PESQUISA

por Jean Garnier – A paranóia de um país em estado de atenção toma parte de um homem já começando a ficar neurótico com alguns acontecimentos pessoais. Essa é a premissa do intricado Sinédoque, Nova Iorque (EUA, 2008), o primeiro filme dirigido pelo talentoso e famoso roteirista Charlie Kaufmann – Brilho eterno de uma mente […]

por Jean Garnier – A paranóia de um país em estado de atenção toma parte de um homem já começando a ficar neurótico com alguns acontecimentos pessoais. Essa é a premissa do intricado Sinédoque, Nova Iorque (EUA, 2008), o primeiro filme dirigido pelo talentoso e famoso roteirista Charlie Kaufmann – Brilho eterno de uma mente sem lembranças, Quero ser John Malkovich, Adaptação.

No filme, Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) é um diretor teatral casado com a pintora de miniaturas Adele Lack (Catherine Keener). Caden está adaptando A morte do caixeiro viajante e começa a sentir bloqueios criativos. A situação vai piorando quando machuca a cabeça na torneira da pia do banheiro e depois repara que sua filha Olive está fazendo cocô verde. Ao consultar o psiquiatra, fica sabendo que sofre de uma doença no sistema nervoso. Tudo ameaça desmoronar: vida, relacionamento e carreira. Adele é convidada para expor suas obras em Berlim, viaja levando Olive, prometendo um dia voltar. Lá, fica famosa, esquece completamente do seu marido e na companhia de Maria (Jennifer Jason Leigh) começa a ter hábitos boêmios.

Surgem algumas motivações que podem dar um gás em sua vida e preencher o buraco deixado pelas ausências recentes: a paixão pela bilheteira Hazel (Samantha Norton) e o prêmio que ele recebe – 500 mil dólares da fundação MacArthur, que lhe permite produzir o que bem entendesse. O que pareceria uma salvação vai virando um enorme problema. Cotard quer criar uma grande obra de arte, algo que dure mais do que ele e que seja eterno. O diretor segue na contramão de sua ex-mulher (que produz miniaturas) e, num enorme galpão abandonado, transforma uma Manhattan e recria personagens que até ali povoaram a sua existência. Atores começam a ensaiar representações de si mesmos e de outras figuras de sua vida. Caden finalmente encontra em Sam (Tom Nooman) alguém perfeito para interpretá- lo.

O seu projeto dura décadas, muda de nome várias vezes e abrange diversos artistas, mulheres e participantes, sempre sem audiência. Há todo momento ele se diz disposto e sabe o que fazer, mas não o faz, não consegue ir além, sente-se incapaz e fica travado por uma desilusão. Nisso não vê sua filha crescer até que um dia percebe que o tempo passou, a reconhece toda tatuada numa revista alemã e sente a promiscuidade que ela leva.

Essa ambição me lembrou a do músico Brian Wilson. O ex-lider dos Beach Boys, começou no final da década de 1960 a conceber o disco Smile (que na época Brian chamou de “uma sinfonia adolescente para Deus”). Durante anos, brigas com a sua banda, insatisfação própria e sua degradação mental foram adiando a finalização do projeto. Finalmente, no dia 20 de fevereiro de 2004, o álbum foi lançado.

Sinédoque não é um filme fácil. Essa demora para que algo realmente de concreto ocorra o torna um pouco chato, mas mesmo assim tem um visual impactante. Essas indefinições, inconstâncias e medo de falhar é que dão charme ao filme. O homem sempre querendo encontrar a perfeição, mas, às vezes, não a encontra porque não sabe exatamente o que é, o tempo passa e não a realiza. Segundo o dicionário, a figura de linguagem sinédoque significa “tomar parte pelo todo”. No longa de Charlie Kaufmann, o personagem representa nada mais que a vida cotidiana e pessoas como eu e você.

veja o trailer ]

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.