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As nuanças da terceira idade

por Amálgama (19/07/2008)

por Taís Luso – Foi na última sexta-feira. O sol estava manso e amigo, brilhava sem agredir. Sem perder muito tempo, dei uma caprichada no visual: um batonzinho, brincos, calça jeans, um blazer de linho azul e um bolsão-container cheio de inutilidades. E, para fechar com chave de ouro, um tenebroso salto 9, bico fino. […]

por Taís Luso – Foi na última sexta-feira. O sol estava manso e amigo, brilhava sem agredir. Sem perder muito tempo, dei uma caprichada no visual: um batonzinho, brincos, calça jeans, um blazer de linho azul e um bolsão-container cheio de inutilidades. E, para fechar com chave de ouro, um tenebroso salto 9, bico fino. Assim, minha amiga e eu nos enfiamos dentro do shopping, onde nunca se sabe quando cai o dia e quando entra a noite.

Após andarmos por mais de 200 lojas, finalmente aportamos num simpático bistrô. Já um pouco acabada e menos poderosa – em cima daquele maldito salto 9 -, eu não sentia mais minhas pernas: elas não obedeciam mais a nenhum comando, levavam meu corpo sem altivez e sem elegância, apenas marchavam tentando acompanhar minha amiga e suas pernas de ganso.

Mas voltando ao Bistrô, um garçom cheio de dentes e abrindo um sorriso pra lá de generoso veio nos atender. Fizemos o pedido e ficamos aguardando. Na espera, comecei a olhar para as mesas mais próximas. Notei, então, que estávamos no “Recanto da Terceira Idade”: eram gurias na faixa dos setenta, de todos os tamanhos, pesos e medidas; com rostos de sapecas e outras de santinhas. De tudo um pouco. Mas na mesa que ficava quase encostada à nossa, o assunto era um só: doença!

Nessa mesa estavam sentadas quatro figuras: uma magricela, uma gorducha muito alegre – parecia de bem com a vida -, uma ruiva quase careca e uma louraça muito extrovertida. Como conversavam! Contavam, com detalhes, todas as suas doenças, suas inúmeras cirurgias, recuperações e seqüelas… Após esgotarem todas as suas lamúrias, as simpáticas figuras traziam à tona as doenças dos outros, e num tom choroso e macabro… Mas logo depois ficavam eufóricas novamente. Era tudo muito esquisito e desequilibrado.

Minutos mais tarde, chegou mais uma: parecia ser a mocinha da turma, talvez pelo seu ‘estilo’ um pouco desnorteado. Seus cabelos eram retintos e repicados e com enormes argolas douradas nas orelhas. Saracoteava dentro de um vestido indiano que já não lhe caia tão bem.

Após ouvir sobre tantas doenças, fiquei um pouco deprê. Larguei meus pensamentos, e ciente da minha fragilidade olhei para minha amiga em busca de um ‘socorro’.

Branqueei! Minha amiga estava pálida, deitada no espaldar da cadeira, parecendo uma boneca de cera. Escutou toda a conversa das “raparigas”, todas as doenças e seqüelas, mortes e ressurreições. Esqueci que minha amiga era por demais suscetível a este tipo de assunto. Muito nervosa, chamei aquele garçom cheio de dentes e de sorriso generoso. E lá veio ele! Que bom ver aquele sorriso novamente! Pedi um café, bem forte, e levei minha amiga para longe dali, perto de alguns adolescentes que riam desatinados sem um motivo aparente: talvez da gorducha corada, ou da desnorteada, com seu modelito indiano e com suas orelhas que mais pareciam duas línguas enfeitadas…

Pouco depois, já recuperadas, saímos do shopping e apreciamos um outro tipo de “crepúsculo”: o crepúsculo da natureza! Não havia nada de radiante: o sol se fora, mas em seu lugar se instalara uma grande esfera branca e iluminada emprestando luz à escuridão da noite. Notava-se nesta esfera uma maturidade silenciosa, mais austera e enigmática, mas de grande beleza.

Na volta, ao chegar em casa, vim direto à tela do computador para deixar registrado os dois crepúsculos que vi: o do ser humano, com todas as suas nuanças incertas, e o da natureza – único e maravilhoso.

Amálgama

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