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A máquina da repressão em Cuba

por Amálgama (09/07/2008)

por Marco Lacerda – Em meados dos anos 80 o dono da edição brasileira da revista Vogue, Luís Carta, estava de mudança para a Espanha onde assumiria o comando da Vogue daquele país. Em seu lugar deixou o filho, Andrea Carta, um jovem jornalista com talento raro para as artes gráficas. Depois de alguns meses […]

por Marco Lacerda – Em meados dos anos 80 o dono da edição brasileira da revista Vogue, Luís Carta, estava de mudança para a Espanha onde assumiria o comando da Vogue daquele país. Em seu lugar deixou o filho, Andrea Carta, um jovem jornalista com talento raro para as artes gráficas. Depois de alguns meses de negociação, aceitei a proposta de Andrea para deixar o Estadão e tornar-me redator-chefe da revista, que ocupava um agradável sobrado na avenida Brasil, em São Paulo.

Como redator-chefe de uma publicação voltada para a moda, passei, pela primeira vez, a freqüentar um mundo de luxo desaforado, ao qual só teria acesso como penetra, pois o salário que ganhava era suficiente apenas para levar uma vida decente. Quando dei por mim, estava comprando coisas que não queria com dinheiro que não tinha, para exibir o que eu não era a uma gente da qual não gostava e, em muitos casos, mal conhecia. A sensação incômoda de fingir um status que não tinha era compensada pelas viagens para realizar edições especiais da Vogue em outros países. Foi a partir dessa época que comecei a conhecer o mundo.

Das muitas viagens dessa época, uma passou por trilhos inesperados. Foi minha primeira ida a Cuba, como convidado do governo de Fidel Castro para uma feira de moda. Finalmente eu iria conhecer um país comunista, terra de um dos mais exaltados líderes do século 20. Pelo menos era o que eu esperava.

Lembro com nitidez de uma das tardes dessa breve temporada na ilha do Caribe. O sol reverberava no asfalto das ruas de Havana, deformando o desenho dos carros, enquanto eu tomava um mojito no terraço do hotel Riviera, de onde se pode contemplar toda a exuberância do mar do Caribe. No ar, além do calor de 40 graus à sombra, que os cubanos têm o dom congênito de ignorar, ecoava a voz de Alejandro el Negro, crooner do hotel, cantando, com o timbre de veludo de um Nat King Cole caribenho, um bolero que falava de um homem em busca de uma mulher que lhe deixara na boca a cicatriz de um beijo.

Uma mulata com a cabeça coberta de bobs cor de rosa ajeitava as mesas do bar. Tinha um soldado russo a um canto, bêbado e de cara amarrada, e um casal de adolescentes mexicanos que se agarravam noutro canto do terraço com volúpia quase pornográfica, enquanto o garçom conversava fiado com uma italiana que acabara de acender um charuto.

Um homem silencioso, aristocrata em cada gesto, atravessou o terraço em direção à minha mesa.

– Posso me sentar com você? – perguntou com a voz enrouquecida por muitos anos de cigarro e uísque.

Arturo Vireña era o nome dele. Pele rosada, translúcida e todos os movimentos de um lorde inglês que se recusava a descer de um quadro antigo. Devia ser octogenário, mas a aparência ainda guardava a elegância de um rapaz very british que sobreviveu à passagem das décadas sem maiores estragos. Nascido numa família rica e educado em vários idiomas, Arturo crescera na Havana dos anos trinta e quarenta, uma cidade que sobrevive apenas na memória dos que a conheceram. Na Havana comunista de Fidel Castro, invadida por turistas de classe média do mundo inteiro, Arturo era um desconhecido. Ainda morava na casa que pertencera a sua família, entre reminiscências de um tempo em que Cuba era, como ele mesmo a definiu, “uma deliciosa mentira”.

Quando o crooner interrompeu o bolero, me dei conta de que ainda não sabia o motivo que trouxera Arturo à minha mesa. Nem tive tempo de perguntar, pois ele não parava de falar. Emendava uma história na outra sem chegar ao final de nenhuma. Arturo voltou ao Riviera nas noites seguintes para me encontrar naquele terraço onde, nos fins de tarde, eu me refugiava em algumas doses de rum depois da maratona de desfiles da Cubamoda, a feira para a qual fora convidado pelo governo. Sentava-se à mesa, aceitava o rum que eu lhe oferecia e continuava a desfiar histórias de um passado não muito distante, mas já com sabor de lenda, sobre as festas, os prazeres da noite, os nomes de ricos e famosos que marcaram época na ilha.

Na véspera de voltar ao Brasil, Arturo me convidou para conhecer sua casa, que ficava a alguns quarteirões do Riviera. Só cubanos de muito mundo e dinheiro viviam em mansões como a que ele herdara dos pais e que, depois da Revolução, o governo permitiu que mantivesse. Arturo serviu-me um patriótico cuba libre e mostrou-me a residência. A decoração era um engodo de estilos . Solteiro, ele vivia sozinho, rodeado de peças que, em séculos passados, adornaram palácios europeus, tudo em visível decadência por falta de dinheiro. Arturo nunca se preocupou em ganhar a vida, tampouco precisou. E embora vivesse como um nobre arruinado, o bom gosto nunca o abandonou.

– Fui um menino mimado – disse enquanto passeávamos pelos cômodos da casa. – Tive uma juventude irreal, demasiados privilégios.

Através de amigos, Arturo conhecia os estrangeiros que chegavam ao país em busca de prazer. Divertido e inteligente, era o único cubano num animado grupo de viajantes que agitava as noites na Havana de então, uma cidade aberta, internacional, refúgio de espiões e mafiosos, escapada ideal para paixões furtivas. Arturo e seus convivas foram surpreendidos com as taças de martini pela metade quando Fidel Castro e seus camaradas desceram de Sierra Maestra para pôr ordem no bordel em que a ilha se transformara. Aos poucos todos partiram, menos ele. Ficou fazendo companhia à mãe durante uma longa enfermidade. Quando a matriarca dos Vireña finalmente morreu, era tarde demais para o playboy cruzar os cem quilômetros que separam a ilha de Miami.

Arturo preferiu ficar entre as fotos e recordações dos tempos em que a vida era uma festa. O quarto dos seus dias de glória fora preservado como um santuário onde, no passado, ele compunha seus figurinos de rei da noite, escolhendo entre ternos italianos, camisas americanas, gravatas francesas, sapatos alemães, tudo feito sob medida nas melhores casas de moda do mundo. O fabuloso guarda-roupa permanecia lá, intacto, à espera de um milagre que o arrancasse do país que nunca mais foi dele. Apesar da solidão em que vivia, Arturo guardava uma ponta de humor.

– Em Cuba costuma-se dizer que no Brasil o povo acredita que Deus é brasileiro – cutucou.

– É verdade, faz parte dos nossos ditos populares – concordei.

– Pois saiba que aqui nós acreditamos que Adão e Eva são cubanos.

– Por quê?

– Não têm roupa, andam descalços, não podem comer maçã e acreditam que vivem no paraíso.

Nossa conversa foi interrompida pelo som da campainha ecoando na casa. Não era uma visita inesperada. Finalmente eu iria conhecer o verdadeiro motivo que, dias antes, levara Arturo à minha mesa no hotel Riviera. O motivo chamava-se Federico e entrou porta adentro com a desenvoltura dos muito chegados.

Federico tinha a vitalidade de um animal de raça, corpo atlético, cabelos ouriçados. Parecia maior do que era, pois ocupava mais espaço do que precisava ao gesticular palavras sempre acompanhadas de gargalhadas francas. Bebia e fumava incessantemente. Pela firmeza das opiniões, aparentava uma independência à prova de bomba, incompatível com a ditadura na qual vivia. Federico trabalhava como assessor de um grupo de teatro. Logo estávamos falando sobre música e literatura brasileira, que ele conhecia melhor que boa parte dos brasileiros. Não demorou muito, a noite se abriu às confidências. O pai trabalhara como espião nos Estados Unidos, infiltrado em grupos anticastristas de Miami. Aos 25 anos Federico já alcançara o máximo que a Revolução cubana poderia oferecer a um jovem de sua idade: um diploma em Letras. Estava pronto para mais e mais não havia para ele no país.

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– Você acha que pode ajudar Federico a sair de Cuba? – Arturo perguntou à queima-roupa.

– Perguntar não dói – respondi à brasileira.

Arturo não queria que Federico fugisse como a maioria dos cubanos, aventurando-se nas águas do golfo da Flórida, correndo o risco de morrer afogado ou devorado por tubarões. Antes de nos despedirmos naquela noite, perguntei por que ele tinha me escolhido para a complicada missão de ajudar seu protegido a escapar de Cuba.

– Porque você estava sozinho naquela tarde no Riviera – respondeu com voz cálida. – Apenas tive a sorte de ser o primeiro a chegar. Se não fosse eu, alguém teria aparecido e feito um pedido semelhante. Uma vez, quando Federico ainda era adolescente, perguntei o que ele queria ser quando crescesse. A resposta foi categórica: “Estrangeiro”!

Assim que cheguei a São Paulo, passei a articular a vinda de Federico ao Brasil. Com a ajuda de amigos, consegui que a Fundação Nacional das Artes fizesse um convite oficial para que ele viesse a São Paulo dar uma série de palestras sobre teatro cubano contemporâneo. As passagens de avião foram cortesia de uma empresa de cartões de crédito. O combinado era que, uma vez em território brasileiro, ele pediria asilo político.

O Brasil reservou uma bela manhã de domingo para recepcionar Federico em sua primeira saída de Cuba. Era também a primeira vez que se via no país um jovem cubano de jeans e tênis, que em nada correspondia ao clichê dos revolucionários de Sierra Maestra com suas guayaberas e charutos pendurados na boca. No dia seguinte, a figura sorridente de Federico estava estampada nos principais jornais do país, transbordando frescor caribenho, ilustrando entrevistas sobre cultura cubana. Suas palestras foram apresentadas para auditórios lotados por um público ávido por conhecer o jovem intelectual. Logo surgiram convites para ele se apresentar de Norte a Sul do Brasil. Entre uma viagem e outra, fazia escalas em São Paulo sempre hospedando-se no meu apartamento, mas sem decidir-se sobre o asilo político.

Uma noite, depois de uma de suas palestras, Federico me pediu que o levasse para conhecer uma boate gay. Fomos ao Homo Sapiens, tradicional casa do gênero no centro de São Paulo. Em homenagem a ele, o encarregado de relações públicas da boate organizou uma festa da qual fazia parte um strip-tease masculino, apresentado por um famoso travesti cubano conhecido como Liona, há muitos anos exilado no Brasil. Terminado o espetáculo, o travesti pediu uma salva de palmas para seu conterrâneo ilustre e o convidou a subir ao palco. A inesperada homenagem deixou Federico petrificado. Tropeçando nos degraus para chegar ao tablado armado no centro da boate, de repente ele se viu cercado por um travesti exilado e uma dúzia de rapazes nus exibindo ereções, sob os aplausos do público.

– Isto Fidel não toleraria! – Federico cochichou no meu ouvido.

Aquele comentário, feito a boca pequena, me fez lembrar do brilhante fotógrafo cinematográfico Nestor Almendros. Almendros foi exaltado por cineastas como François Truffaut como um dos maiores do século 20, nascido na Espanha mas criado em Cuba onde se refugiou com a família perseguida pelo regime franquista. Mal sabia ele o que o futuro lhe reservava com a chegada ao poder de Fidel Castro.

Muitas vezes premiado, nos anos 70 ganhou um Oscar pelo filme Cinzas no Paraíso, dirigido por Terrence Mallick, com Richard Gere no papel principal. Nos anos 80, pouco antes de morrer de Aids, Almendros realizou o documentário Conduta Imprópria, que faz revelações jamais ousadas nem pelos anti-castristas mais fervorosos. Nele o fotógrafo desnuda a homofobia do regime comunista cubano, imposta por Che Guevara, e as atrocidades cometidas em nome de uma moral que mais parece capricho de um líder narcisista, enquanto a camarilha fidelista era saudada em todo o mundo como redentora da humanidade. Com linguagem crua e fundamentado em documentação nunca questionada, Almendros mostra as viagens de Guevara a países do bloco soviético numa cruzada de aprendizado dos métodos utilizados por seus colegas comunistas para exterminar homossexuais. O resultado é um espetáculo de horrores. As técnicas usadas pelos regimes chinês, búlgaro, romeno – para citar alguns – transformam as atrocidades de Hitler em contos da carochinha.

Na impossibilidade de reproduzir em Cuba um reduto de martírios como os que vira no Leste europeu, Guevara optou por criar campos de concentração e trabalhos forçados onde os homossexuais eram confinados juntos a todo tipo de dissidentes do regime que se acabava de implantar. Liona, a anfitriã de Federico naquela noite na boate Homo Sapiens, já morta, fora detida num desses campos até ser libertada, graças à intercessão do escritor Cabrera Infante. Difícil supor que o ícone universal das causas políticas mais nobres e apaixonadas tenha uma passagem tão obscura em seu currículo. Mas ela é claramente descrita em Conduta Imprópria, hoje um vídeo fácil de achar nas boas locadoras.

Ao deparar-se no meio dessa coincidência bizarra, Federico se deu conta de uma transgressão só visível aos seus olhos. Ao deixar Cuba em busca da realização de um sonho pessoal de liberdade, pulara às escondidas a cerca detrás da qual é mantido, há décadas, um aparato repressivo bem azeitado e em pleno funcionamento que mantém milhões de cubanos em cativeiro em nome de uma doutrina socialista que pariu uma economia falida, uma revolução questionada e uma juventude que vive de sonhos – de dinheiro, sexo e fuga para qualquer lugar do mundo.

Naquele momento na boate Homo Sapiens a aventura particular de Federico desabou-lhe sobre os ombros com o peso de uma culpa. A lavagem cerebral imposta por décadas de doutrina comunista o transformou, sobre o palco da boate, num traidor dos ideais mais nobres do seu país. Na mesma noite, quando voltamos à minha casa, ele ligou para Havana e avisou à família que em breve estaria de volta. Na verdade, queria assegurar-se de que as portas do país ainda estavam abertas e que poderia voltar sem risco de represálias do temido aparato de repressão cubano.

Depois de três meses no Brasil, Federico retornou a Cuba, apenas para certificar-se de que nada havia contra ele em seu país. Um ano mais tarde, ao lançar-se no mar em busca do exílio em Miami, junto com outros balseros, ele teria o fim que seu amigo Arturo Vireña tentara a todo custo evitar. Seu corpo nunca foi encontrado.

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