PESQUISA

Tropicália depois

por Amálgama (26/07/2008)

por Matheus Vinhal * – É dezembro de 1968, 9 de dezembro do ano que, segundo alguns, não acabou. É o fim do IV Festival de Música Popular Brasileira, no Teatro Record, e um baiano ganha o primeiro lugar do Júri Especial. O nome dele é Tom Zé, e cantava “São São Paulo: Meu Amor”. […]

por Matheus Vinhal * – É dezembro de 1968, 9 de dezembro do ano que, segundo alguns, não acabou. É o fim do IV Festival de Música Popular Brasileira, no Teatro Record, e um baiano ganha o primeiro lugar do Júri Especial. O nome dele é Tom Zé, e cantava “São São Paulo: Meu Amor”. Além dele, lá está também, em terceiro lugar, outra baiana, de nome Gal, interpretando “Divino Maravilhoso”. Em quinto lugar, estão os Mutantes, com canção de Rita Lee e Tom Zé, “Dois Mil e Um”. Duas semanas depois, a ditadura brasileira baixa o Ato Institucional nº 5 e prende dois outros baianos. Um se chama Caetano; o outro, Gil. É quase o fim do ano, 27 de dezembro de 1968. No quartel do Exército de Marechal Deodoro, raspam-lhes as cabeças.

1968 é um ano denso, tenso. Um ano antes, em outubro de 1967, na edição anterior do Festival de MPB, Gilberto Gil, acompanhado dos Mutantes, tocando “Domingo no Parque” com guitarras, foi um acontecimento na música brasileira. Ficaram em segundo lugar. Em dezembro de 68 a Tropicália se consagrava. Meses antes, em julho, todos eles – Tom, Gal, Caetano, Gil e os Mutantes, entre outros – lançavam o álbum definidor do movimento, Tropicália (ou Panis et Circensis). Em setembro, Caetano era vaiado nas eliminatórias de São Paulo para o III Festival Internacional da Canção da TV Globo e, enquanto entoava “É Proibido Proibir”, fazia um discurso histórico para a música brasileira. Em dezembro, tudo culminava naquelas cabeças raspadas.

*

É julho de 2008, quarenta anos do lançamento do Tropicália, pois. 1968 é o ano que não teve fim; 2008, o ano das efemérides. Nunca na história desse país se comemorou tantas datas de uma só vez. É vinda da Corte Portuguesa, morte de Machado de Assis, nascimento de Guimarães Rosa, cinqüenta anos de bossa nova, outros cinqüenta da copa da Suécia, etc.; é aniversário redondo que não acaba mais.

O tropicalismo parece ter vencido a batalha com seus contrários, já considerado um grande marco na música popular brasileira. O que poderia se esperar de seus principais nomes, quarenta anos depois? No mínimo, um certo zelo em manter o nome ligado ao êxito do passado. Não são poucos os artistas que não ousam nem experimentam após o sucesso reconhecido. No entanto, 2008 é um ano em que os tropicalistas, talvez até sem perceber, veneram a estética sempre renovadora e antropofágica do movimento. Eles encabeçam, cada à sua maneira, uma lista de artistas que se enveredam pelas novas formas de distribuição e produção da atual música brasileira.

Os Mutantes, somente com Sérgio Dias da formação original, lançaram este ano a primeira gravação em mais de 30 anos. A canção “Mutantes Depois” foi distribuída gratuitamente pela internet (no Brasil, pelo IG Música, no exterior, pela Pitchfork), após uma audição reservada à imprensa. Já Gilberto Gil lançou há pouco o primeiro álbum de inéditas desde Quanta, de 1997, no qual continua a temática da “tríade arte-ciência-tecnologia”. O nome do álbum é expressivo: Banda Larga Cordel. Gil mira na união de passado com futuro e tem ousadia para experimentar em seus versos o encontro entre Guimarães Rosa e Youtube. Não à toa, a capa do disco é o símbolo mais difundido de RSS. Convém também lembrar que Gil foi o primeiro artista brasileiro a ter um canal oficial no servidor de vídeos do Google. Tem até Twitter.

Caetano e Tom Zé vão um pouco mais além. O baiano de Irará mantém um blog com freqüência invejável e fez posts que pouco devem aos que se dizem da web 2.0, como o que chama os comentaristas a fazer uma canção em parceria. Este ano seu Danç-Êh-Sá ao Vivo foi o primeiro disco brasileiro lançado pela internet, em um interessante projeto da Trama e do Álbum Virtual, com patrocínio do Grupo VR. Já Caetano chamou a atenção este ano pelo Obra em Progresso, espécie de projeto que envolve a série de shows que fez em maio e junho, e pelo blog de mesmo nome, no qual mostrou o processo de concepção e produção de seu novo disco. Em seus shows, Caetano polemizou, falando de Barack Obama, Ronaldo e travestis, Fidel Castro, Noel Rosa e racismo, de uma maneira que apenas ele consegue, no contexto cultural contemporâneo do Brasil.

A noção de obra em progresso de Caetano é fantástica, pois consegue fazer do lançamento de um disco algo que repercute por meses, em uma época de notícias tão fugazes. Tom Zé lança um disco gratuito em uma nova forma de distribuição, na qual quem paga pelo disco é quem patrocina. É muito curioso imaginar que os artistas brasileiros mais relevantes para as novas formas de distribuição e produção, surgidas na rede, sejam artistas que há quarenta anos lançavam um álbum histórico e balançavam as estruturas da música brasileira.

É a efeméride mais atual do ano.

* Matheus Vinhal é candango. Não sabe o que quer da vida. Gosta de escrever sobre música brasileira. É procurado em 17 estados e no distrito federal. Foi visto pela última vez em http://vinhal.blogspot.com.

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.