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O hamassismo dos imbecis

por Amálgama (29/07/2014)

A verdade é que essas pessoas da “geração Gaza” acham natural árabes matarem árabes

Bernard-Henri Lévy, no Le Point / 31 de julho (já disponível no site do autor)

anti-israel

Sinto muito por voltar ao assunto.

Mas essas pessoas que vimos, na última sexta, 25 de julho, soluçar seus “Palestina vencerá” e “Israel assassino”, onde elas estavam no domingo anterior, quando soube-se que os combates na Síria fizeram, em um final de semana, a bagatela de 700 mortos, que se juntaram aos 150.000 que tampouco tiveram, em três anos, a honra de uma verdadeira manifestação em Paris?

Por que não saíram às ruas quando, alguns dias antes, a bem informada Rede Síria para os Direitos Humanos revelou que o exército de Damasco realizou em 2014, quando supunha-se que ele já havia destruído seus estoques de armas químicas, pelo menos 17 ataques químicos contra, em particular, as zonas de Kafrzyta, Talmanas e Atshan?

Como é possível que, nessa manifestação de 25 de julho, não se dedicou um slogan, nem uma pequena bandeira, aos massacres que ocorreram na mesma hora na região de Homs e que fariam, em dois dias, 720 novos mortos, presos entre os dois fogos do regime de Bashar al-Assad e as tropas do “Estado Islâmico” do Levante?

Dirão esses “indignados” de um dia que não tinham conhecimento, que não possuíam as imagens desses mortos de Homs, e que só imagens, em nossos dias, têm o poder de mobilizar? Dificilmente. Porque eles com certeza tinham essas imagens. E a prova que eles as tinham é que foram elas, ou outras mais antigas, que os inspiradores de seus desfiles – como revelou, entre outras, a BBC – deturparam, truncaram e depois retuitaram sob a hashtag GazaUnderAttack, fazendo crer que as imagens vinham de Gaza.

Retrucarão eles que o desfile era “contra Hollande” e contra uma política de apoio a Israel, a qual eles não querem que seja empreendida “em seus nomes”? Vá lá. Mas esse comportamento de encarar a política externa com razões internas, e de instrumentalizar uma grande causa para servir de pequeno instrumento com a finalidade de se dar uma boa consciência, nunca foi, para começo de conversa, o mais respeitoso para com as vítimas. Mas, sobretudo, esse mesmo raciocínio não deveria ter feito com que se saísse dez vezes, cem vezes, às mesmas ruas para protestar contra uma não-intervenção na Síria decidida, no final das contas, também em nosso nome, embora sob pressão (dessa vez americana), pelo mesmo François Hollande?

Dirão eles que é a proporção que choca? O desequilíbrio entre um exército potente e civis desarmados? Eu os compreenderia melhor. Mas, tampouco, esse é o caso. Porque se o raciocínio fosse mesmo esse, se a preocupação fosse realmente com essas crianças palestinas cujas mortes são, de fato, a cada vez, uma abominação e um escândalo, também colocariam junto os comissários políticos do Hamas, que ocupam subsolos de hospitais com seus centros de comando, colocam lança-foguetes às portas de escolas da ONU e ameaçam os pais que tentam evacuar suas casas quando um tiro do exército israelense lhes adverte que uma bomba vem em seguida.

E depois, se a atitude fosse mesmo essa, se essa preocupação com a desproporção assimétrica fosse a real mola propulsora de sua raiva, não teriam eles que ter dado pelo menos um pensamento a essa outra desproporção que atinge, bem próximo de Gaza, esses infelizes entre os infelizes, esses desarmados absolutos que são os cristãos de Mosul, a quem os “irmãos” do Hamas dizem “Vocês tem uma escolha: fazer as malas e sair de suas casas, não por algumas horas, mas para sempre, ou morrer”?

Não.

A verdade é que essas pessoas da “geração Gaza”, que acham a última moda vestir um keffieh made in Palestine, no fundo acham natural árabes matarem outros árabes. A verdade é que elas não têm qualquer espécie de objeção ao fato, saído da própria boca dos responsáveis pelo Hamas (Journal of Palestine Studies, vol 41, nº 4), de que a construção de túneis custou, somente em 2012, a vida de 160 crianças palestinas transformadas em escravos-mirins.

E a verdade é que não se viu esses revoltados de ocasião se mobilizarem, os mais velhos entre eles, em favor dos 300.000 massacrados em Darfur pelo Sudão, nem pelos 200.000 chechenos que Putin (segundo sua própria e elegante fórmula) matava até nos banheiros, nem pelos bósnios cercados e bombardeados durante três anos perante uma indiferença quase geral. A indignação só surge quando há a possibilidade de condenar um exército na maioria judeu.

E, bem, eu sinto muito, de verdade.

Mas esse dois pesos e duas medidas é odioso.

Ver concorrendo ao título de campeã do humanismo contemporâneo essa improvável coalizão rubro-negra de amigos de Olivier Besancenot e, segundo as próprias testemunhas (Le Monde, 26 de julho), partidários de Alain Soral, agrupados no coletivo Gaza Firm, é de enlouquecer.

E para alguém que, como eu, luta há quase meio século pela criação de um estado palestino ao lado de um Israel plenamente reconhecido, para um homem que, do plano de Genebra à fundação do JCall, se associou a todas as iniciativas que vão no sentido daquilo que eu chamei de “paz seca”, há nessa algazarra alguma coisa de desestimulante.

Que há, entre as fileiras de manifestantes, mulheres e homens sinceros, eu não tenho dúvida.

Mas, por favor, que eles pensem duas vezes antes de se deixarem manipular e embriagar por aqueles cuja motivação não é a solidariedade, mas o ódio – e cuja verdadeira agenda não é “paz na Palestina”, mas “morte a Israel” e às vezes, infelizmente, “morte aos judeus”.

* tradução: Daniel Lopes

Amálgama

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