PESQUISA

Oriente Médio e a moda do turismo revolucionário

por Amálgama (15/07/2014)

Muitos projetam seu desejo por “luta” em disputas do mundo em desenvolvimento

James Bloodworth, no The Independent / 14 de julho

- Protesto anti-Israel em Paris, 13 de julho. (foto: AFP/KENZO TRIBOUILLARD) -

– Protesto anti-Israel em Paris, 13 de julho. (foto: AFP/KENZO TRIBOUILLARD) –

O que há na disputa entre Israel e Palestina que causa tanta vituperação? Mesmo pessoas que aparentam não saber nada de política parecem ter uma opinião sobre esse conflito histórico que envolve uma pequena faixa de terra. O pior é que todo mundo parece achar que sua opinião é importante, ou mesmo original.

E por que não se mostra o mesmo nível de preocupação com outros problemas mundiais aparentemente sem solução? Toda morte é uma tragédia, mas aqueles com uma visão abertamente ideológica sobre Israel/Palestina se mostram, bem, mais que apenas um pouco transtornados. Mesmo assim, uma opinião sobre o conflito é absolutamente de rigueur entre os tipos políticos.

Mas, honestamente, estou de saco cheio de tudo isso, por várias razões.

Porque quando árabes estão matando árabes ninguém se importa

A perda de vidas em Gaza e os foguetes do Hamas rumo a Israel são certamente lamentáveis, mas ambos somem em comparação com a situação na Síria. “Ativistas” pró-palestinos frequentemente enfatizam o alto número de mortes palestinas em contraste com os relativamente poucos israelenses mortos no conflito entre os dois países; mas pode-se dizer o mesmo sobre a Síria quando comparada com Gaza e Cisjordânia.

Onde estavam os carregadores de cartazes, os farisaicos, quando crianças foram mortas com armas químicas em Damasco ano passado? Na verdade, a maioria dos manifestantes “anti-guerra” se mobilizou com o propósito de impedir qualquer ação para punir o ditador que estava matando palestinos de fome nos campos de refugiados de Damasco.

Àqueles que dizem que uma vida israelense equivale a 10 vidas de palestinos – bem, talvez seja verdade. Mas 10 palestinos mortos equivalem a 1.000 sírios mortos (ou 10.000 africanos mortos). Grande parte da “preocupação” com a Palestina parece não ser realmente sobre vida humana, mas um movimento político e uma oportunidade para adotar o comportamento da moda.

Porque nacionalismo transferido é tedioso

A política britânica é muitas vezes sem graça, e as pessoas ficam dispostas a projetar seu desejo por “luta” em disputas aparentemente exóticas dos povos do mundo em desenvolvimento. Intelectuais e estudantes de classe média são especialmente propensos a “chafurdar numa barbárie sadia”, para parafrasear o escritor francês Pascal Bruckner.

Alguns chegam a realmente visitar a cena da causa de seu interesse: tendo passado vários verões em Cuba, eu testemunhei em primeira mão a credulidade do turista revolucionário. Inicialmente cheios de idealismo, eles deixam o país ou completamente desiludidos ou ainda mais zelosos – a ideologia agindo como um para-choque contra a realidade. Ao invés de ver uma sociedade complexa com várias forças progressistas e regressivas, o ativista vê apenas preto e branco – tirania ou utopia, opressor ou vítima.

A política é definida tanto por temperamento quanto por circunstâncias materiais, e em toda sociedade existe um pequeno número de pessoas que seriam incapazes de sair da cama cada manhã se não fosse pela existência de alguma causa maior que elas mesmas. “Um mapa do mundo que não inclui a Utopia não merece sequer ser olhado”, como colocou Oscar Wilde.

Nos últimos 30 anos, isso significou apostar em movimentos no estrangeiro, incluindo grupos como a Organização para a Libertação da Palestina, ou em estados como Israel. A maioria das pessoas não-políticas é, por razões óbvias, relativamente imune a esse tipo de coisa, mas é importante reconhecer os sintomas na próxima vez que você ver um estudante de classe média com um keffiyeh e gesticulando sobre “sionismo”.

O que você está dizendo já foi dito antes

Se uma solução simples para o conflito em Israel e Palestina fosse óbvia, não estaríamos hoje no ponto em que estamos. Entretanto, isso não impede um bocado de gente de pontificar sobre “o que X precisa fazer para acabar o conflito” – ou, mais aborrecedor ainda, “por que eu penso X sobre X, e por que isso é importante”.

É possível que você seja o gênio que finalmente possa resolver o quebra-cabeça, mas acho bastante justo assumir que você provavelmente não é.

Existe um pressuposto ingênuo, mas bastante difundido, de que esse conflito é “chave” para desencadear a paz e a harmonia no Oriente Médio. É mesmo? Porque isso parece um tantinho simplista, pra ser generoso. Como um amigo meu observou sarcasticamente: “Sunitas e xiitas, curdos e persas e árabes, déspotas, democratas e islamitas, todos tem estado esses anos todos apenas esperando para a disputa Israel-Palestina ser resolvida, para que então possam se sentar e resolver suas diferenças enquanto tomam xícaras de chá”.

Alguns tentam dar força e originalidade a seus argumentos ao prefaciá-los com um disclaimer que os amarra a um ou outro lado, geralmente ao lado a que eles se opõem. De modo que uma condenação de Israel começará com as palavras “falando como um judeu”, como se isso desse força maior à opinião. Na verdade, há muito pouca razão para acreditar que dá.

Existe algo a ser dito em defesa dos dois lados

Não da forma paroquial com que Nigel Farage tolamente acredita que Vladimir Putin não é pior que Barack Obama, mas no sentido de que ambos os lados têm queixas legítimas.

Construir assentamentos em terra roubada é uma afronta à autodeterminação palestina, mas o virulento antissemitismo do Hamas é também uma ameaça a Israel. A incursão israelense em Gaza pode ser desproporcional, mas não existe país no mundo que toleraria foguetes sendo atirados em suas maiores cidades.

Não caia, também, no pressuposto ingênuo de que o antissemitismo islamita é de alguma forma um subproduto da ocupação israelense. Racismo e fanatismo jamais deveriam ser creditados com um “por quê”. Ódio a judeus é algo patológico e, como devia ser óbvio, precede em muito a existência do estado de Israel.

Um antigo slogan esquerdista costumava dizer que “fascismo significa guerra”. O que fizerem dele? Isso é tão verdade hoje quanto sempre foi. Supere a ideia de que o fascismo está restrito a homens brancos jogando suas armas para o alto e gritando “sieg heil”. Fascistas também podem ter rostos morenos.

* tradução: Daniel Lopes

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.