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Ascender ao céu atentando às trombetas do inferno

por Elton Flaubert (14/07/2014)

Peter Englund escreve uma história da Primeira Guerra que transforma relatos pessoais numa espécie de memória coletiva

"A beleza e a dor: Uma história íntima da Primeira Guerra Mundial", de Peter Englund. (Companhia das Letras, 2014, 512 páginas)

“A beleza e a dor: Uma história íntima da Primeira Guerra Mundial”, de Peter Englund. (Companhia das Letras, 2014, 512 páginas)

A bordo do trem, Michael Corday olhava perplexo, através da janela, as transformações proporcionadas pela guerra. Era 25 de outubro de 1914. Naquele domingo, o outono europeu ameaçava delinear seus traços, mesmo que, àquela noite, ainda fosse vítima do mormaço. Corday era funcionário público, e tinha ido visitar sua família em Saint-Amand-Longpré. Estava voltando a Bordeaux, sede provisória do governo francês, enquanto os alemães pareciam obter uma vitória retumbante, situação que perdurou durante todo mês de setembro.

Corday era um homem cindido: escritor inquieto, crítico literário, e socialista; mas que, por não conseguir se sustentar com as letras, mantinha um emprego na burocracia governamental. Decepcionado com a guerra, ele é tomado pela melancolia ao constatar que a euforia pelo progresso constante não trazia felicidade. A guerra tinha invadido o cotidiano das pessoas, e estava presente mesmo nas brincadeiras infantis. Nas ruas, a generosidade apresentada pelo senso de comunhão com seu povo contrastava-se com o egoísmo da histeria nacionalista. Corday perdeu sua última fé (na humanidade), despertou do longo sonho das luzes, sentia-se agora como pertencente a outro mundo (ainda inexistente) diante daquela escumalha chauvinista, entregue à euforia de um novo acontecimento, à grandiosidade da pátria e à perda. Um formidável símbolo do intelectual europeu da virada do século.

E foi sob a inspiração desta mesma melancolia que Peter Englund procurou reconstruir o cotidiano de Michael Corday e de mais dezoito personagens não fictícios na radicalidade da guerra, a partir de diários, cartas e outros documentos auxiliares, em seu magnífico A beleza e a dor: Uma história íntima da Primeira Guerra Mundial. As experiências pessoais são narradas em sequência cronológica, com linguagem concisa, em curtos capítulos, dando vazão ao sentimento contido nos diários. A narrativa veloz e fluída imita, portanto, a fragmentação da memória, sem por isto, perder o senso de unidade dessa experiência. Um relato está sempre ligado a outro.

Essas “testemunhas anônimas da história” transitam entre a Europa, a África e o Oriente Médio, e trazem consigo diferentes histórias, circunstâncias, identidades, medos, apreensões, amores, maneiras de lidar com a vida. Homens e mulheres com faixas etárias distintas, e uma criança de doze anos (Elfriede), tão diferentes, mas com experiências em comum, vivenciando os choques diários da guerra, aprendendo constantemente a recriar seu mundo, tão dilacerável.

Como o autor explica no Prefácio, não há intenção de descrever eventos, processos, causas, consequências, mas a vida diária em suas expressões e impressões, estados de ânimo. Englund afirma não trabalhar com fatores, mas com pessoas reais, de carne viva, com coração pulsante, reconstruindo o mundo das emoções e dos afetos. Ele faz uma espécie de micro-história da primeira guerra mundial, mas não se deixa perder no particular (as diferentes vivências pura e simplesmente), tampouco dissolve-as num contexto determinador.

Para isto, ele precisa reconstruir a imagem deste cotidiano na radicalidade da guerra. Com seus dezenove personagens, Englund elabora um mosaico que nos apresenta (sem prescindir da análise) as flutuações emocionais e afetivas, de modo que a guerra apareça em suas nuances mais complexas e ambivalentes. O autor dá palco para uma multiplicidade de vozes, que não falam apenas por si próprias, mas também por outras, moldadas em tais circunstâncias e configurações. Uma mediação despretensiosa e arrebatadora entre o indivíduo e a humanidade.

Assim, encontramos a figura de Richard Strumpf, um marinheiro alemão de apenas 22 anos, embriagado de alegria pela guerra, um acerto de contas com os inimigos da pátria. Strumpf também era racista, pois chamava os japoneses, entre outras coisas, de “macacos amarelos ladrões”. Ele gostava de ler e apreciava as artes, era inteligente e ultranacionalista. Admirava o tom patriótico dos discursos recentes e das propagandas, mal podia esperar pelo confronto. Há algo de louvável e bonito nessa odiosa ingenuidade de quem vai ao encontro da morte com a mais determinada alegria em busca de um sentido para vida. O seu diário é um símbolo das nuances das (des)ilusões.

Com o decorrer da guerra, o disparar dos tiros torna-se banal e o caos vira trivialidade. Perder um parente, um amigo, um companheiro de tropa, um compatriota: de que importa? Dói, mas é preciso seguir em frente e se acostumar por anos com essa sensação. Uma dor incomensurável, que de tão estúpida torna-se paralisante; pois, ao se tornar elemento corriqueiro, esvazia de sentido a vida, tendo no impulso de desintegração sua consequência mais básica e irrefletida. Os choques e as rupturas das circunstâncias impostas pela guerra achatam e convivem com as ações mais corriqueiras, como amar, conversar, fazer amizade, sentir-se só.

Quando a jovem estudante alemã Elfriede Kuhr, de apenas doze anos, viu os soldados marcharem felizes rumo à guerra no escaldante verão de 1914, e teve sua imaginação raptada pelas promessas de glória, mal poderia esperar que, quatro anos depois, tendo sua infância partida, veria o desfile dos soldados alemães derrotados – após ter visto bebês morrendo de fome e vivido a infernal escassez de comida. Elfriede viu seu bebê favorito, de apenas seis meses, falecer em seus braços por desnutrição profunda, no hospital infantil de Schneidemühl. Ela resolveu então desfazer-se de seu personagem imaginário, o tenente Von Yellenic. A guerra era cruel com todos: amigos e inimigos, adultos e crianças. Não havia aquele que não conhecesse a dor e a desgraça de perto, e não tivesse que se acostumar à partida.

Diante do drama da guerra, o jovem soldado britânico Alfred Pollard sente-se abatido pela indiferença. Ao ver tantos mortos, pensava que este seria seu destino, e que ninguém daria à mínima, como ocorria com seus companheiros de front. Resignado com a morte, gostaria que tal fato ocorresse na presença de um grande público, pois a morte no campo de batalhas era uma morte silenciosa, sorrateira, secreta.

Harvey Cushing, cirurgião de quarenta e cinco anos do exército americano, observava em si mesmo o impulso animal. Por trás daquele verniz civilizatório, do homem de família sentado confortavelmente na poltrona, lendo seu jornal, fumando cigarro e tomando uísque, havia um animal em potencial, bárbaro e impulsivo. A guerra levava a mente aos seus limites, mas Cushing mantinha-se perplexo com as perturbações mentais que surgiam no campo de batalha. Sem estar no front, encontrava-se em constante estado de luto, ao sentir na histeria coletiva as mais vis e medíocres esperanças; sentia as dores da embriaguez da radicalidade, que não poderia ser efetuada sem o ódio explícito; pensava até mesmo sobre as contraditórias relações entre o torpor e a guerra.

Dos dezenove sujeitos de Englund, dois morrem, dois se tornam heróis, dois são aprisionados, e dois sofrem danos físicos permanentes. Mas, emocional e afetivamente, todos possuem algo em comum, para além da separação do espaço e do tempo, para além dos desejos em contradição. O relato da experiência cotidiana dessas pessoas, numa realidade radical como a guerra, revela uma situação ambígua: dor e beleza.

A guerra é uma tragédia cotidiana, um sacrifício, um rito de partida. Ela gera dor, angústia, sofrimento incomensurável. Mas há também seus aspectos mais ambivalentes. Escapando do tédio e da monotonia da vida civilizada, a guerra nos põe numa situação limite, um encontro com a morte de onde só alguns escaparão. Ela é um grande acontecimento, que preenche aspectos do cotidiano não só de tragédia e horror, mas até de beleza no sufocante desejo de juntar os “cacos” que se encontram no chão, e ansiar por uma religação entre eles. A guerra é uma experiência radical de privação, mas também de construção constante e necessária na ruína. É só das lágrimas que se pode fazer um sorriso. E é só do fundo do poço que se pode reerguer-se.

Não à toa, todos os personagens de Englund tornaram-se capazes de expressar os mais belos sentimentos, e as mais inquietantes lições, na ambivalência em que viviam. Os choques diários entorpeciam de perplexidade, mas também obrigavam a desejar o seu contrário: a fuga deles. Os choques causavam fantasmas, assombros. E estes assombros soavam como as trombetas do inferno, pronto para abrir sua porta. Mas, era preciso escapar disso, lutar por sua vida, lembrando-se do seu amor aos outros: pais, esposa, amante, amigos. Buscar o céu atentando às trombetas do inferno que tocavam irremediavelmente.

Neste livro magistral, Englund transforma a memória de diários individuais numa espécie de memória coletiva, em que os protagonistas anônimos possuem vidas entrelaçadas de maneira minuciosa por esta experiência radical e ambígua, que tanto nos toca e comove até hoje. De maneira despretensiosa, o autor apresenta a unidade na diversidade em toda sua força vital, baseado na experiência. E o que descobre? A própria ambivalência da vida: beleza e dor na história íntima (das emoções e dos afetos) da Primeira Guerra Mundial.

Elton Flaubert

Doutorando em história das ideias (UnB). Estuda a fundação da ONU.