PESQUISA

Constituinte bolivariana: farsa e medo

por Gaby J. Miller (29/07/2017)

Como mobilizar eleitores para uma eleição que ninguém quer.

Faltando algumas horas para a maior eleição em anos, eis algo estranho: o governo não se importa em quem você vai votar. Contanto que você vá votar.

Após a eleição faça-você-mesmo da oposição, a meta para o chavismo provar que ainda representa “a maioria” está elevada. Mas como convencer as pessoas contra a vontade delas? As propostas dos candidatos, apresentadas três vezes por dia em cadeias nacionais de rádio e TV, estão mais para piada do que para um verdadeiro projeto constitucional.

O chavismo fez o que pôde para dar à eleição de domingo ares de grande evento político, mas deixou a desejar tanto em substância quanto em estilo. Na superfície, essa eleição será apenas mais uma rumba chavista, com música contagiante, um cachorro dançarino e o infame candidato La Máscara.

O elemento farsesco é profundo. De fato, não existe o menor sentimento de expectativa, já que todos os candidatos representam o mesmo partido. Dos 537 constituintes, talvez de 7 a 10 tomem decisões – os outros quinhentos e tantos são apenas para encher o local e erguer as mãos quando ordenados. Quais candidatos serão eleitos é algo que só tem importância para os indivíduos envolvidos.

Ainda assim, é preciso fazer as pessoas irem votar.

Mas o verdadeiro motivo para ir votar não tem nada a ver com uma musiquinha legal, e sim com o medo.

A Venezuela possui mais de dois milhões de trabalhadores do setor público, e cada um deles tem consciência de que la massa no está pa’ bollos.

Há muito já se foi o tempo da persuasão sutil e das mensagens codificadas. Agora a estratégia saia-de-casa-para-votar do chavismo consiste em ameaçar impiedosamente as pessoas.

Maduro já disse que os eleitores devem apresentar a identidade e o Carnê da Pátria na entrada de cada centro de votação, “para ver quem vota”.

“Se temos 15 mil trabalhadores [em uma instituição pública], todos os 15 mil devem votar, sem desculpa”, disse o líder do PSVU Diosdado Cabello enquanto explicava como o Carnê da Pátria permite ao governo monitorar em tempo real quem votou e quem não votou.

“Bateremos na porta de qualquer um que esteja confuso”, continuou Diosdado. “Nossa mensagem é para que se vote, para consolidar o que já conseguimos.”

Já o vice-presidente Tarek El Aissami está chantageando com a rede de distribuição de bens básicos: “Nós não deixamos vocês morrerem. Agora é sua vez de não deixar a revolução morrer”.

E isso tudo é delicadeza se comparado ao candidato e irmão do falecido presidente Chávez, Adán Chávez, que disse que “se tivermos que pegar em armas para defender o legado de Chávez e Maduro, o faremos”.

O ministro do Interior, Néstor Reverol, decidiu que as ameaçam não seriam exclusivas para eleitores chavistas, garantindo que qualquer livre associação ou manifestação que “possa afetar” a eleição está proibida, acrescentando que esse “crime” será punido com 5 a 10 anos de prisão.

A crise econômica é parte da campanha. Maduro nos garantiu que, com a Constituyente, todos os problemas econômicos serão resolvidos, e inclusive aumentou o salário mínimo semanas antes da eleição.

Outras ameaças são alarmantemente diretas:

O governador Vielma Mora deu um passo a mais e propôs que qualquer “companhia ou pessoa” que não vote não deverá participar do Dicom (Sistema de Divisas del Tipo de Cambio Complementario Flotante de Mercado). De acordo com o governador, isso seria como dar dólares a “terroristas de direita”.

É legítimo se assustar quando sabemos que ele não está sozinho nessa linha de pensamento.

As ameaças chegaram até mesmo à fronteira colombiana. Roberth Guerra, um líder em Táchira do partido social-democrata e anti-chavista Un Nuevo Tiempo, denunciou que “servidores públicos da fronteira, dependentes dos governos regional e nacional, nos disseram que as autoridades os intimidaram, dizendo que terão que assinar uma carta de pedido de demissão caso faltem à votação, além de deixarem de receber kits de bens essenciais e perderem a pensão de seus pais idosos.”

No dia 16 de julho, a oposição traçou sua linha: 7,6 milhões. O objetivo do governo é superar essa marca. Com as finanças apertadas, não será uma tarefa fácil. Intimidação é a única carta que lhe restou.

  • 233
    shares

Gaby J. Miller

Mora em Caracas. Colunista do Caracas Chronicles.