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Coco Chanel & Igor Stravinsky

por Amálgama (02/07/2010)

por Poliana Dantas * – Caos. Qual o sentido, a vantagem dessa teoria? É que a partir desta, que é resultado, a propósito, de múltiplas ordens, somos capazes de aplicar pontos de vista diferentes e inesperados para cada situação muitas vezes dogmática, fazendo de nós, mortais, seres multifacetados e céticos a qualquer crença preestabelecida. Não, […]

por Poliana Dantas * – Caos. Qual o sentido, a vantagem dessa teoria? É que a partir desta, que é resultado, a propósito, de múltiplas ordens, somos capazes de aplicar pontos de vista diferentes e inesperados para cada situação muitas vezes dogmática, fazendo de nós, mortais, seres multifacetados e céticos a qualquer crença preestabelecida. Não, este não é um prelúdio a um discurso ateísta. Mas pode ser útil como um “plano de ação” para interpretar com sensatez um filme tão cheio de nuances e sensualidade como é Coco Chanel & Igor Stravinsky, exibido em nove cidades brasileiras durante o Festival Varilux de Cinema Francês 2010 e com estreia comercial prevista para 6 de julho.

O enredo se situa na glamurosa e atraente Paris das primeiras décadas do século XX, curiosamente, no início da decadência de sua belle époque. O escândalo e o furor causados pela música e coreografia da composição “Le Sacre Du Printemps” (A Sagração da Primavera), de Igor Stravinsky, considerado pela grande maioria presente um ato de imoralidade, servem de pano principal para o início de um relacionamento – mesmo que distante – entre Coco Chanel, ainda uma simples empresária, e aquele compositor então “revolucionário”. Sete anos depois, Coco, agora estilista influente, viúva e rica, decide bancar a carreira de Igor, que passava por dificuldades financeiras com a família, além de ter uma esposa constantemente doente, com tuberculose. Daí iniciaria-se um tórrido affair (o uso da palavra “tórrido” é, sim, intencional, como contraposição às sinopses que sempre seguem a linha do amor romântico, o que definitivamente não existe nesse filme) entre os dois artistas; um fervente cenário para ambientar a fase mais criativa daqueles dois seres.

-- Anna Mouglalis e Mads Mikkelsen em cena --

Bom, até agora parecemos nos deparar com mais uma história de triângulo amoroso, de infidelidade masculina, onde este sempre sai com sua integridade por cima; uma versão de roteiro linear mais tragável, aceitável por uma sociedade tradicional (em pleno século XXI). Mas alguns pontos precisam aqui ser considerados. Primeiro: a mulher. Coco, interpretada lindamente por Anna Mouglalis, apresenta-se não com uma figura ressentida com seu passado e reprimida pelos convencionalismos, e sim como alguém sujeita de si mesma, que realmente sabia assumir seu papel de mulher no Reino Animal (sim, não nos esqueçamos dessa nossa condição): um ser “antes de tudo forte” (lembrando Euclides da Cunha), ousado, incapaz de sentir algum tipo de culpa por provocar uma separação conjugal; para ela, sexo é concretista, e verdadeira paixão só pela subversão, seja na moda – seu maior campo de atuação – ou nos brios masculinos. E ela se permitia sim, ser má.

Segundo: o homem. É fato que Igor Stravinsky (Mads Mikkelsen) dotava de uma mente visionária, à frente do seu tempo, que sabia usar da influência clássica para chocar os ouvidos da maioria. Musicalmente falando. Em confronto, havia também outro personagem coexistindo – um cristão ortodoxo, casado com uma mulher submissa, quatro filhos, perfeccionista, galante e de valores conservadores; em suma: um típico russo patriarca de início de século – aparentemente progressista. O embate para ele era lidar com essa dupla moral num mundo onde a 1ª Grande Guerra trouxe mudanças que não se resumiram apenas ao contingente populacional.

Terceiro: a relação. Algo que apenas a Física explica, talvez até noções de Biologia possam ter alguma influência, no entendimento do antagonismo homem-mulher, assim como o Black-and-White, onde ambos, num mesmo espaço, lutam entre si para defender seu gênero, deixando-se consumir por uma forte atração sexual (literalmente) a fim de descobrir qual resistiria com mais versatilidade às opressões sociais. Agora a “simples-história-clichê” já não é tão clara e previsível quanto aparentava ser; pois entre duas visões contraditórias (ela querendo ser mulher e ele mantendo-se homem), existem milhares de ângulos, que se caleidoscopeiam (com a permissão do neologismo) em um sincretismo de atos primitivos e contemporâneos que realçam nosso instinto mais profundo.

Provocante. Não há palavra que sintetize melhor Coco Chanel & Igor Stravinsky. Não só por colocar em pauta a questão da independência feminina tanto profissional quanto sexual — todos os méritos ao diretor Jan Kounen, que soube conduzir o tema com bastante sutileza, sem a pretensão, todavia, de se sobrepor ao “maior reconhecimento” adquirido pela outra biografia sobre Chanel, Coco antes de Chanel, indicado ao Oscar 2010 por melhor figurino –, como também por perceber o tamanho do choque decorrente do fato de que muitos ainda não estão preparados para aceitar e compreender a igualdade de gêneros, personalidades capazes de serem caóticas, de desequilibrar, de transcender – assim como foi o mito Gabrielle “Coco” Chanel.

[veja o trailer]

* Poliana Dantas é estudante do Instituto Federal de Pernambuco.

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