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Leitura para escritores

por Amálgama (09/08/2008)

por Jefferson Maleski * – O mercado editorial brasileiro parece ter encontrado um novo filão: os livros para escritores iniciantes. Até pouco tempo atrás, aquele que desejasse se aventurar no mundo das letras não encontraria bom material escrito sobre como ser um escritor além dos insuficientes manuais de gramática ou de redação escolar. Se achasse […]

por Jefferson Maleski * – O mercado editorial brasileiro parece ter encontrado um novo filão: os livros para escritores iniciantes. Até pouco tempo atrás, aquele que desejasse se aventurar no mundo das letras não encontraria bom material escrito sobre como ser um escritor além dos insuficientes manuais de gramática ou de redação escolar.

Se achasse algo mais útil seria ou em outra língua – inglês e francês, principalmente – ou de escritores sem muita experiência em ensinar. O livro nacional que mais se aproxima do que já existe lá fora há tempos, porém bastante limitado em relação aos concorrentes estrangeiros, é Vencendo o desafio de escrever um romance (Summus Editorial, 2007) de Ryoki Inoue. Limitado porque mostra a visão de apenas um único escritor enquanto os outros reúnem a de diversos.

Este tipo de leitura não visa atingir uma grande quantidade de leitores, pois em um país em que são poucos os que gostam de ler, menos são os que procuram melhorar a escrita ou fazer dela profissão. De dois professores dos cursos de graduação e pós-graduação em literatura dos Estados Unidos saíram os últimos lançamentos na área aqui no Brasil: Para ler como um escritor (Jorge Zahar Editor, 2008), de Francine Prose, e Oficina de escritores (WMF Martins Fontes, 2008), de Stephen Koch.

Os dois livros são interessantes, apesar de usarem abordagens diferentes. Enquanto Koch reúne entrevistas de escritores falando especificamente sobre a profissão, os problemas que enfrentaram ao escrever e as soluções alcançadas, Prose ensina como a leitura atenta (close reading) pode ser útil para captar detalhes e maravilhas nas obras clássicas e assim aprender a escrever. Resumindo: enquanto um entrevista o escritor, o outro analisa a obra. E como não poderia deixar de ser, a maioria dos autores citados são norte-americanos.

Stephen Kosh irá surpreender a muitos pela quantidade enorme de material organizado e garimpado da The Paris Review Interview, The New York Review of Books e de diversos manuais sobre a arte de escrever. Dentre outros menos conhecidos, aparecem dicas de Aristóteles, Cícero, Michael Crichton, Dostoiévski, Stephen King, Hemingway, Toni Morrison, Dickens, Capote, Virgínia Woolf, Faulkner, Nabokov, Fitzgerald, Flaubert, Gabriel García Marquez, Henry James, Tomas Mann, Herman Melville, Kurt Vonnegut e Philip Roth. O livro consegue fluir como uma conversa informal onde alguém mais experiente aconselha o seu pupilo e enxerga o ponto exato dos problemas mais comuns nos escritores iniciantes.

Você tem uma boa idéia para um conto, poesia ou romance, mas não consegue iniciar a estrutura, o enredo ou as personagens? Não faz idéia de qual seja o seu estilo de escrita? Tem problemas em trabalhar nas versões do texto, sem saber exatamente o que e como revisar ou finalizar? Percebe que a biografia que está escrevendo está sendo utilizada pelos que a leram como sonífero? Se a resposta a pelo menos uma destas perguntas for sim, então o livro Oficina de escritores será útil para você.

No final, tanto Prose quanto Kosh apresentam indicações de leituras, mas enquanto Prose lista os clássicos de leitura (com indicações de Italo Moriconi na versão brasileira das pérolas nacionais), Koch lista os livros específicos sobre a escrita, alguns clássicos, outros defasados, mas sempre usados, pois contêm lições importantes a ensinar.

Pode-se afirmar que – mesmo sendo um livro estrangeiro que cita autores estrangeiros – não existe nada parecido com ele hoje por aqui. As noções claras apresentadas por quem é profissional em escrita (tanto os entrevistados quanto o autor), se não ajudarem completamente aos escritores novatos, pelo menos darão a motivação necessária para encarar as dificuldades como desafios.

* Jefferson Maleski é acadêmico de Direito e Filosofia e candidato a escritor. É paranaense, mas mora há tanto tempo no interior de Goiás que já fala “chega dói”, “corguim” e “num dô conta” naturalmente. Blog: jefferson.blog.br.

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