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Notas sobre o maior evento literário do país

por Amálgama (19/08/2008)

Iniciada no último dia 14, a vigésima edição da Bienal do Livro de São Paulo prossegue até o dia 24. Esse que é o segundo maior evento do mercado editorial do planeta, tem este ano mais de 200 mil livros dispostos em 350 estandes. Com milhares de lançamentos programados, selecionamos (meio ao acaso, já que […]

Bienal do Livro 2008 [foto: Ayrton Vignola/Abril.com]Iniciada no último dia 14, a vigésima edição da Bienal do Livro de São Paulo prossegue até o dia 24. Esse que é o segundo maior evento do mercado editorial do planeta, tem este ano mais de 200 mil livros dispostos em 350 estandes. Com milhares de lançamentos programados, selecionamos (meio ao acaso, já que é impossível analisar tudo) cinco que podem despertar bastante interesse, para o bem ou para o mal. Ao fim, alguns parágrafos menos festivos.

LIVROS
– A maior atração, sem dúvida, será (já está sendo) o Livro para todos, idealizado pela agência de propaganda DM9DDB. A obra foi iniciada com um capítulo de Moacyr Scliar, e os 17 restantes foram escritos por 173 pessoas diferentes. Sempre pela internet. Agora em versão impressa, patrocinada pela Imprensa Oficial de SP, o Livro será lançado em várias sessões de autógrafo durante toda a Bienal.

– Aproveitando que Portugal será um dos países em destaque na Bienal (ver tópico seguinte), a editora Planeta guarda o último dia do evento para dar luz a O último Távora, do historiador português José Norton, que conta como o poder imperial lançou mão de métodos como o ferro com brasa e a trituração de ossos para punir os sentenciados por “crime político” na colônia brasileira.

Marco Antonio Villa [foto: José Andes/Diário do Nordeste] – Lançado já no início do evento, 1932: Imagens de uma revolução, do historiador Marco Antonio Villa, aborda a revolta anti-Vargas que ocorreu na própria São Paulo. Contrapondo-se a uma visão que põe o movimento de 32 como reacionário, Villa vai por outro caminho e mostra que seus líderes defendiam políticas como o voto secreto e o voto feminino, pontos então ainda não assimilados pela burguesia nacional. Segundo matéria do Diário do Nordeste sobre o livro, “Em alguns artigos publicados em jornais paulistas, Villa vem criticando programas como o bolsa família, do governo Lula – um governo tão populista quanto o de Vargas, do primeiro período. ‘Só mudando essa elite, muda-se o Brasil’, afirmou. A elite nordestina critica São Paulo (citou nominalmente o deputado federal Ciro Gomes), mas paradoxalmente se alia ao Estado. Principalmente, ao governo federal – seja ele de que partido for.” Ninguém é obrigado a concordar com o autor, mas seu livro demanda leitura atenta de todos que se interessam pelo passado (e pelo presente).

– Com já era mais do que esperado, há nada menos que uma chuva de obras sobre o Japão, neste ano de 2008 em que se comemora o centenário da imigração nipônica. Os livros vão desde a gastronomia – com Moderna cozinha japonesa, vários autores – até auto-ajuda disfarçada de ciência política – A ética budista e o espírito econômico do Japão, de Ricardo Mário Gonçalves.

– E Chico Anysio, humorista de nascença, lançou na sexta (15) o seu livro… policial. Chama-se 3 casos de polícia. Segundo contou em entrevista ao site da editora Abril, a “geladeira” que a Globo lhe dá deixa tempo de sobra para escrever, razão pela qual já tem mais 12 (doze!) livros prontos para ganhar o mundo.

 
PAÍSES
O Japão está sendo homenageado por conta do já citado centenário da imigração. A Espanha, por conta de seu papel na organização do recente Congresso Ibero-Americano de Editores.

Portugal é outro. Segundo os organizadores, “pelo seu envolvimento essencial na história do livro no Brasil”, do que alguém pode concluir que eles aprovam a história do livro no Brasil. Como é sabido, Portugal, com a sua Igreja, foi o maior responsável pelo atraso na implementação de uma indústria do livro, por mais rudimentar que fosse, no Brasil; com sua truculência, conseguiu superar até a Espanha, que também não deu vida fácil a ninguém nas áreas americanas que ocupou.

Eles (os organizadores) apontam a chegada da família real como um marco da nossa história cultural. Sem dúvida. Vinda ao país por livre e espontânea pressão (o outro nome de Napoleão), fundaram, com a parte do acervo da Real Biblioteca que conseguiram salvar, a Biblioteca Nacional. Se a corte não tivesse sido obrigada a vir para o Brasil e ainda assim tivesse fundado a Biblioteca, aí sim estaria provada sua boa-vontade e justificada sua homenagem na Bienal do Livro de São Paulo no ano na graça de 2008. Mas os organizadores pensaram diferente, e têm todo o direito; a liberdade de pensamento, como se sabe, é uma bênção.

 
DA HISTÓRIA DO LIVRO NO BRASIL
E foi preciso esperar chegar o oitavo ano do novo milênio para que um sebo marcasse presença na Bienal! Nossa indústria do livro, com a chancela de veículos de comunicação e de intelectuais, tem um histórico de esforços sobre-humanos para impedir a massificação do público leitor. Isso pode até vir a acontecer um dia, ela parece dizer, mas não será por nossa vontade; não será por edições mais baratas. Há as honrosas exceções de sempre, como a L&PM e, mais recente e ainda muito timidamente, Record e Companhia das Letras (vamos deixar de lado a enorme fraude que é a Martin Claret, com suas traduções plagiadas).

Editoras do mundo anglófono, por outro lado, têm o estranho hábito de publicar não apenas para um clubinho de pretensamente iluminados. É o caso da britânica Penguin, que não teme que as massas usufruam do patrimônio que é a literatura, e vende livro a preço de banana.

Em nosso cenário lastimável, os sebos são a tábua de salvação. O da Bienal é o Sebo do Messias, o mais tradicional da cidade de São Paulo, fundado em 1970. “O Sebo do Messias é uma livraria popular”, explicou ao Globo o proprietário, Messias Coelho. “É a mais barateira de São Paulo e a que tem maior rotatividade. Todos os dias há novidades nas prateleiras. Nosso interesse é não deixar livros na estante. Tenho que vender para ter espaço para novidades.” Se for à Bienal, não deixe de passar no Messias.

por Daniel Lopes

Amálgama

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