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A presença da arte

por Amálgama (07/07/2009)

por Marilene Dias * – Desde muito jovem, a arte foi presença constante em minha vida. Nada muito bem definido ou explorado, mas sempre nos arredores da saia. Mais madura, aliás, bem mais, e um dia a mudança radical aconteceu. Trabalhei a vida toda na área de administração de empresas, processos organizacionais, informática, banco, números. […]

por Marilene Dias * – Desde muito jovem, a arte foi presença constante em minha vida. Nada muito bem definido ou explorado, mas sempre nos arredores da saia. Mais madura, aliás, bem mais, e um dia a mudança radical aconteceu.

Trabalhei a vida toda na área de administração de empresas, processos organizacionais, informática, banco, números. A arte, durante este período, permaneceu adormecida, quase anestesiada, mas inevitavelmente foi se apresentando, marcando presença até que aconteceu o que tinha que ser. Fui salva e de repente lá estava eu aprovada no vestibular, efetuando minha matrícula na FAAP – Fundação Armando Álvares Penteado – em São Paulo, exatamente no dia em que eu completava cinqüenta anos.

Mudança total de repertório. Novos conhecimentos teóricos e práticos aguçavam minha curiosidade. História da Arte, com certeza, era uma matéria de grande riqueza para mim, uma vez que meu nível cultural, neste campo, era sofrível. O estudo abrangente da pintura, desenho, escultura fazia-me entrar em contato com novos significantes e, em conseqüência, novos significados. Uma mudança na maneira de olhar o mundo me
surpreendeu. Nunca mais olhei as coisas da mesma forma.

Cada minuto de conhecimento adquirido deveria compensar os anos de atraso, assim definidos por mim. Conceitos do mundo das artes transmitidos durante as aulas ou as leituras propostas ficaram gravados em minha memória como tesouros cuja verbalização poderia minimizar seu conteúdo.

Inicialmente, as aulas de Desenho e Pintura eram simplesmente uma tortura, na medida em que, de repente, descobri minha incapacidade para desenhar linhas retas, exercício proposto pelo professor. Colegas, ao meu lado, manipulavam lápis, pincéis, misturavam cores e definiam as formas com desenvoltura e rapidez. Ai! Que vergonha! Pânico. Espanto. Irremediável? Não, desafio.

Plano de ação: a evolução do processo de aperfeiçoamento exigia duas providências urgentes. A primeira: estudar muito os conhecimentos teóricos para ampliar a base do trabalho prático, Segunda: fazer, refazer, tentar e tentar de novo, ou seja, quanto mais eu praticasse desenho, pintura e demais exercícios, mais possibilidade de crescimento eu teria.

Quantas mudanças foram acontecendo nos trabalhos executados. Uma delas foi bastante significativa. Num texto de Matisse ele declara: “o artista deve colocar no seu trabalho, na sua obra, aquilo que é essencial, retirando, portanto, os excessos”. Até então eu era insuportavelmente exagerada. Passei a ficar atenta para chegar à essência e confesso que descobrir o exato limite de cada trabalho não é tarefa fácil. Praticar. Praticar: melhorar.

Já fiz algumas exposições, já participei de eventos coletivos de arte e, realmente, exposição é o termo correto para o que acontece. Desnudamos as nossas emoções, sentimentos e crenças nos submetendo ao julgamento do expectador da obra. Expor-se é um risco, porém a arte não existe para os que querem permanecer ilesos. Ela transforma, revigora, propõe, acrescenta, submete, questiona, ousa, invade, surpreende, diverte, perturba tanto aquele que a desenvolve quanto aquele que a observa.

Mudei completamente de vida aos cinqüenta anos de idade. Nunca me arrependi. Eu faria tudo de novo. Mudar, rejuvenesce.

* Marilene Dias completa 60 anos hoje. Nasceu em Campos do Jordão (SP), formou-se em Língua e Literatura Francesa, pós-graduou-se em Administração pela FGV e aos 54 anos realizou um antigo sonho, ao formar-se em Educação Artística. Esta crônica faz parte do seu Como Teodora minha avó (Scortecci, 2009).

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