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Realidade e coragem na análise do mundo (parte 2)

por Alexandre Ramos (15/06/2017)

Como tive o desprazer de ler em um cartaz – “liberdade de expressão não é liberdade de opressão”.

Quando perguntado sobre as razões para suas pesquisas, o sociólogo Max Weber teria respondido: “Quero ver quanto posso suportar”. É possível avaliar tal colocação de formas diferentes, mas acredito que, tomando-se a sociologia como o próprio Weber e Georg Simmel a consideravam – uma ciência da realidade – e seguindo o pensamento de um filósofo bem conhecido por ambos, Friedrich Nietzsche, que falava sobre “a coragem diante da realidade”, parece-me óbvio que todo o esforço direcionado ao estudo do mundo envolve, necessariamente, o confronto com sua própria realidade. E diante dela, faz-se imperativa a coragem para suportá-la tanto em sua fealdade quanto em suas contradições ou mesmo nas decepções que provoca.

Sem essa coragem, o projeto de uma ciência da realidade, que caberia muito bem no âmbito das ciências humanas e sociais, não tem como avançar. Ao contrário, seu desenvolvimento só pode encontrar obstáculos e interrupções oriundas dos desejos intervencionistas dos engenheiros sociais, armados com teorias sociais cabalísticas e detentores daquilo que Norberto Bobbio tão bem denominou como poder ideológico, que se desdobra em poder de censura. Destarte, não é inesperada a reação violenta e histérica contra todos aqueles que ousam desafiar os donos do poder da fala e lhes mostram a realidade que ignoram com tanto afinco. Falando francamente, os reais portadores do pensamento crítico são aqueles enxovalhados, expulsos de lugares e impedidos de falar na base do grito e da coerção. Isso não é incomum em universidades norte-americanas, e no Brasil tivemos recentemente um caso assim na UFG. Nós demoramos vinte anos até importarmos a epidemia de crack dos EUA para cá; mas parece que não vamos demorar tanto assim para trazer a intolerância e o autoritarismo dos campi americanos para nossos próprios, que só agora conhecem, de modo tímido, uma oposição ao pensamento hegemônico. E essa oposição irrita, tal como a realidade que urge ser descartada.

Identificado o abandono do sentido de realidade que grassa nas tentativas de análise do mundo – tanto por “especialistas” quanto por leigos – resta apontar o que ficou em seu lugar, pois os desvarios teóricos e a vertigem das baixas alturas (a expressão não é minha) características daqueles que encaram problemas simples, quando não secundários, como questões universais prementes, precisam de uma base de sustentação. Entramos, assim, no território da interpretação – não uma interpretação qualquer, mas sim ideológica e pragmaticamente motivada (não custa lembrar a Parte 1, com a dicotomia falso-útil).

A manifesta recusa deliberada da realidade e a covardia e autoengano generalizados diante do mundo que não se deixa apreender e controlar por deletérias boas intenções são tributárias do abandono de qualquer ideia de ciência da realidade e sua posterior troca pelas mais irresponsáveis (e irreais) interpretações que tomam o mundo como um texto aberto às leituras que melhor se adéquam ao momento e que cumpram objetivos e interesses imediatos.

As abstrações requeridas para qualquer empreendimento científico-analítico perdem, aqui, a ligação com o factível, e são colocadas no lugar da realidade. Subjetividades não só explicam à realidade, como também devem dominá-la e subjugá-la a seus delírios narcisistas. Entidades coletivas desprovidas de substância, forças abstratas ou, em suma, as terríveis “estruturas” movem o mundo. A convicção acerca de que “é possível um mundo melhor” ou de que “outro mundo é possível” empurra a responsabilidade perante aquilo que se afirma, se faz e suas consequências para um abismo. Assim, a medida para a compreensão da realidade não é sua acuidade, mas sim sua capacidade de instrumentalização e de manipulação. E as ciências humanas, pelo menos parte delas, abraçaram tal empreendimento, e é justamente esta parte que fornecerá, direta ou indiretamente, a quem mais lide com a realidade os meios para interpretá-la.

Forneço-lhes um exemplo: no livro fundamental para o tipo de aventura puramente interpretativa na qual parte das ciências humanas embarcou, Orientalismo, de Edward Said – cuja “questão” central é mostrar, com deliberadas omissões e avaliações enviesadas, que o conhecimento produzido pelo “Ocidente” do “Oriente” servia aos interesses imperialistas do primeiro – há uma passagem particularmente reveladora desta maneira de lidar com a realidade, que é ignorá-la:

“O que se deve procurar são os estilos, figuras de linguagem, os cenários, mecanismos narrativos, as circunstâncias históricas e sociais, e não a correção da representação, nem a sua fidelidade a algum grande original” (p. 32-33). (Em tempo, certa islamofilia presente no Ocidente deve muito a este livro.)

Nestas breves linhas encerra-se toda uma “metodologia” amplamente utilizada para a atual análise do mundo: pouco importa a realidade e a verdade, que podem e devem ser descartadas. Interessa unicamente aquilo que as cercam e isto será o objeto de interpretações visando fins político-ideológicos. No caso do livro de Said, significa o seguinte: não importa se o que algum autor “ocidental” escreveu sobre o “oriente” era verdade, mas sim que ao proceder como procedeu, atuava como agente imperialista. O atual pavor generalizado e a autocensura ao falar do terrorismo islâmico lançam raízes nas análises e julgamentos deste livrinho que diz ao leitor: se você, “ocidental”, fala sobre o “oriente”, você é um imperialista e serve as estruturas de poder e dominação ocidentais. E não é sempre que encontramos alguém com coragem diante da realidade como o antropólogo Philip Carl Salzman com suas pesquisas sobre o Oriente Médio.

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Passando para nossos problemas, basta pensar nas invasões das escolas no ano passado: se a polícia age para retirar os invasores, restabelecendo o direito à educação e de ir e vir das pessoas, assim como o bom uso do bem público, do ponto de vista deste método interpretativo está em curso a “criminalização dos movimentos sociais”. Trata-se de ficcionalização da realidade. É interpretação desonesta. E a vantagem dessa forma de agir é que a única preocupação do “analista” consiste em saber de qual lado do espectro ideológico está seu objeto.

Há a seguinte piada boba: um caminhão atropelou uma galinha. Chamaram um advogado que, ao chegar ao local, perguntou: “Eu vou defender o caminhão ou a galinha?”. Do ponto de vista de uma parcela das ciências humanas, o acidente será interpretado assim: se o caminhão é de esquerda e a galinha de direita, o caminhão estava resistindo à opressão da galinha; se o caminhão é de direita e a galinha de esquerda, pode ser desde galinhofobia até genocídio do povo galináceo. Ou seja, é o contexto que informa a interpretação e dá o tom da análise. Como o advogado acima, os analistas do mundo, ou melhor, os juízes do mundo, buscam antes saber de qual lado ficarão e para onde voltarão suas artilharias. Destarte, não existe, por exemplo, censura em si. É censura quando é feita pela ditadura militar. Quando é feita por grupos identificados com a esquerda, é luta por direitos, é resistência, é contra a opressão.

Como tive o desprazer de ler em um cartaz afixado em um instituto de ciências sociais – “liberdade de expressão não é liberdade de opressão”. Novamente: não existe liberdade de expressão em si, mas somente aquela que serve para um grupo.

Produtos culturais (música, filme, livro) serão interpretados como machistas ou não a partir de seu contexto de produção e de seus envolvidos. As ações serão interpretadas como progressistas ou retrocesso a partir de quem as executa. As ideias serão interpretadas como reacionárias ou revolucionárias a partir de seus portadores. Teorias serão interpretadas como ideológicas ou científicas a partir de quem as enuncia – tudo isso, é claro, a priori.

Ressalto, aqui, que tais procedimentos são manifestações da recusa deliberada da realidade. De trocar os fatos pelos sonhos e desejos na “leitura crítica” do mundo. De elevar abstrações e coletivos fictícios à condição de dados concretos e explicativos da realidade. Não há nada mais fácil que olhar para o mundo e interpretá-lo de acordo com suas preferências e seguindo motivações ideológicas e pragmáticas para moldá-lo. E nada mais danoso. O charlatanismo acadêmico – utilizo a bela expressão do físico Mario Bunge em The sociology-philosophy connection – surgido em meados da década de 1960 e posteriormente desenvolvido com seu relativismo epistemológico e seu sócio-construtivismo cobra seu preço.

Ou, se quisermos recuar ainda mais no tempo, poderíamos conjecturar, a partir da tese de Isaiah Berlin, que todo este processo de afastar o pensamento da realidade remonta ao romantismo (particularmente, acho que é possível identificar algumas afinidades eletivas). Escreve Berlin:

“[O] século XVIII assistiu à destruição da noção de verdade e de validade na ética e na política, não meramente da verdade objetiva ou absoluta, mas da verdade subjetiva e relativa também – verdade e validade como tal – com resultados vastos e certamente incalculáveis. O movimento que chamamos de romantismo transformou a ética e política modernas de uma maneira muito mais séria do que nós o compreendemos” (O sentido de realidade, p. 237).

Eu complementaria a parte sobre ética e política com a produção de conhecimento.

A realidade não é mais matéria para reflexão e análise sérias, mas sim o lixo produzido por incontáveis equívocos históricos que deve ser varrido para algum lugar. E a coragem diante dela virou opressão. Se a realidade contraria os sonhos e desejos que fundamentam ambiciosas teorias, análises e ações, então a mesma será descartada até o momento em que possa ser totalmente moldável ou substituída.

Retomarei os pontos e concluirei esta brevíssima reflexão no próximo artigo.

Alexandre Ramos

Historiador, doutor em Sociologia pela UFRJ. Autor de Intelectuais, carisma e Ação Integralista brasileira (Garamond, 2015).