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Constituinte bolivariana: poucos votos, muita bala

por Francisco Toro (31/07/2017)

Foi mais um dia de repressão do que um dia de eleição.

Um dia de caos em escala nacional, com as fraudulentas eleições governistas para a Assembleia Nacional Constituinte ofuscadas pela forte repressão e violência contra manifestantes. Até pouco depois das 8 da noite, pelo menos 14 mortes haviam sido confirmadas – de longe o dia mais sangrento desde o início do novo ciclo de protestos quatro meses atrás.

Foi um dia de carnificina.

O Observatório Venezuelano de Conflito Social relatou várias manifestações em 18 dos 24 estados do país: foi mais um dia de repressão do que um dia de eleição.

A Procuradoria está investigando as cinco mortes abaixo, todas por arma de fogo:

Eduardo Olave, 39. Libertador, Mérida.
Angelo Méndez, 28. Libertador, Mérida.
Luisa Zambrano, 43. Barquisimeto, Lara.
Ricardo Campos, 30. Cumaná, Sucre.
Ronald Ramírez Rosales (da Guarda Nacional Bolivariana). La Grita, Táchira.

Dois outros assassinatos estão sendo investigados pelo Ministério Público, embora não tenha confirmado os nomes das vítimas, presumivelmente porque são menores de idade:

Luis Ortiz, 16. Tucapé, Táchira.
Adrián Rodríguez, 13. Capacho Viejo, Táchira.

Franco-atirador em Táriba, estado de Táchira

Os cinco assassinatos abaixo, também por arma de fogo, ainda não foram reconhecidos pela Procuradoria:

Iraldo Gutiérrez, 38. Chiguará, Mérida.
Albert Rosales, 53. Tucapé, Táchira.
Wilmer Smith Flores, 21. La Grita, Táchira.
Juan José Monjes, 42. Aguada Grande, Lara.
Julio Manrique, 22. Ureña, Táchira.

A eleição fajuta de hoje começou com nada menos que Nicolás Maduro votando bem cedo, em meio a uma pequena fanfarra, aparentemente para evitar outra ovada. As mídias sociais fizeram a festa depois que a TV estatal mostrou seu “carnê da pátria” sendo rejeitado por um smartphone (em alguns centros de votação foram montados ilegais pontos de checagem dos “carnês”, um esforço para intimidar eleitores). Em um momento fortuito de licença poética, o dispositivo informou que “a pessoa não existe” ou que “o carnê foi anulado”. O hacker venezuelano YoSoyJustin reinvidicou a responsabilidade por este feito.

Maduro é rejeitado

No começo da manhã, a Guarda Nacional ocupou a avenida Francisco Fajardo, para evitar que manifestantes se concentrassem lá. Depois, ela saiu atrás de manifestantes, atirando balas de borracha e gás lacrimogêneo. Em um acidente ainda estranho, um objeto explodiu na avenida Francisco de Miranda, incendiando várias motos da Guarda. Sete soldados ficaram feridos, e cerca de quatro motos foram destruídas.

Às 2:50 da tarde, o jornalista Víctor Amaya informou que não havia mais eleitores no maior centro de votação, o Poliedro de Caracas. Jorge Roig, ex-dirigente da Fedecámaras, explicou que, se as 100 cabines de votação instaladas no Poliedro tivessem um eleitor a cada 20 segundos, apenas 140 mil pessoas poderiam votar no local durante oito horas.

Movimentação no Poliedro, Caracas

De acordo com Luis Pedro España, respeitado acadêmico da Universidade Católica, as últimas estimativas de comparecimento giravam entre 2,5 e 2,8 milhões, brincando que “qualquer que seja o número anunciado pelo CNE [Conselho Nacional Eleitoral], será o último de sua história”.

Meio-dia, o porta-voz da Assembleia Nacional, Julio Borges, disse que o CNE já havia feito um relatório que informava que 8,5 milhões de pessoas votaram, mas que o verdadeiro número estaria mais próximo de 7% do registro eleitoral: cerca de 3 milhões de eleitores.

“É raro que um país tenha tanta evidência clara de fraude eleitoral”, disse Borges. “Com a ANC, eles estão acelerando a própria queda, cavando a própria cova”.

De acordo com o jornalista Javier Ignacio Mayorca, “nem o exército votou”. Não obstante, o governista Héctor Rodríguez alegou que hoje marcaria “uma das maiores participações na história eleitoral da Venezuela”.

Ao invés de incitar as pessoas a votarem, o Partido Socialista Unido da Venezuela ficou apenas martelando como o “carnê da pátria” permitiria que eles soubessem quem votou e quem não votou. Eles preferiram a coerção, apesar (ou por causa) do nível elevado de abstenções.

Jorge Rodríguez, prefeito do município de Libertador pelo PSVU, bateu seu próprio recorde de mentira patética. Depois de dizer que “um cara votou 17 vezes” no referendo organizado pela oposição em 16 de julho, hoje ele disse que eleitores da zona leste de Caracas foram de bicicleta até o Poliedro para votar. Rodríguez desconsiderou e gargalhou quando perguntado sobre as mortes que haviam ocorrido ao longo do dia, apesar delas terem sido amplamente cobertas pela mídia e confirmadas pela Procuradoria.

Doentio.

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Francisco Toro

Jornalista venezuelano, escreve no Washington Post e é editor-executivo do site Caracas Chronicles. Mora no Canadá.