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Carta aberta a uma direita perplexa

por Eduardo Matos de Alencar (03/06/2018)

Na hora em que chamam os colegas do mesmo espectro político de jacobinos, o que acabam assumindo para si é o título antagônico: girondinos.

O simples fato que uma parte do campo liberal e conservador da esfera pública brasileira começa a falar em jacobinismo político a partir da greve dos caminhoneiros, denota um reconhecimento implícito de um estado de coisas, que pouca gente tem tido coragem de falar abertamente: desde 2013, o Brasil se encontra, sim, naquela atmosfera social que a sociologia das revoluções e a historiografia mais séria designa como pré-revolucionária.

O diagnóstico envolve uma situação de anomia social, ou perda progressiva dos laços que unem as pessoas do país às instituições (Estado, mercado, família, comunidade etc.), agravada substantivamente por um contexto de privação relativa para amplos setores da população, que se acostumaram com a estabilidade e as promessas de melhoria de vida que foram se acumulando de maneira particularmente intensiva nos últimos 25 anos.

A sensação generalizada de fracasso torna o ordenamento político-institucional que lhe dá respaldo cada dia mais insuportável para amplos setores da população. A separação gradual do discurso das elites intelectuais e políticas do senso comum da população contribui ainda mais para a generalização da anomia social.

Diante desse cenário, o acúmulo progressivo de benesses dos grupos privilegiados da classe política, do estamento burocrático e dos setores do empresariado e do sistema financeiro que vivem de favores do governo só agrava ainda mais a crise.

A descida desse ressentimento difuso “contra tudo o que está aí” para as camadas mais populares da sociedade brasileira, facilmente verificada na cronologia das últimas três grandes “revoltas” populares (2013, 2015, 2018 – “do Vinagre”, “do Impeachment” e “do Combustível”), só evidencia ainda mais a atmosfera de ruptura em que todos nos engolfamos. Progressivamente, é como se ela fosse envolvendo uma parcela cada vez maior da população – todo mundo já é capaz de perceber isso.

Parte dos setores mais liberais e conservadores reage a esse estado de coisas do modo esperado: com medo, ansiedade, apreensão. E não é para menos. Temem um processo que não se julgam capazes de dirigir, nem de compreender por inteiro. A entrada de classes populares estranhas a si e de grupos políticos radicais no cenário estimula todo tipo de sentimento paralisante ou de rejeição violenta diante de uma ampla zona de incerteza.

O que todos temem, falemos claro, é evidente: um novo e longo período sob a batuta dos militares ou, infinitas vezes pior, um neofascismo, neointegralismo ou outra praga qualquer. Isso para aqueles que já perceberam que o sinal político da insatisfação popular se direciona de maneira acelerada para a direita. Porque há também os que temem a possibilidade da esquerda se apropriar desse processo e dominar as rédeas dos cavalos da História (de novo, perdão pela maiúscula).

Esses últimos são aqueles cujo temor menos se justifica diante da realidade dos fatos, na minha opinião. É verdade que alguns de nós assistiram aos esquerdistas tentando organizar um protesto de última hora com a pauta “pela redução de tributos” ao lado de “Lula Livre”. Mas é preciso estar sob efeito de algum chá alucinógeno para acreditar ser possível incorporar a rejeição ampla às tributações junto com a crítica do combate à corrupção como um Golpe orquestrado pelas elites, tudo em prol do retorno de um projeto de Estado forte, amplo e centralizado. Ainda mais depois que se viram expulsos por um bando de caminhoneiros com convicções hegemônicas na esfera da direita. Aqueles que insistem em duvidar nesse ponto podem consultar a melhor guia que todo homem deveria ter nessa hora: a história.

Entretanto, a aceitação da iminência de algum tipo de rompimento se torna explícita na hora que se procura estabelecer uma diferença com pessoas, outrora no mesmo campo que nós, que clamam por uma ação mais direta ou, pelo menos, a elaboração de um programa daquilo que tem de ser realizado, em algum momento, por alguém.

Na hora em que chamam os colegas do mesmo espectro político de jacobinos, o que acabam assumindo para si é o título antagônico: girondinos. Ou seja, seriam eles então, da mesma forma que seus (nem tão) antigos colegas, integrantes de partidos numa Revolução? Afinal, jacobinos e girondinos disputaram a tapa o destino da França, após a queda do Antigo Regime. Não foi assim? A diferença entre ambos era só de grau e método, mas os dois grupos eram revolucionários e lutaram por mudanças profundas na ordem social da época.

Eu sei que ser pego em ato falho às vezes irrita. Mas todos sabemos o que está em jogo aqui. Ninguém nessa fatia do espectro político tem coragem de se colocar do lado do nosso (aparentemente cada vez mais) “Antigo Regime”. E por que? Porque o ordenamento político-institucional de 1988 também não lhes oferece alternativa favorável em praticamente nenhum aspecto. Gostariam de virá-lo de cabeça para baixo igualmente aos que denominam jacobinos, mas apostam em uma estratégia gradualista, por assim dizer. A diferença é mais de método e intensidade do que nos objetivos finais.

A causa dessa falta de amor à ordem vigente todos vocês conhecem, afinal: não há liberalismo ou conservadorismo possível em uma Constituição que prevê anomalias como “função social da propriedade” ou uma série de direitos tão abrangentes que nenhum Estado é capaz de prover sem se tornar um monstrengo mais ou menos feio, totalitário e ineficiente como o nosso. Não existe possibilidade de “boa vida”, no sentido aristotélico da palavra, quando um ordenamento se formou no esquecimento de qualquer princípio de subsidiariedade ou no desrespeito às verdadeiras liberdades individuais.

Pode vir pela ação de partidos de esquerda ou de centro. Ou pode ser pelas vias de magistrados eivados a salvadores da Pátria que se façam de condutores da carruagem enlouquecida do Ativismo Judicial. O resultado inevitável desse ordenamento, a direção a qual ele sempre se encaminha, de um jeito ou de outro, é sempre a mesma: mais Estado, mais controle, menos liberdade, menos possibilidades de ação. Todos vocês sabem que a nossa ordem política e institucional não lhes é simpática, em quase nenhum aspecto, tanto que desejam mudá-la, de maneira mais ou menos gradualista, mais ou menos brusca, a depender do ímpeto e da ousadia de cada um.

Eu não sou jurista, nem filósofo político, mas gosto de aprender com gente mais inteligente do que eu. E na leitura da tese brilhante de um grande amigo meu, Alexandre Bacelar Marques, acho que entendi uma coisa: constituições operam como molduras em qualquer ordem social. Elas definem a ordem do possível no espectro de ação política. E, para além disso, iniciam um path way, um caminho institucional que tem seu começo, meio e fim. Pode durar 30 ou 300 anos, a depender das virtudes inerentes às decisões corretas nos primeiros passos. Mas nada dura para sempre. Tudo o que é vivo, merece morrer, dizia Nietzsche, não sem alguma razão.

O que querem os menos açodados com amplas reformas do Estado, senão essa mesma morte, seguida de um renascimento, com um intervalo quase imperceptível e o menos cruento possível entre uma coisa e outra? Tenho certeza absoluta que não é só um novo Plano Real. Vocês queriam um Estado que não fosse obrigado a fornecer tudo a todo mundo. Queriam ter mais liberdade e queriam contar com limites claros à possibilidade de ingerência da máquina pública sobre a vida de cada um. E sabem que isso tem de passar por uma redução substantiva de privilégios e poderes da classe política e do estamento burocrático nacional.

Para falar como um homem do povo, todos vocês sabem o que significa o privilégio inaceitável de um juiz do trabalho em Pernambuco que ganhe R$ 190.000 em um único mês. Porque todos tem alguma noção, por mais precária que seja, de que cada real no bolso desse magistrado significa segundos ou minutos que se somam em largos meses de trabalho infrutíferos de centenas de brasileiros, porque ofertados em sacrifício no altar do Estado.

Também rejeitam igualmente que seus filhos sejam obrigados a aprender aquilo que não concordam em escolas reguladas de maneira draconiana por burocratas enlouquecidos pela pedagogia moderna. E não suportam mais a sensação de que um deputado, senador ou presidente possa desviar impunemente bilhões de reais dos cofres públicos para abastecer grandes esquemas de corrupção, em nome das eleições ou da governabilidade, tudo por conta da ação de um garantismo penal desmedido que só se manifesta na sua face branda para quem detém poder e dinheiro. Preciso falar também do dano e do medo que a violência cotidiana desse país completamente fora de controle lhes provoca? Penso que, aqui, começamos a nos entender com um pouco mais de lucidez e razoabilidade, porque nossa miséria é comum.

Eu não tenho respostas prontas sobre como mudanças só intuitivamente almejadas podem ser alcançadas em uma situação tão complexa. Como disse no ensaio anterior, falta projeto, para nós e para todos os envolvidos. Não sei se vai ser pela via do Centro ou da Direita. Não sei se pela via do rompimento brusco ou da conquista por etapas. O que sei é que quem vai ter de apresentar a pauta do país que queremos somos nós, porque ninguém parece disposto a abraçar esse objetivo com ousadia. O que sei também é que mudanças graduais não virão se a classe política e o estamento burocrático não aceitarem cortar da própria carne. Até aqui, a verdade é que tem importado muito pouco o que cada um de nós pensa, sabemos bem. Essa decisão, ao fim e ao cabo, não é nossa, mas deles.

Porque na hora que os deputados de Brasília aceitarem operar com as mesmas regalias e salário dos deputados da Suécia, por exemplo, é bem provável que a população inteira engula qualquer agenda mais pesada de reformas estruturais, desde que acompanhada da devida desoneração do peso do Estado sobre suas vidas. Não importa se dá bilhão, como diria Ciro Gomes. O povo não tem projeto de governo, mas sabe o que é uma ordem social justa, na hora em que se depara com uma. Se juízes e funcionários públicos aceitarem as mesmas condições, então, estaremos a um passo de realizar nossa promessa enquanto nação.

Eu não posso dizer ao certo se as elites que dominam esse processo já intuíram a necessidade de apostar em transformações sociais profundas. Há pessoas aqui e ali que parecem ter se apercebido da gravidade da situação. Mas quem não for idiota, entendeu que, em política, a ordem dos fatores altera o produto, necessariamente. Nenhuma mudança gradual será engolida sem a continuidade ou o agravamento do ciclo de revoltas sucessivas em que nos encontramos, se ela significar mais sacrifícios para a população em nome de benefícios futuros, sem um exemplo claro da parte daqueles que nos governam. Eu sei, vocês sabem e até os imbecis da Globo News já entenderam isso muito bem.

Não gostaram da comparação com o Tea Party? Paciência! Eu poderia falar também das revoltas contra os altos impostos do Rei Jaime que precederam em anos a Revolução Gloriosa. Também lhes parece exagerado? Então eu posso ficar aqui, mais na minha vizinhança, em Pernambuco. Que tal Insurreição Praieira em 1848? Ou quem sabe a Revolução Laranja na Ucrânia, nos idos de 2004? Nada disso lhes agrada? O problema é com a palavra “revolução”? Sou capaz de ceder-lhes até isso! Deixemos a letra que mata e fiquemos no espírito, que vivifica. Que tal a Resistência Francesa contra a invasão da Alemanha? Fazer uma analogia é procurar semelhanças e diferenças. E se há uma semelhança fundamental entre cada uma desses eventos e o que vários de nós vem fazendo desde antes mesmo de 2013 é a seguinte: existe um povo sofrido, um Estado opressor e uma classe política corrupta. Então o que falta mais para assumir a missão de propor uma alternativa a esse cenário de terra devastada? Talvez os nossos filhos se movimentem, quando os impostos chegarem a consumir 75% de sua renda e o déficit público não permitir mais uma única despesa do governo? Ou também eles torcerão o focinho, por não encontrarem um único homem que lhes pareça à altura de Benjamin Franklin ou George Washington? “Quando chegar em 90% a carga, talvez, João”. “Vai ler mais esse livro de Platão, José. E trabalha, trabalha e trabalha! Quem sabe na próxima?” A situação está dada, ninguém gosta que as coisas sejam assim, ela independe dos nossos desejos pessoais e talvez, sim, esteja aquém de nossas capacidades, mas eu arriscaria que não. Porque eu vi medo no semblante dos responsáveis pela nossa miséria em 2013, 2015 e 2018. E onde há medo, há incerteza. Então, talvez, só talvez, seja a capacidade deles em se recompor para nos zombar na cara impunemente após cada nova crise que esteja em cheque, não a nossa.

O recado que tentei passar com esse longo post-scriptum a um já longo ensaio é uma espécie de chamado à lucidez: parem de bater cabeças entre si. Interrompam o ciclo de acusações mútuas e brigas sem sentido, voltem a dialogar e se aproximar um dos outros. Respeitem as hierarquias, a especialidades, as capacidades e os lugares próprios de cada um nesse processo. Lembrem-se que antiguidade é patente. Ninguém morre por engolir um ou outro sapo. Deixem a ciumeira e o ressentimento de lado. Superem as diferenças antigas e atuais. Quem ofendeu, peça desculpas e quem foi ofendido as aceite. Façam a coisa mais no âmbito privado do que no público. Restaurem as relações que foram perdidas e as que começam a parecer abaladas. Construam novas amizades! E se o orgulho falar mais alto para alguns e desculpas não forem dadas ou aceites, ao menos que os outros saibam colocar um freio na escalada. É isso o que significa dar a outra face, afinal. Enfrentem de cabeça erguida o estranhamento e a incerteza. Se eu, que sou mais burro, menos célebre, mais limitado, menos relevante, mais indigno, menos capaz e mais fraco do que vocês, consigo me aproximar em vez de romper, ouvir em vez de gritar, nessa hora tão grave (quanta gente nova não conheci e quantas amizades não se avizinharam esse ano, Deus do céu!), o que se dirá de tanta gente inteligente, capaz, vocacionada para ação e/ou para o pensamento?

Não há nada mais representativo da crise em que nos encontramos do que esse ciclo de violência mútua e fortalecimento de pequenos grupelhos e panelinhas em cima da exclusão do próximo. É o tribalismo primitivo calando no coração de cada um, com suas falsas promessas de segurança, superação da incerteza e aceitação da comunidade fechada e mais imediata de relacionamentos. E o jeito de aplacar a sua fúria homicida começa no reconhecimento, no encontro e no diálogo. Fortaleçam o debate interno e o externo. Criem grupos de conversa em Whatsapp, liguem uns para os outros, encontrem-se pessoalmente. Nessa hora, é mais do que fundamental o olho no olho, o aperto de mão, o calor humano, o odor, a voz e os ouvidos, a rua. Esse é o chamado fundamental da caridade, que rompe a desconfiança e fortalece o amor ao próximo. Caso eu não acreditasse que o mais ateu entre vocês não está pronto para atende-lo, então minha Fé não valeria de nada além de um símbolo para ostentação de bom mocismo e santarronice. Foquem naquilo que os une, em vez do que os separa. Procurem consensos mínimos, em vez de diferenças máximas.

Essa crise deixou todo mundo confuso e muito nervoso. E quando falo “todo mundo”, não falo só do nosso campo. Os ânimos estão à flor da pele em todo canto. A sociedade brasileira inteira apresenta sintomas de esgotamento, confusão, ressentimento e irritação sem precedentes. No campo das esquerdas, a coisa não é menos intensa. O que tenho certeza é que eles estão mais perdidos do que todos nós, porque já perceberam que a atmosfera, se parece a todos de ruptura ou de esgarçamento sem precedentes do tecido social, não lhes é propícia, de modo algum. Porém, existem estrategistas, recursos disponíveis e pessoas com capacidade daquele lado. Mais ainda, eles já tem uma clareza bem maior do que a nossa sobre o projeto que querem para o país. Essa é uma vantagem que tem contra o Brasil e somos nós que temos a obrigação de revertê-la, nos veículos de comunicação, nas redes sociais, nas ruas, em cada diálogo com cada pessoa com quem nos encontrarmos. É preciso dar um recado claro sobre o que se quer, ainda que não haja total consenso a esse respeito. Avião se faz voando. A messe é grande e os operários são poucos. Quem ousa, ganha a guerra, mas prudência e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Eduardo Matos de Alencar

Escritor e sociólogo, doutorando na UFPE. Editor do site Proveitos Desonestos.