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Todos os papéis de Teotônio Vilela

por João Villaverde (06/07/2017)

Carlos Marchi explora a trajetória de Teotônio, do apoio ao golpe de 1964 à ala esquerda do PMDB.

“Senhor República: A vida aventurosa de Teotônio Vilela, um político honesto”, de Carlos Marchi (Record, 2017, 434 páginas)

1.

Dentro de apenas 14 meses, o Brasil escolherá o novo presidente da República, bem como 27 governadores, parlamentares federais e regionais. O sistema da Nova República, germinado no início dos anos 1980, está ruindo desde o fim de 2014 – mas, hoje, ninguém sabe se ele efetivamente terminará com as eleições do ano que vem. O atual presidente, Michel Temer, pode nem mesmo cumprir um ano de mandato, uma vez que ele assumiu oficialmente em 31 de agosto do ano passado, depois que sua cabeça de chapa, Dilma Rousseff, sofreu impeachment. Denunciado criminalmente pela Procuradoria-Geral da República, o presidente hoje governa com o único objetivo de permanecer no cargo até o fim de 2018, e para isso tem como fiel da balança o PSDB, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Temer é o presidente nacional do PMDB e fora vice-presidente da República de Dilma Rousseff, do PT, que antes de ingressar no partido de Lula fora fundadora do PDT.

Esses quatro partidos – PMDB, PT, PSDB e PDT – formaram a base fundamental da luta pela redemocratização brasileira e da superação da ditadura militar. Se alguém de 2017 viajasse no tempo, trinta ou trinta e cinco anos atrás, e exibisse um pequeno documentário do Brasil de hoje para aqueles que cerravam fileiras na luta contra a ditadura e na costura da Nova República, é capaz que fosse desacreditado. Um desses personagens provavelmente teria um mal-estar profundo: Teotônio Vilela.

O que ele diria do Brasil de hoje? Ao terminar a leitura de Senhor República, foi essa a inquietação que acometeu o resenhista. É claro que não há uma resposta. Mas o exercício de elencar hipóteses permanece válido, julgo.

Diferente de outros homens de sua geração, como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Leonel Brizola e Miguel Arraes, que pouco tinham em comum na ação política, mas compartilhavam a constante ideológica, Teotônio mudou muito. Mudou radicalmente. Era um e virou outro. Embora o jornalista Carlos Marchi, autor de Senhor República, busque, em diversos momentos, estabelecer uma reta que aproxime os vários pontos de atuação de Teotônio, é difícil ver uma linha: sua atuação está mais para um emaranhado de linhas que formam um desenho abstrato. Veja só, caro leitor, num breve resumo, o que fez Teotônio Vilela em 66 anos de vida.

Teotônio foi o rico usineiro alagoano que apoiou o golpe de 1964, filiado de primeira hora da Arena e por quinze longos anos parlamentar do partido que sustentava a ditadura militar. Mas Teotônio também foi o político que trocou a Arena pela oposição, o MDB, presidiu a comissão parlamentar de análise da Lei de Anistia e, por ela, levou deputados e senadores a celas de presos políticos mantidos pela ditadura. Teotônio foi fundador do PMDB, em 1980, e no mesmo ano participou ativamente da greve dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, servindo inclusive de negociador autorizado pelo presidente do sindicato, Luiz Inácio Lula da Silva, quando o líder do PT estava preso. Por fim, o usineiro alagoano que fora da UDN e da Arena, mas que lutara pela Anistia e pelos metalúrgicos em greve, racha o PMDB à esquerda e, ungido por comunistas, sindicalistas e por personalidades como Henfil e Betinho, é pré-candidato à Presidência da República. Morre de câncer, no fim de 1983, e seu falecimento impulsiona a campanha das Diretas-Já, que toma o país inteiro no ano seguinte.

Ainda que Brizola e Arraes tenham reduzido o ímpeto de radicalismo depois que voltaram ao Brasil com a Anistia, eles continuavam à esquerda de Ulysses, e este, à esquerda de Tancredo. Mas inegavelmente todos os quatro tinham, na luta pela redemocratização brasileira, os mesmos papéis que desempenhavam antes do golpe de 1964. Teotônio não. Ele tinha sido o boiadeiro que tomava cachaça por dias a fio em Viçosa, no interior de Alagoas, mas também fora o parlamentar que defendia o liberalismo de Adam Smith no Congresso Nacional enquanto a ditadura que ele apoiava censurava artistas e jornais, torturava e matava parlamentares, estudantes, jornalistas, sindicalistas, além de fechar as portas do país para exilados. Mas Teotônio também foi o parlamentar que comprou briga com o regime para fazer valer a Anistia para os então chamados “terroristas”, que entrou no meio do conflito entre a polícia e os metalúrgicos em greve no ABC e que era o preferido dos comunistas para a Presidência.

O livro de Carlos Marchi chega em momento turbulento de nossa história nacional. Ao longo das 399 páginas de conteúdo próprio (excetuando, portanto, o prefácio, os agradecimentos e os índices), Senhor República mostra o retrato de um homem que fez de tudo um pouco durante um outro período caótico da vida nacional.

2.

O autor não esconde seu carinho pelo biografado. Escreve, por exemplo, que o legado de Zumbi inspirou o pensamento e o comportamento de Teotônio. Compara Teotônio ao pernambucano frei Caneca, que comandara a revolução de 1817 e que morreria fuzilado pelas tropas de Dom Pedro I sete anos depois — “Tal qual frei Caneca no século XIX, Teotônio foi o reformador heterodoxo do pensamento e, principalmente, das ações liberais no Brasil do século XX (pág. 102). Mais à frente, na página 330, descreve seu biografado como portador de “virtude inata, que torna as pessoas respeitáveis pela simples presença, pelo simples olhar, antes que falem ou argumentem”. Pouco adiante, o autor diz que “não era difícil, com sua palavra densa e fácil, seduzir uma mulher” (pág. 337).

O livro, no entanto, não é laudatório. A narrativa é uma mescla entre o jornalismo – com a exposição de todos os lados, por meio do registro da ação dos personagens e de suas falas – e o exercício da psicologia, quando o autor investiga as motivações de seu biografado a partir de seus métodos, do que dizem amigos e do que o próprio autor conheceu. Funciona muito bem: a obra tem leitura agradável e é ótima a alternância entre momentos dinâmicos (os capítulos sobre a Anistia e sobre a greve dos metalúrgicos são de tirar o fôlego) e episódios lentos, quase letárgicos (como a exposição da rotina do Teotônio boiadeiro em Viçosa). Senhor República é um livro que pode ser degustado aos poucos (embora considere isso impossível, dada a ansiedade que muitas passagens dão ao leitor).

Os comentários, sutis, que Marchi adiciona ao texto tornam o livro ainda mais prazeroso. Não faltam pequenas ironias (“é claro, senão o Brasil não seria o Brasil”), críticas certeiras (como ao nome do Partido Democrático Social, que sucedeu a Arena: “Era risível que justamente o novo partido adotasse esse nome e tentasse apresentar uma legitimidade que não cabia nele”) e conversas diretas com o leitor.

Entre as conversas diretas, a preferida deste resenhista está na página 151. Marchi conta sobre o primeiro ano de Teotônio como senador, em 1967, eleito pela Arena em Alagoas. Cita seus dois únicos discursos naquele ano e menciona que ele “falava pouco, mas ainda assim falava coisas que ninguém tinha coragem de falar”, antes de registrar trecho do discurso. É impossível lermos o discurso de Teotônio e, com o conhecimento que temos hoje sobre aquele período horrendo (que ficaria ainda pior com o AI-5 baixado no fim de 1968), considerar como “corajosas” aquelas palavras ditas por um arenista. Como se tivesse lendo a cabeça do leitor, Marchi imediatamente arrematada:

Para os que não viveram esse período parece pouco, enquanto discurso crítico. Mas à época era uma crítica acima dos padrões suportados pelo regime militar (…) a ditadura militar era uma panela de pressão no fogo, contendo, em seu interior, a sociedade brasileira. Era como se a casa de uma pessoa fosse tomada por um grupo de assaltantes e eles obrigassem essa pessoa a fazer coisas que ela nunca fizera, não queria fazer e achava abjeto fazer. A partir daí os assaltantes agiam como se fossem os donos da casa, das coisas e da vida da pessoa.

Na mosca – o comentário do autor e o momento em que ele entra no livro. Como narrado a seguir (a partir da página 168, mais precisamente), Teotônio chegou a ser considerado pelo ministro Gama e Silva para uma cassação por conta de seus posicionamentos críticos ao AI-5, mas contou com a ajuda do velho amigo Mário Andreazza, militar adepto da ditadura do começo ao fim do regime, para escapar.

Outro momento precioso é a abertura do capítulo 8, “Os bolsões da ditadura”, em que Marchi escolhe com enorme precisão as palavras e diz com clareza a explosão que estava prestes a ocorrer na segunda metade de 1970. É justamente quando Teotônio começava a mudar radicalmente pela última vez, deixando a capa da Arena e o pensamento essencialmente liberal e passando a liderar um discurso inflamado de esquerda, preocupado com as flagrantes desigualdades nacionais, que impedem qualquer tipo de “liberalismo puro”. Sua radicalização é paralela à nacionalização de seu nome. É quando interfere no debate que se seguiu à desastrosa invasão da PUC-SP pelas tropas policiais do coronel Erasmo Dias. O livro, aliás, ganha outra cara justamente a partir daí: o Teotônio sonhador e de discursos passa a ser o Teotônio aguerrido, de ação, incansável, dos fins de 1977 em diante.

Mais à frente, o autor desenvolve um capítulo inteiro (o de número 11, “Reformistas e porra-loucas”) em que Teotônio quase não aparece (ele ressurge somente no final). O capítulo cai como uma luva na narrativa geral do livro, porque é nele que Marchi apresenta todo o quadro das lutas sindicais em São Bernardo do Campo e Diadema, entre 1978 e 1980, onde o político alagoano chegaria para desempenhar papel muito relevante. É ali que surge também forte a figura da amante Maria Luiza Fontenele e quando, num exercício de psicologia astuta, o autor levanta a hipótese de que o amor tardio com uma militante comunista possa ter aprofundado a mudança final de Teotônio, que terminou a vida como um radical de esquerda dentro do antigo PMDB.

3.

O trabalho de Marchi foi cuidadoso, tanto na busca de registros oficiais (as atas com os discursos parlamentares de Teotônio e trechos de reportagens do período) quanto nas entrevistas de familiares e de amigos políticos que sobreviveram ao político alagoano morto há quase 34 anos. No entanto, avalio que em alguns momentos o texto poderia ter um registro mais preciso das falas de personagens. Lemos, por exemplo, na página 56 frases como “o sociólogo Fernando Henrique Cardoso registra…” e “constata o ex-presidente”. Presumo que FHC tenha “registrado” e “constatado” ao autor do livro, mas também é possível que tenha feito isso em livros ou entrevistas. Da mesma forma, na página 132, Marchi escreve que Teotônio “apenas uma vez deu uma explicação um pouco mais prolongada” sobre o episódio do impeachment do governador alagoano Muniz Falcão, mas o autor não aponta quando foi que isso ocorreu. Também a frase de Major Luiz, que fecha a página 176, poderia vir acompanhada de um registro. Para além disso, há uma pequena imprecisão na página 189, quando surge uma primeira pessoa do singular — “cresceu-me a impressão de que Geisel não tinha quadros em torno de si” –, mas sem acompanhamento de aspas. O leitor fica com dúvida se a impressão cresceu no biografado, em algum relato, ou mesmo no autor do livro.

O livro termina de forma impactante. Marchi, corretamente, não apela para um texto de carga emocional – não é mistério para o leitor de Senhor República que Teotônio Vilela passou um ano inteiro definhando em praça pública, sendo engolido por uma metástase cruel, que o impossibilitaria de viver o fim da ditadura militar. A partir da página 341, o autor descreve de forma poderosa os três últimos anos da vida de Teotônio (1981, 82 e 83) junto com a evolução política e econômica do Brasil. É justamente quando a fase de forte crescimento econômico acaba, o regime militar perde sua base de sustentação e a linha dura passa a praticar atos de terrorismo de Estado, com plantação de bombas pelo país. Também é quando eleições diretas para governadores voltam a ser realizadas (fim de 1982) e o país volta a respirar um mínimo de democracia, na luta final contra o governo do último general-presidente, João Figueiredo.

4.

O Brasil que lutou pela democracia mudou muito. O PT, que teve entre seus fundadores Raymundo Faoro, Antonio Cândido e Sérgio Buarque de Hollanda, tem expostos os intestinos de seus 13 anos e 5 meses à frente do governo federal e das relações construídas por seus dirigentes junto ao grande capital privado. O PDT, fundado por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, é comandado a mão de ferro há mais de treze anos por Carlos Lupi, que nas últimas semanas viu deixar o partido familiares de Brizola e do ex-presidente João Goulart. O PMDB de Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e Teotônio Vilela, foi inicialmente tomado por Orestes Quércia e José Sarney, o que provocou a debandada de FHC, Mário Covas, Franco Montoro, Bresser-Pereira, Bolívar Lamounier e José Serra para o PSDB. Hoje, o PSDB tem atuação semelhante ao PMDB, e este hoje está ainda mais distante do partido original. Para fechar, uma parcela de sociedade parece desconhecer os crimes praticados por militares e civis quando se apossaram do Estado e hoje defendem políticos cuja única plataforma é o discurso de ódio.

O que sairá de 2018 pode não ser bonito, mas hoje parece difícil afundarmos mais no buraco onde estamos depois de três anos consecutivos de recessão, desemprego recorde e elevado endividamento do setor público. Há de ter esperança, afinal somos o país onde um usineiro pró-militares pôde se apaixonar por uma militante comunista clandestina.

– Nossa relação não pode dar certo. Eu sou uma comunista, vinculada ao Partido Comunista Revolucionário (PCR), e você é um usineiro liberal que foi da Arena. Para onde esse caso da gente vai?

Teotônio riu e respondeu para Maria Luiza:
– Nós vamos juntos até uma curva da estrada que está lá na frente, onde vou descer. Não se preocupe, essa curva não está longe.

João Villaverde

Jornalista, autor de Perigosas pedaladas: Os bastidores da crise que abalou o Brasil e levou ao fim o governo Dilma Rousseff. Foi pesquisador visitante na Universidade de Columbia, NY, e atualmente é mestrando em administração pública e governo na FGV-SP.