PESQUISA

Israel em guerra com o Hamas e consigo mesmo

por Amálgama (17/07/2014)

Israel tem seus demônios, mas tem também seus inimigos

Leon Wieseltier, na New Republic / 16 de julho

Mohammed Abu Khdeir

– Mohammed Abu Khdeir –

Mil mísseis do Hamas não podem apagar a mancha do assassinato de Mohammed Abu Khdeir, e tampouco podem os assassinatos de Eyal Yifrach, Gilad Shaar e Naftali Fraenkel atenuar isso. Talvez seja demais pedir introspecção em época de guerra; pessoas sob ataque não estão inclinadas a sentir culpa. Mas o vivicombúrio do menino palestino não deve ser eclipsado pela luta contra as agressões do Hamas. Não há Iron Dome para interceptar a consciência. O dia da atrocidade contra Mohammed Abu Khdeir – um assassinato por vingança em uma sociedade que zomba dos assassinatos por vingança em outras sociedades – foi um dia negro na história do Estado e da religião em nome dos quais ele foi, ainda que falsamente, perpetrado. Em suas ideias e palavras, os maníacos que perpetraram o crime não vieram do nada, de política alguma, de cultura alguma.

Em Israel, a repulsa com o que foi feito na floresta perto de Jerusalém, que é uma repulsa sincera, não encerra o assunto. O arrependimento, se é para ser verdadeiro, não pode ser eficiente. Certamente, não deve tornar-se um outro terreno para a sensação de superioridade moral. O monumento improvisado que foi erigido na floresta pela memória do menino palestino foi desfigurado, e erguido novamente, e desfigurado novamente. Mesmo enquanto tenha que suportar sirenes e abrigos, a sociedade israelense deve cultivar sua repulsa, sua sensação de náusea, até porque a ruína das relações entre os povos é ainda mais perigosa do que a ruína das relações entre presidentes e primeiros-ministros.

Em 1922, não muito tempo depois do assassinato de quinze judeus em Jaffa (entre eles o grande escritor hebreu Brenner), houve relatos bastante disseminados de que alguns rapazes judeus, em vingança pelos horrores, mataram um menino árabe – de acordo com a grande historiadora Anita Shapira, este foi “o primeiro registro de uma agressão a um árabe por um judeu com base em motivos de vingança”. Ahad Ha’am, que se estabelecera em Israel havia pouco, escreveu uma carta angustiada ao jornal Haaretz. A notícia do crime cometido pelos judeus, ele declarou, “balançou, dentro de mim, todos os fundamentos da visão do judaísmo e do sionismo que eu tinha construído quando jovem”. “É este o sonho do ‘retorno a Sião’ que o nosso povo sonhou por milhares de anos”, ele perguntou, “vir a Sião e macular sua terra com o derramamento de sangue inocente?” “Se este é ‘o messias’”, concluiu ele, raivosamente, citando um antigo ditado talmúdico, “ele pode vir, mas eu não gostaria de vê-lo.” Essa esplêndida pá de cal foi precedida, no entanto, por algumas observações sobre a imunidade essencial do povo judeu às seduções da violência. “Judeu e sangue: existem maiores opostos?… Nosso sangue foi derramado como água nos quatro cantos da terra, mas nós mesmos não derramamos sangue.” Essa virtude intrínseca era devida, segundo filósofo, “à grande Torá ética que os nossos antepassados nos legaram… Este povo, perseguido por toda parte, com toda a sua visível humildade, olhou com repulsa os seus vizinhos, suas mãos encharcadas de sangue, e sabia, no fundo do seu coração, que não tinha, e nunca teria, qualquer relação com tal selvageria”.

Sobre o comportamento dos judeus no exílio, Ahad Ha’am estava correto, ainda que, nas últimas décadas, estudiosos tenham amargamente debatido o tema da vingança na literatura dos judeus na Idade Média. Mas o exílio, com seu quietismo, acabou sendo repudiado, e os judeus se salvaram (não suficientemente cedo) através da aquisição de poder, e eles desenvolveram suas próprias variedades de nacionalismo inflamado e xenófobo, especialmente quando misturadas com sua religião. “A grande Torá ética”, que proíbe terminantemente a vingança, não protegeu os judeus sob seu estatuto de seus impulsos mais primitivos; pior ainda, tem sido muitas vezes invocada para justificá-los. Nós somos humanos: essa é a boa notícia e a má notícia.

Mas isso não é tudo o que precisa ser dito. Israel não tem apenas demônios, mas também inimigos. Um de seus inimigos, de acordo com a organização Human Rights Watch, está cometendo crimes de guerra, lançando mísseis indiscriminadamente contra alvos civis. A campanha de Israel em Gaza não é um ato de vingança pelo assassinato de três meninos judeus; é um ato de retaliação contra a artilharia dos foguetes de Gaza contra cidades israelenses.

Qual é a diferença entre vingança e retaliação? É uma pergunta legítima. A diferença reside na legitimidade da autodefesa. A vingança não protege nada, exceto as psiques enlouquecidas de quem a comete. Não é um ato de autodefesa, é um ato de autoexpressão. Certamente, não é uma “resposta” em qualquer sentido racional. Os israelenses que mataram o menino palestino não foram provocados; eles foram pré-provocados. No entanto, na questão dos ataques com foguetes a partir de Gaza, Israel foi provocado. A segurança dos seus cidadãos estava em risco; e segurança é avaliada empiricamente, não ideologicamente; e segurança não é menos fundamental, moralmente falando, do que a paz. Israel está agindo estrategicamente, e não emocionalmente, em Gaza. Está “diluindo” uma ameaça incontestável. Isso não o blinda contra a pergunta sobre os fins e os meios, mas a campanha para destruir um arsenal que está sendo arremessado contra a sua própria população é justificada pela razão e pela dignidade. Não é uma solução política, mas um míssil em pleno ar não é um problema político.

Se devemos considerar eticamente insuficiente a técnica do “bater no telhado”, que consiste nos avisos de Israel aos habitantes de Gaza sobre os perigos iminentes para eles (e que, certamente, não impediu todas as mortes de civis), o que devemos fazer com o Ministério do Interior em Gaza, que os tem exortado a voltar para suas casas? O Hamas tomou o seu próprio povo como refém. Na Cisjordânia, os assassinos dos meninos israelenses foram várias vezes festejados. A introspecção não é uma obrigação apenas judaica.

Em uma noite dessas, afundado em minha desesperança habitual (mas ainda branda), abri um livro de poemas do poeta palestino Najwan Darwish, recentemente publicado pela New York Review Books. A poesia pode dar esperança, não? Encontrei um poema chamado “As câmaras de gás”, no qual li o seguinte: “Eu não tenho uma avó que morreu nas câmaras de gás…/ Quão horrível foi o Nakba?/ Quão angustiante é ser um refugiado?/ Estas são apenas pequenas dores/ para negros como nós./ Eu me divirto escrevendo isto/ na câmara de gás.” A esperança fugiu novamente.

* tradução: Rafael Bán Jacobsen

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.