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Marginais de extrema-direita

por Amálgama (08/08/2008)

por Daniel de Souza * – Sou um ficcionista e, graças a Deus, se é que ele existe e onde quer que ele esteja, isto me permite ser um tanto contraditório e caótico na elaboração dos meus pensamentos. Não sei se já disse (claro que não disse, é a primeira vez que escrevo aqui), mas […]

Knut Hamsun, escritor norueguês partidário do nazismopor Daniel de Souza * – Sou um ficcionista e, graças a Deus, se é que ele existe e onde quer que ele esteja, isto me permite ser um tanto contraditório e caótico na elaboração dos meus pensamentos. Não sei se já disse (claro que não disse, é a primeira vez que escrevo aqui), mas só leio autores mortos, com exceção do Sabato, que também já está com o pé na cova. É que sou cristão e detesto cultivar a inveja. Assim, se for pra ler um texto bom de alguém, que pelo menos o filho da mãe esteja morto e enterrado, ou, no mínimo, broxa como o bom e velho Sabato deve estar.

Por causa desse empecilho, o problema todo da inveja, desconheço o que quer que estejam fazendo atualmente no Brasil, ou no mundo. Ouvi falar da existência de uma certa Geração 90. Cheguei a ver algumas fotos deles no site da Cronópios, onde minha mulher, que é uma escritora muito mais talentosa que eu, publicou um conto pouco tempo atrás. Pela foto, já disse que não conheço e nem quero conhecer a escrita dos caras, fiquei com a impressão de que parecem marginais muito bem comportados. Vi os cabelos grandes e a barba do Marcelo Freire, vi o brinquinho do Nelson de Oliveira e vi o Marcelino Mirissola, que dizem ser polêmico e que deve ser mesmo, porque é a cara do meu dentista. E o meu dentista é um pulha que quase me mata de dor toda semana. Quer polêmica maior que um dente arrancado sem anestesia?

Mas já disse que sou contraditório, caótico e tenho que confessar que nem sei porque estou falando desses caras aqui. Eu quero mesmo é falar da Marginália. Não só dos bandidos como François Villon, ou Jean Genet, mas de todos aqueles que sempre foram deixados de lado enquanto artistas, por causa de suas posições pessoais.

Desculpem… Vou ter de pedir licença pra ser contraditório mais uma vez. É que me comprometi a tratar de todos aqueles que foram deixados de lado e… blá blá blá… está escrito aí em cima. Mas isso daria trabalho para um baita livro e eu não tenho espaço aqui, tempo acolá e nem disposição para pesquisar e escrever sobre esse assunto e nem sobre o que quer que seja, além das trapalhadas de dentro da minha própria cabeça torta. Qualquer pesquisa, mesmo que seja no Google, me deixa cansado.

Então vamos lá, vou falar um pouco sobre apenas dois caras, que são dois puta escritores, mas que sempre foram jogados pra escanteio por causa de suas posições políticas. Esses caras são Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) e Knut Hamsun (1859-1952). Ambos eram nazistas e a palavra por si só já se explica… Hitler… bigodinhos… judeus… e essa coisa antiga bem sabida de todos. Nem um dos dois era santo. Não existem santos nazistas. Mas ambos eram escritores fantásticos. Vamos começar falando com Céline e depois passaremos a Hamsun.

Um escritor famoso, não me lembro agora quem, disse que, na França (e onde mais?), o Proust dele era Céline. O meu também é. Tanto Proust quanto Céline são escritores que se baseiam na memória e procuram por meio dela reconstruir um mundo morto. Já li e reli um bom número de livros do Céline, mas nunca consegui passar da página 84 de Du cote de chez Swann. E acho que foi até muito. O meu problema é que, quando eu era adolescente, disseram-me que aquilo era cultura e eu acreditei. Esforcei-me muito, mas acabei não passando mesmo da página 84. Senti-me um derrotado e um inculto. Não que a leitura fosse difícil, pelo contrário, a coisa era até fácil de ler, mas eu não tinha saco para aquela frescura toda. “Aí! o filhinho queria um beijinho da mamãe, não podia dormir sem o beijinho da mamãe. E aí tinha a Madeleine e o chá que o fazia lembrar e isso e aquilo.” Haja saco! Detesto chá. Detesto bolachinha. Sou um cara do Itaim Paulista, no extremo leste de São Paulo. De onde eu nasci e moro, para chegar onde Judas perdeu as botas, eu tinha e tenho que andar meia hora de jumento, pegar um ônibus e dois metrôs. Para qualquer lugar que se vá daqui, tem-se de pegar, pelo menos, um ônibus e dois metrôs.

Eu não via verdade na infância do Proust. Quando era pequeno, tinha medo de ir pra escola. A vida aqui na periferia era e é um inferno. Todo dia era uma briga, os meninos não deixavam uns aos outros estudarem em paz. Havia sempre um quebra-pau, uma embolação na porrada. Havia sempre alguém querendo te pegar na saída e, se você corresse, aí é que nunca mais teria paz mesmo. O negócio era enfrentar, mesmo que fosse pra tomar uma surra. Imaginem o pequeno protagonista proustiano (desculpem a aliteração) numa situação dessas!

Nunca entendi Proust. Ele também nunca me entenderia. Cada um com seus problemas. Ele com sua França, sua aristocracia decadente e sua corja de intelectuais puxa-sacos. Eu com o meu Céline, meu punk rock e meu futebol. Não digo que Proust não seja bom, pode até ser, mas Céline é diferente. Tudo o que em Proust é meio-tom, harmonia, sutileza, bom gosto, novela das oito, em Céline é xingamento, palavrão, neurose, gíria, grito. Tem mais a ver comigo. Livro é assim, não é? Cada um gosta do que bem entende, do que tem mais a ver consigo, do tipo de estética que lhe vai bem ao paladar. O cara, Céline, era um filho da puta, mas e daí? O mundo está mesmo cheio de filhos da puta e quantos deles escrevem livros como Voyage au bout de la nuit? Diz aí.

O que me deixa irritado, é essa historia de cânone. Quem foi que disse que todo mundo precisa eleger os mesmos livros? Quem foi que disse que todo mundo deve crer no mesmo Deus? Quem foi que disse que todo homem deve gostar de boceta, e toda mulher gostar de rola? Cada um que goste do que bem entender. A academia, as universidades em geral, têm, todas elas, um discurso muito liberal e tudo, mas na verdade o que mais praticam é a arbitrariedade.

Knut Hamsun. Norueguês. Era bem velhinho quando Hitler e seus malas todos chegaram. Acho que ele não entendeu a coisa muito bem. Devia estar caducando e acabou confundindo Cristo com Hitler, ou vice-versa. Tem gente que sofre dessas alucinações malucas. Os artistas principalmente são cheios dessas. Antes de tais presepadas, Knut já tinha ganhado o prêmio Nobel e essa coisa toda. Foi reconhecido em vida. Contudo, depois dessa cagada aí, jogaram o cara para escanteio. Você que está lendo este texto, já tinha ouvido falar dele? Não? Bom, então vai correndo a um sebo buscar o livro Fome. É excelente, mas é muito difícil de achar. Por que será, hein?

* Daniel de Souza é formado pela UNESP e participou do curso de mestrado em Teoria Literária da USP. É professor de Literatura e Língua Portuguesa e Espanhola do Colégio Objetivo e da Rede Pública Estadual. Acaba de lançar seu primeiro romance, É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança, pela Editora Os Viralata. Blogue: pianistaboxeador21.blogspot.com.

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