do dia-a-dia, na desordem urbana, na Cracolândia e na Bufunfalândia dos tesoureiros dos Partidos e dos empresários agarrados às tetas do BNDES. Urge levar os formadores de opinião ao oftalmologista para que possam vir a enxergar, com lentes apropriadas, o Brasil como ele é sem as tintas de ideologias obscurantistas.

É crucial identificar as matrizes das ideias que habitam o container mental brasileiro. Ainda está por ser explicado de onde vem a preferência pelo protecionismo, patrimonialismo, estatismo, corporativismo, clientelismo e outros ismos que nos mantêm estagnados. Os voos de galinha são sempre seguidos de retrocessos monumentais, como o dos últimos tempos. Espanta a tolerância com a voracidade tributária trilhonária que dilapida e desperdiça recursos escassos. Igualmente assustador é o laxismo generalizado, totalmente indiferente ao avanço das incivilidades e das brutalidades. Impressiona também o superficialismo intelectual que quando sai das palavras de ordem mergulha na rusticidade vernacular, pouco indo além dos monossílabos anaglíficos.

Nossos intelectuais são como papagaios extasiados com as cores das próprias penas. Constroem teias de pretensas ideias que não se sentem obrigadas a se submeter ao crivo da razão e dos fatos. A preferência por pseudofilosofias, modismos filosóficos parisienses e abstrusos sistemas metafísicos servem para cevar nossa secular ignorância. A bem acolhida vulgata marxista nas escolas de primeiro e segundo graus mostra como o maniqueísmo ideológico serve para nos impedir de enxergar a complexidade institucional e funcional da vida social. Nossa realidade é muito intrincada para ser visitada com tangas intelectuais. Vestimentas sumárias só servem para desfilar por Paraísos Tropicais e para deitar na rede de Macunaima, o herói da Preguiça Universal.

Adoramos nos excluir dos problemas: o inferno são os outros. A teoria da conspiração é nosso salvo-conduto: nada temos a ver com a realidade cruel que vai sendo construída ao longo do tempo. O “espírito crítico” seletivo, expressão de desonestidade moral e intelectual, nega que os companheiros tenham levado o velho patrimonialismo às últimas consequências, que tenham instaurado a pior versão de capitalismo, o de compadrio. Quando a moral só vale para o outro, o cinismo passa a ser a tônica. A crítica confundida com a repetição monocórdia de uma ideologia está nos levando à pior cegueira – a do entendimento.

Um grito: A toga partidarizada é a ruína do Estado de Direito.

2. Um país sem elites, mas com privilegiados

A política como fé ensina que a Terra Prometida é logo ali. Basta nos desvencilharmos dos vilões, das “zelites”. Aliás, as elites por aqui são atacadas ignorando-se que, na realidade, delas carecemos. Elites genuínas são as que primam pelo nível elevado de seu desempenho profissional e moral e que se distinguem por se sacrificarem dando exemplo. Não são elites as que querem tirar proveito das situações explorando o privilégio da posição.

Não há como erigir uma sociedade sobre pilares universais, que sirvam à coletividade na sua integralidade, se prevalece o corporativismo criador de subsistemas que olham para a sociedade não como uma rede de indivíduos livres e soberanos, mas basicamente como coletivos que precisam ter seus interesses uniformemente atendidos, mesmo que seja em detrimento do bem comum. Essa ideia de que direitos individuais só encontram legitimidade no ente coletivo – corporações, etnias, gêneros etc. – gera efeitos ruinosos para a coesão social e só serve para disseminar a desconfiança generalizada entre as pessoas. Nos últimos trinta anos, o Brasil tem se afastado crescentemente da construção de uma Sociedade da Confiança. Os pregoeiros da cizânia têm alcançado enorme sucesso. Acreditam que colherão os frutos da discórdia. Ledo engano. Retomar ideias que foram soterradas sob os escombros do Muro de Berlim leva a Caracas, não a Estocolmo.

Se certos tipos de ideia prosperam em determinadas sociedades é porque têm apelos emocionais que as tornam atraentes para o “homem médio”. Ninguém abraça certas ideias sem se envolver emocionalmente com a visão de mundo que representam. Quanto mais entusiasta o acolhimento, mais se deu de modo irrefletido. Isto porque tem mais a ver com predisposições culturais e preferências pessoais. As ideias que penetram no “inconsciente coletivo” são como pedaços de mundo internalizados. Não basta denunciar que o ensino das humanidades está todo dominado pela óptica do marxismo vulgar. É fundamental indagar o que possibilita isso. Se não for enfrentada esta questão, só estaremos habilitados a atacar os efeitos, e não saberemos que antídoto se pode oferecer para o envenenamento das consciências.

Visões românticas sobre graves problemas – como o da violência – e duras avaliações e posturas persecutórias contra os adversários ideológicos mostram que os chupadores de nuvem não hesitam em brandir peixeiras quando das nuvens sai o temporal. Em nome da libertação coletiva se escravizou e matou muito com muita convicção ideológica no século XX. Os ideologizados ignoram a carga de sofrimento resultante da adesão cega a ideias erradas e enganosas. A intoxicação ideológica gera o mesmo efeito que as drogas.

Sabemos como pensam algumas pessoas no Brasil, mas ignoramos o material ideacional com que se forma o senso comum e por que se mostra tão vulnerável às pregações que, a despeito de se valerem de retórica redentora, anulam o indivíduo reduzindo-o ao conjunto de necessidades materiais do coletivo a que pertence. A hipocrisia moral e o achismo intelectual fizeram uma aliança; seus resultados são a idiotização generalizada e a supremacia do pensamento de massa sobre a reflexão crítica. O fato de determinadas formas de pensamento merecerem uma recepção calorosa e entusiástica em nosso ambiente cultural não é fruto do acaso. Os modismos intelectuais que causam por aqui frisson, entusiasmo papagueador, apresentam afinidade com nossas tradições bacharelescas presas ao retorismo, ao gosto especial pelo oracular, sibilino, pela “profundidade” ininteligível do sem sentido. Isto foi muito bem percebido por Lima Barreto em “O homem que sabia javanês”:

O diretor chamou os chefes de seção: “Vejam só, um homem que sabe javanês — que portento!” […]

Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: “Lá vai o sujeito que sabe javanês.” Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entender o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Commércio, um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna…

— Como, se tu nada sabias? — interrompeu-me o atento Castro. — Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografia, e depois citei a mais não poder.

— E nunca duvidaram? — perguntou-me ainda o meu amigo.

3. A genética do atraso

É chegada a hora de fazermos um inventário dos fatores que definem o (des)gosto intelectual no Brasil. Que “bagagem genética” é essa que faz com que por aqui tenha grande penetração tudo que pode ser ideologizado de modo teatralizado? A falta de distanciamento crítico nos leva a ser servis a ideias ensinadas de forma dogmática, sem um pingo de teor reflexivo. É fácil creditar isso ao péssimo nível do ensino. Estou convencido de que mesmo que nos tornássemos uma potência científico-tecnológica, continuaríamos metendo os pés pelas mãos no campo do estudo dos fatos humanos e sociais. Daí a urgência de se pensar de onde vêm as seduções que obnubilam as mentes não só do homem comum como também do intelectual. Este último não tem, na esmagadora maioria dos casos, como ser recuperado para o debate, para o intercâmbio crítico, já que repete de forma monocórdia, como mantras, palavras de ordem, chavões e esquematismos explicativos. Um intelectual hiperideologizado é um ressentido contra um saber que sabe que jamais alcançará. Repete esquemas de pensamento que não se propõem a avaliar a si mesmos. Assemelha-se ao religioso que reza sem saber o significado das palavras, sem recorrer ao Esperanto do Pai.

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Se o marxismo vulgar, o economicismo, a concepção rousseniana de homem e o passivismo, que espera que os manás caíam do céu ou sejam dados pelo governo, mostram enorme viço por aqui é porque encontraram terreno fértil. Inexiste poção miraculosa contra a falta de envolvimento com as instituições, a incapacidade de o brasileiro se enxergar como agente responsável – coautor dos processos sociais e construtor da nação. O desafio maior não é dissecar a formação das várias modalidades de ervas daninhas, e sim analisar a natureza do terreno que ensejou sua propagação. O pensamento crítico no Brasil precisa fazer mais “ciência do solo” e menos “botânica”. Sem isso, não saberemos o que fazer para minorar essa predominância avassaladora das “raízes retrógradas”. O socialismo requentado não exige grandes malabarismos intelectuais por parte dos doutrinadores para torná-lo palatável porque o senso comum brasileiro é receptivo a ele. A intelligentsia, ou a burritsia, manipula muito bem as carências propondo soluções fáceis que, com o tempo, pioram o que já não era bom. Não buscamos enfrentar os problemas cotidianos que nos afligem. Queremos a completa redenção coletiva. Por isso não saímos da pré-adolescência. O que o Brasil vai ser quando ingressar na maioridade? Não damos maior atenção ao que objetivamente precisa ser combatido e que é indispensável para melhorar nossa qualidade de vida: um ambiente de confiança institucional para que cada um possa dar o melhor de si.

O Brasil é o país das cores e dos sabores. O muito sol se faz acompanhar de emoção à flor da pele. O espaço sensorial aguçado torna a afetividade mais forte que o distanciamento crítico. Sendo esse o caso, cumpre entender como ideias tristonhas, presas a modelos autoritários falidos no mundo todo, despertam tanta adesão. O que está por ser elucidado é como velhos esquemas de pensamento que se incrustaram em nosso senso comum puderam ser manobrados pelos intelectuais militantes de modo a harmonizá-los com a vulgata marxista e com sua retradução para a fase pós-muro do ideário socialista. Não adianta lamentar a desatenção dos que se distraem com o espetáculo perdendo de vista o fio da história. Para a maioria das pessoas, o mundo é um palco onde se sucedem cenas cujos principais atrativos são as cores e os movimentos. São atos e imagens sem concatenação, sem nexos causais. Os processos que transformam dramas em tragédias explicam a história dos sofrimentos coletivos. Só que para quem acompanha o que se passa no mundo como uma teatralização da(s) aventura(s) humana(s), tudo se reduz a saber quem morre no começo, no meio ou no fim.

No Brasil há muito tempo predomina o laxismo cínico: se o sistema social é injusto nada mais justo que a leniência com as condutas impróprias. O erro está em se querer ter na terra o que só no mar há, e vice-versa. A ideologização e a incompetência dão força ao mecanismo de negação dos problemas, o que faz com que se multipliquem e se agravem. E o curioso é que essas ideologias que produzem essa teratologia são as que cinicamente se propõem a combater seus efeitos. Esse é o cruel círculo vicioso. As ideias que afugentam investimentos, que aumentam a desconfiança entre os agentes são as, que invocando a retórica fácil do social, fingem pretender equacionar os problemas que elas mesmas ajudam a criar. Uma sociedade assim cindida dispersa energias, enfraquece os laços interpessoais e a coesão comunitária estimulando desvios éticos.

A arrogância sem lastro cognitivo não se dá conta de que as mesmas dificuldades que existem para se conhecer o microcosmo que cada um de nós é existem quando se tenta desvendar como funciona a complexa máquina social. Talvez as pessoas que menos resolvem seus problemas sejam as que se sentem mais capazes de equacionar os velhos dramas da humanidade. Sendo difícil lidar com o próximo – e mais ainda amá-lo –, o escapismo consiste em invocar um amor abstrato à humanidade. O mundo hoje é uma grande farsa: em público quase todo mundo tem bom comportamento, é politicamente correto; na vida privada, ninguém se entende, o pau come. Desse modo, as pessoas tiram de suas costas sua cota de responsabilidade. E se reconciliam consigo mesmas apregoando que a sociedade só não é melhor por culpa de suas engrenagens. É tudo que uma alma com segundas intenções, delas consciente ou não, precisa para reduzir a boa consciência à militância política. O século XX não acabou: as vítimas dos pogroms ideológicos deambulam como sombras pelo mundo atual. São esqueletos atrás de sua corporeidade e de seus algozes. O passado nunca aceita ficar confinado ao museu das lembranças. Quando não é superado, impede o futuro de chegar. As paixões cegas, independentemente de serem ou não subprodutos da feroz corrida pelo escasso, sempre interferirão nos modos de viver. Nunca será a ação humana expressão de uma racionalidade pura. Entre o pensar e o agir ocorre um milhão de minúsculos processos que constroem as pontes entre o abstrato e o concreto. O fogo das paixões interage com o gelo da razão, e por isso se abrem caminhos de incerteza.

Alberto Oliva

Professor de Filosofia da UFRJ, da Scuola di Liberalismo Ludwig von Mises (Fondazione Vincenzo Scoppa), e Professor Emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).