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Lembranças revisitadas

por Amálgama (25/08/2008)

por Paulo Vilmar * – Todas as civilizações têm seus rituais de passagem para a idade adulta. Creio que esta passagem vem acontecendo cada vez mais tarde, hoje, em nossa cultura. Em todo caso, lembro-me que perto dos dezoito anos era, para minha geração, a hora de buscar um, para usar palavreado da época, “lugar ao sol”. Tudo […]

por Paulo Vilmar * – Todas as civilizações têm seus rituais de passagem para a idade adulta. Creio que esta passagem vem acontecendo cada vez mais tarde, hoje, em nossa cultura. Em todo caso, lembro-me que perto dos dezoito anos era, para minha geração, a hora de buscar um, para usar palavreado da época, “lugar ao sol”.

Tudo bem, mas dezesseis anos era (ainda é) uma idade complicada, principalmente quando você está passando por ela. As meninas que eu achava tudo a ver não queriam saber de nada comigo, nem olhavam para meu skate (que era uma absoluta novidade), nem para as manobras radicais que eu tentava extrair dele (descer a rua do Comércio, sem cair). Por isso, quando Elaine riu aquele seu riso que deixava vinco nas bochechas douradas de seus dezessete anos, eu não acreditei que ela estava aceitando meu convite para irmos à “Boite”(era assim que chamávamos danceteria), única da cidade(zinha), naquela noite!

Nunca fui um cara bonito, mas, sem nenhuma modéstia (a idade já me permite), depois de conversarem um pouco comigo as garotas se deliciavam com minhas histórias, fazendo com que eu me tornasse bastante popular entre elas. Algumas (poucas, é verdade) acabavam se tornando minhas namoradas por dez ou quinze dias, algo parecido com o ficar de hoje. Outras (a grande maioria) acabavam minhas amigas, e creio ter sido o primeiro garoto de dezesseis anos a acreditar piamente na amizade de homens e mulheres. Verdade, eu tinha muitas amigas (mais que amigos), o que acabava me valendo, muitas vezes, por parte dos meninos, o apelido incômodo de “maricas” (“veado” era palavra forte demais e “gay” era apenas alegre, em inglês, não sei se ainda é). Não me importava, porque adorava (se bem que adorar é bem coisa de gay) estar entre as meninas e seu universo totalmente diferente!

Aos sábados à tarde eu não jogava bola, sentava nos bancos da praça, fumava oliúdi, brincava de skate, tomava umas cervejas com minhas amigas. Claro que havia outros meninos, mas éramos a imensa minoria – e um dos meninos era definitivamente “maricas”.

E conversávamos. E ríamos. E nos descobríamos seres sexuais assustados, dentro de um silêncio de informações que nos era imposto, não só pela ditadura (que solenemente ignorávamos) como por nossos pais, que moravam num outro reino, muito, muito distante.

Pois bem, voltando ao “Bos Taurus enregelado”, naquele sábado Elaine aceitou meu convite e isso significava uma noite bem mais confortante do que quando ia somente a genérica “turma”. É claro que iríamos com a “turma”, mas ao mesmo tempo iríamos junto, se é que você me entende!

Voltei para casa mais cedo e fiquei horas no meu quarto ouvindo Led Zepelim e pensando na Elaine! Elaine era atleta no colégio, saltava em distância e corria cem metros, tinha umas pernas lindas, alguns achavam musculosas, coisa não muito comum, mas eu era fissurado naquelas coxas duras e torneadas. Às vinte e três horas tocaram a campainha de minhas casa e eu desci, todo perfumado e vestindo uma bela calça “boca de sino”. A turma me esperava e, antes de chegar ao portão, ainda ouvi minha mãe dizer para não voltar muito tarde e não beber muito (exatamente as duas coisas que eu não iria respeitar de forma alguma). Depois de algum tempo caminhando, peguei a mão da Elaine e fomos quietos, com as mãos suadas, até a “Boite Las Vegas”. Na entrada já pedi um Gin Fizz, bebida que eu nem gostava muito, mas que ficava com uma cor linda na luz negra do interior da Boite.

Em todo o país os estudantes e jovens se entregavam à Daviniana luta contra a ditadura, as universidades discutiam o assassinato da democracia, políticos eram exilados, pessoas desapareciam da noite para o dia, mas, para nós, no sul do sul, pertinho da fronteira com a Argentina, somente havia a paz e a tranqüilidade das noites de sábado, dos nossos porres de bebida e de beijos. Não esqueço o sorriso da Elaine, seus beijos, seus pequenos seios, que de alguma forma conseguiam ficar em minhas mãos enquanto nos beijávamos e dançávamos.

Se algum momento da adolescência (inocência) fosse para ficar eternizado, certamente seria aquele, pelo que representou à época, pelo que significou logo depois e até hoje, seria a escolha exata. Depois disso o mundo nunca mais seria visto por nós (eu, minha turma e principalmente a Elaine) com os olhos e a doçura da inconseqüência juvenil. Nunca mais os anjos voaram pelos céus protegendo-nos dos perigos e dos porres da madrugada.

Cinco e trinta da matina e o Dirceu, proprietário, DJ e Leão de chácara Las Vegas, decreta finda a noite. As luzes acenderam num repente e nossos olhos foram acompanhando nossas mãos recompondo roupas amassadas, nossas bocas foram procurando últimos beijos, os braços últimos abraços…
Elaine estava com frio, tirei o paletó e a encobri, repetindo os mocinhos dos filmes e os galãs das fotonovelas. Sei que fomos brincando e sorrindo e gritando como sempre fazíamos, mas daquele dia específico não consigo lembrar direito a volta, sei apenas que a primeira a ser entregue era exatamente a Elaine, pois morava mais longe, depois voltávamos trazendo as que moravam mais perto, por fim ficávamos eu, o Carlinhos e o Zeca conversando, sentados nos bancos da praça.

Naquela noite foi diferente. Ao deixarmos a Elaine, quando ela abriu a porta de casa, ouvimos o mais alto, o mais longo e o mais triste grito que nunca havíamos ouvido. Corremos até a porta da casa e nos deparamos com o pai dela, caído no sofá, um tiro na testa e uma cartolina no colo, onde estava escrito CCC, que descobrimos, depois, significava Comando de Caça aos Comunistas.

Naquela madrugada a ditadura apresentou-se de forma inequívoca e entrou em nossas vidas, como sempre entram as ditaduras, metendo o pé na porta. As madrugadas deixaram de ter estrelas, para comporem-se de mil olhares, que nos seguiam, onde estivéssemos. Depois daquela noite, tenho certeza, nunca mais fomos jovens…

 
* Paulo Vilmar é advogado e mora em Santa Maria-RS. Blog: http://caldodetipos.blogspot.com/

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