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Os irmãos Koch me ajudaram a pagar as fraldas da minha filha

por Gabriel de Arruda Castro (13/07/2017)

Se fossem brasileiros, os irmãos Koch estariam no PSL, compartilhando memes do Livres.

Outro dia, Kim Kataguiri deu uma boa resposta a uma jovem que o acusou de receber dinheiro dos irmãos Koch.

Não duvido que ele receba dinheiro, sendo um japonês esperto como ele, e até torço para que isso esteja acontecendo; mas, se é para falar do assunto, não seja por isso. Eu precisava mesmo confessar, antes que algum destemido investigador de esquerda checasse o meu Linkedin e descobrisse por si próprio: eu estive na folha de pagamento dos irmãos Koch.

Na verdade, participei do programa de fellowhip do Charles Koch Institute, uma mistura de formação educacional com experiência profissional, de janeiro a maio deste ano.

Os terríveis irmãos Koch (pronuncia-se Côc, não Cóc) pagam para que jovens profissionais trabalhem em instituições parceiras nas áreas de políticas públicas, comunicação ou arrecadação de fundos. Além de cumprir tempo de trabalho regular e de sessões online semanais, é preciso comparecer a um seminário de três dias no início do semestre e outro no fim.

E lá fui eu ao prédio secreto (a não ser que você procure no Google) onde funciona o Charles Koch Institute. Fica na cidade de Arlingon, Virgínia, ao lado de Washington.  É um local moderno, bonito, com Coca-cola à vontade, uns lanches dignos e pessoas simpáticas.

Durante meu tempo com os irmãos Koch, ganhei livros, pasta, agenda, óculos de sol, HD externo, caneta etc. etc.

Mas durou pouco minha expectativa de que o programa iria me iniciar nos segredos do conservadorismo americano.

Já no primeiro dia ficamos sabendo que o senhor Charles Koch defende reforma do sistema criminal (para reduzir as penas), uma política externa não-intervencionista (contra as guerras preventivas, por fronteiras abertas). Ele também defende o fim do auxílio estatal a corporações (ué!!!), a liberdade de expressão e (zzzz) tecnologia e inovação. São estes os cinco temas prioritários para o instituto.

Defesa da vida e da família? Fora da pauta (e se perguntarem aos irmãos Koch, eles darão  uma resposta muito parecida com a da esquerda radical).

Fomos apresentados ao “Framework for a free society” , um conjunto de princípios que guia o instituto. Novamente, nada muito distinguível dos valores de qualquer grande empresa.

Meus colegas (a maioria americanos, mas também uma polonesa, um alemão, um chileno, outro brasileiro –  não era o Kim Kataguiri –  e uma filha de nigerianos) estavam mais para jovens modernos do que para fascistas em formação. Não conheci uma pessoa sequer favorável à proibição da maconha.

O autor está à esquerda, de gravata

O dinheiro dos irmãos Koch me colocou para trabalhar em um think tank libertário cujo diretor-executivo aparecia para trabalhar de bermuda, com um skate debaixo do braço. O presidente da coisa é um sujeito que vai ao trabalho de bicicleta (e, eu soube depois, é gay). Eles dividiam opiniões sobre os tipos de maconha (o que agora é legal em Washington DC) e o mais moderado em termos de aborto era mais radical do que o PSOL.

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Imagino a frustração da esquerda quando descobrir que o estereótipo não bate com a realidade.

Tive a sorte de passar um pouco de tempo em organizações que representam as diferentes vertentes da “direita” americana. Experimentei, por exemplo, o conservadorismo clássico e sem rodeios da Heritage Foundation: contra o aborto, contra o casamento gay, a favor de políticas mais rígidas de imigração. Lá, sim: mesmo os estagiários, jovens engravatados vindos de todo o país, eram conservadores destemidos. Reagan é ídolo inconteste. As pessoas discutem se preferem Thomas Jefferson ou John Adams. O passeio mais divertido foi colocar flores sobre o túmulo de George Washington.

Os nova-iorquinos do Manhattan Institute, onde passei alguns meses, fazem um excelente trabalho mantendo o máximo de conservadorismo permitido em Nova York: segurança pública, livre mercado, liberdade acadêmica e tudo mais.

Ainda em Nova York, colaborei com os dândis da National Review, com sua batalha contra Trump, perdida honradamente. Não são texanos com chapéus e têm ojeriza a figuras como Alex Jones (com razão), mas fazem seu trabalho de forma brilhante na defesa de um conservadorismo intelectualmente sofisticado, na trilha de William Buckley.

Na Filadélfia, estive com os neoconservadores do Middle East Forum, majoritariamente judeus – brilhantes e abnegados – preocupados com o avanço do terrorismo e com a infiltração islâmica.

Esta é a direita americana. Charles Koch não tem lá muito a ver com ela. O homem não quer restaurar a civilização ocidental. Ele quer um mundo aberto, com pessoas e drogas circulando livremente.

Se fossem brasileiros, os irmãos Koch estariam no PSL, compartilhando memes do Livres, participando de conferências ao lado de Fábio Ostermann e brigando com os “cancervas” no Facebook.

Mas, por ignorância intencional, a esquerda trata todos como participantes da megaconspiração destinada a eleger Jair Bolsonaro presidente do mundo.

Da minha parte, devo dizer ao senhor Koch que discordo de muitas de suas pautas. Fronteiras abertas não funcionam bem nem na divisa de Alagoas com Sergipe. Liberar as drogas aumentará o número de escravos em nome de uma noção irreal de liberdade. Colocar mais bandidos na rua é um perigo danado.

Mas, caros irmãos Koch, serei sempre grato por uma razão especial: vosso dinheiro ajudou a pagar as fraldas para minha filha durante alguns meses.

Gabriel de Arruda Castro

Jornalista formado pela UnB e mestre em administração pública pela Universidade da Pensilvânia.