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O jogo das aparências

por Cassionei Petry (11/06/2017)

Pondé desconfia e nos faz desconfiar das coisas que nos são dadas como certas.

“Marketing existencial: A produção de bens de significado no mundo contemporâneo”, de Luiz Felipe Pondé (Três Estrelas, 2017, 184 páginas)

“Não vou, de modo algum, ajudá-lo a ser feliz”, afirma Luiz Felipe Pondé na primeira página de seu novo livro. Para um desinformado, o título Marketing existencial parece coisa de autoajuda. Quem conhece a obra de Pondé, no entanto, não se surpreende com a frase, pois sabe que ele divulga a filosofia do trágico, não acredita em um mundo melhor e considera que as pessoas que dizem fazer o bem na verdade o fazem por amor próprio.

Utilizando os conceitos dos filósofos da existência (Unamuno, Sartre, Camus, Jaspers, Heidegger e, principalmente, Kierkegaard), o autor discute o que chama de “self consumidor de significados”. Só existimos se consumimos ou produzimos algo que nos faça parecer ser algo e daí advém nossa felicidade, mesmo sendo falsa. É uma forma de darmos significado para nossa vida.

A partir dos estágios da existência propostos por Kierkegaard para enfrentar a angústia de viver (estético, ético e religioso), Pondé amarra suas ideias. O estético, aqui, tem a ver com as sensações: a busca pelo prazer e experiências sensoriais. No estágio ético, alcançamos uma vida justa, austera. Já o estágio religioso é divido em duas partes: a primeira vê a religião como algo institucional, com regras e rituais e que trazem um retorno para o fiel, enquanto a segunda é um “salto na fé” sem esperar um compromisso de Deus, ou seja, “é um salto na angústia: trata-se de aceitar a vida como ela é”.

Na estética, então, o ser consome algo que lhe faça gozar a vida, mesmo que esse prazer seja momentâneo, mas que traga como resultado, pelo menos, boas fotos e curtidas nas redes sociais, afinal de contas, não basta ser feliz, tem que parecer ser feliz.

No âmbito da ética, Pondé diz que, ao se entrar na “moda do bem”, corre-se o risco de ser um idiota, que significa “mentir sobre si mesmo a ponto de perder poderes cognitivos sobre si próprio e a realidade”. A virtude deve ser silenciosa. Alardeá-la, portanto, é uma contradição. As pessoas, no entanto, sentem a necessidade de mostrar suas preocupações com o próximo, caso contrário elas não se sentem realmente solidárias. Não basta fazer o bem, tem que provar que o faz.

No campo religioso, as igrejas também vendem a aparência. Pondé cita o exemplo do Templo de Salomão, da Igreja Universal. O lugar faz o fiel se sentir parte do povo eleito por Deus, por ser parecido com o templo descrito no texto bíblico. Lembra também das igrejas que atraem jovens vendendo “um tipo de significado de massa para o público jovem que sente perdido”. Quanto à Igreja Católica, o discurso do papa, segundo Pondé, é “claramente sensível ao marketing”. Não basta ter fé, tem que estampar na testa: “eu sou do Senhor”. O bolso dos pastores agradece.

Pondé desconfia e nos faz desconfiar das coisas que nos são dadas como certas. Esse é seu grande mérito. Vou nessa linha de pensamento. Desconfio dos que dizem ser do bem. Desconfio dos que fazem o bem. Desconfio dos que saem em manifestações para tirar selfie e postar nas redes sociais para dizer que está fazendo alguma coisa pelo bem do país. Desconfio das pessoas que dizem que são felizes. Desconfio dos que rezam em voz alta. Desconfio de quem compartilha imagens de crianças passando fome na África. Desconfio de quem diz lutar por um mundo melhor. Desconfio de que possa haver um mundo melhor. Desconfio dos livros e artigos que Pondé escreve, bem como de seus comentários na TV, no rádio e no Youtube. Ele sabe fazer seu marketing existencial.

Aliás, eu poderia apenas escrever este texto e guardá-lo. Mas não basta escrevermos, tem que aparecer o que escrevemos. Não basta sermos leitores, é necessário mostrar o que lemos. Mais um ponto para o Pondé.

Cassionei Petry

Professor e escritor. Seu novo livro é Cacos e outros pedaços.