PESQUISA

Olmert: o homem oco do tempo oco

por Amálgama (03/08/2008)

por Uri Avnery * – Ouvimos o discurso de renúncia de Ehud Olmert quando voltávamos de uma manifestação. Estivéramos num ato de protesto pela morte de Ahmad Moussa, de 10 anos, assassinado durante outro ato junto ao Muro de Separação na vila de Nailin – o muro que roubou da vila quase toda a sua terra, […]

por Uri Avnery * – Ouvimos o discurso de renúncia de Ehud Olmert quando voltávamos de uma manifestação. Estivéramos num ato de protesto pela morte de Ahmad Moussa, de 10 anos, assassinado durante outro ato junto ao Muro de Separação na vila de Nailin – o muro que roubou da vila quase toda a sua terra, ocupou-a e acrescentou-a à colônia mais próxima. Um soldado fez mira e atirou no menino, à queima-roupa.

Os manifestantes reuniram-se sob as janelas do apartamento do ministro da Defesa, nas luxuosas Torres Akirov, em Telavive, e gritavam: “Ehud Barak, ministro da Defesa, / quantas crianças você já assassinou?” Estávamos voltando, enquanto Olmert discursava sobre seus extenuantes esforços para obter a paz, e prometeu perseverar até o último dia de seu mandato. Os dois eventos – a manifestação e o discurso – estão ligados, inseparáveis. Juntos, eles oferecem o retrato acurado de uma era: discursos no ar sobre a paz; e atrocidades no chão, pelas ruas.

Não me sinto disposto a fazer coro com os tantos que se atiram hoje sobre o cadáver político de Olmert e o esfrangalham. Não é imagem que me seduza. Já vi acontecer várias vezes em minha vida, e todas as vezes a imagem desgostou-me. O fenômeno não acontece só em Israel. Aconteceu muitas vezes na história e na literatura, em muitos lugares: “Ascensão e Queda de…” é uma história velha.

As gentes rastejam no pó, aos pés dos seus heróis. Os ambiciosos, os cobiçosos, os intresseiros pululam à volta deles. Poetas de corte e bobos-da-corte cantam seus feitos, e os arautos modernos – gente da mídia – exaltam-lhes as virtudes. E então, um dia, o herói desaba de seu pedestal; e todos que o adulavam ontem voltam-se hoje contra ele sem trégua e sem vergonha.

Assim fez a gang que idolatrou Moshe Dayan depois da Guerra dos Seis Dias e, depois da Guerra do Yom-Kippur, reduziu sua estátua a cacos. O mesmo fez a gang que chutou David Ben-Gurion, furiosamente, perversamente, depois de anos de ininterrupta bajulação. E tripudiaram sobre Golda Meir, depois de a terem seguido e obedecido cegamente.

Lutei furiosamente contra estes três, quanto estavam no auge do poder. Mas a gang política que se atirou aos despojos dos três quando caíram em desgraça pareceu-me também desprezível. Agora, está acontecendo outra vez.

Jamais fui seduzido pelos encantos de Ehud Olmert. Acompanhei sua carreira desde que surgiu em cena até o ato final, semana passada, de renúncia. Jamais vi motivo algum para admirá-lo. Mas não reconheço qualquer direito de criticá-lo, a nenhum dos que, até ontem, cobriam-no de adulação e o punham nas nuvens.  O direito de criticar só beneficia os que o combateram desde o início, ao longo dos anos, sempre.

Ehud Olmert é totalmente um político. E nada além disto. Não é estadista. Não é líder. Não é sequer um homem de posições, de visão. É político, especialista em política. É inteligente. Fala suave e convincentemente. Vive cercado de amigos. É um político que visa ao poder, para quem o poder é o único objetivo, não um meio para chegar a algum objetivo. 

Vi-o pela primeira vez há quase 40 anos. Era então assistente de Shmuel Tamir, no sentido mais concreto da palavra: assistia-o, carregando as malas.

Antes disto, aconteceu algo que marcaria toda a carreira deste homem muito ambicioso. Tamir, então jovem membro do Knesset, do partido Herut (hoje, Likud), achou que tinha chances de derrubar Menachem Begin e assumir a liderança do partido. Tentou derrotá-lo durante a convenção do partido e houve um momento em que pareceu ter conseguido. Begin, então com 53 anos, parecia já fora de combate, depois de seis sucessivas derrotas eleitorais. Olmert, então com 21 anos, pulou na carroça dos rebeldes e fez um discurso emocional, de paixão, contra o líder legendário.

Mas calculou mal o pulo. Begin pôs-se a trabalhar e arrasou o movimento de oposição a ele. Todos os rebeldes foram expulsos do partido, em desgraça. Olmert permaneceu no pequeno grupo de Tamir, que se auto-apresentava como partido moderado, bem de acordo com o clima que então havia em Israel, de buscar a paz; e zombava do furor nacionalista do Herut (“As duas margens do Jordão nos pertencem”).

Até que a Guerra dos Seis Dias mudou tudo, em Israel; o tempo virou e Tamir cunhou o slogan “Os territórios libertados não serão devolvidos!” Num piscar de olhos, Olmert, “o moderado”, converteu-se me Olmert, “o extremista”.

O problema foi que, no grupo, muito pequeno, havia muito cacique e pouco índio. Não havia espaço para progredir. Em pouco tempo, Olmert arquitetou uma intriga que o pôs no comando de uma subfacção, ainda menor. Mais tarde, conseguiu dividir também a subfacção e expulsou o antigo líder, Eliezer Shostak. O procedimento “político” foi farsa: Olmert fugiu com o carimbo da subfacção.

Depois das eleições de 1973, Olmert voltou ao Likud e foi o candidato n. 24 na lista eleitoral partidária. Antes, não perdera tempo: formou-se em Direito e enriqueceu, valendo-se de suas conexões no Parlamento e nos corredores do poder, em benefício de seus clientes. Foi quando aperfeiçoou o método do tráfico de influências, acionando as conexões entre poder e dinheiro – método que praticou sempre desde então; e que o levou à queda, agora.

No Parlamento, o jovem deputado logo tratou de achar um meio de chamar a atenção. Naquela época, a mídia acabava de inventar o “crime organizado””, muito antes de que o crime estivesse realmente organizado. (À época, dizia-se: “Pois se nada é organizado, em Israel… Como pode ter surgido um crime assim, tão organizado?”). Olmert farejou logo o cavalo encilhado que passava à sua frente. Pôs-se a discursar. Sacudia relatórios à moda de Joe McCarthy. Apresentou-se como herói contra todos os criminosos e conseguiu hectares de publicidade. Foi só espetáculo: até a polícia dizia que Olmert em nada contribuíra na luta contra o crime. Mas é um bom exemplo do que mais tarde viraria prática habitual no jornalismo político, e que os norte-americanos chamam de “spin”.

EM 1977, Menachem Begin subiu ao poder. Não tinha, é claro, nenhuma intenção de promover a carreira do homem que, 11 anos antes, tentara apunhalá-lo pelas costas. Dentre outros poderes, Begin tinha boa memória. Quando Olmert entendeu que sua carreira no Parlamento estava bloqueada, decidiu, em 1993, tentar um ouro Olímpico: apresentou-se como candidato à prefeitura de Jerusalém.

O prefeito Teddy Kollek era popular, mas velho e cansado. Olmert venceu. Hoje, a opinião unânime é de que foi mau prefeito. A cidade entrou em processo de deterioração, a pobreza aumentou, os jovens partiam em busca de outros locais para trabalhar, e as áreas ocupadas por árabes foram criminosamente abandonadas. Em 1996, obrigou o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu a abrir um túnel que ligou o Muro Oriental e o bairro muçulmano, o que provocou uma conflagração que matou 17 soldados israelenses e quase 100 palestinos. Jamais manifestou qualquer remorso.

Também muito trabalhou para criar a colônia Har Homa, entre Jerusalém e Belém, que é motivo de infindável atrito com a comunidade palestina. Todos os recentes ataques em Jerusalém foram atos de jovens criados nos bairros árabes próximos de Har Homa. Olmert apresentou-se como o judaizador de Jerusalém e impávido soldado nacionalista.

Mas quando concorreu ao Parlamento, em 1999, foi facilmente derrotado por Ariel Sharon. Ficou em 32º lugar na lista eleitoral do Likud (que obteve 38 cadeiras no Parlamento). Sua resposta racional foi pular no vagão de Sharon, convencê-lo a separar-se do Likud e criar um novo partido, o Kadima.

Deu certo – o que comprova o seu bom faro político. Abaixo de Sharon, Olmert passou a ser o n. 2 de fato do novo partido; e “Deputy Prime Minister” (posto que lhe foi dado como prêmio de consolação, depois de Sharon ter-lhe negado o ministério das Finanças e de Olmert ter de contentar-se com o ministério de Indústria e Comércio, muito menos importante). No primeiro momento, foi pouco. Mas quando Sharon sofreu um derrame, Olmert rapidamente abiscoitou seu lugar. A longa e tortuosa estrada levara-o afinal ao topo.

Como sucessor de Sharon, Olmert foi seu oposto em praticamente todos os aspectos. Sharon foi político canhestro e péssimo orador, mas foi líder determinado e tinha visão política clara. Tinha um objetivo e o perseguia aplicadamente. Olmert é só político, de corpo e alma. É visceralmente oportunista e bom orador; não tem carisma; nem tem visão. Só teve a oferecer a eterna repetição de seu mantra rotineiro sobre um Estado democrático e judeu.

Depois de assumir o poder graças à doença de Sharon, Olmert tentou, primeiro, parecer que continuaria a mesma trilha. Sharon queria fazer de Israel um Estado forte e compacto, mediante a anexação dos blocos das colônias, deixando os enclaves árabes para um Estado palestino fraco. Para isto, levou adiante a “separação” de Gaza. Olmert prometeu fazer o mesmo na Cisjordânia, mas imediatamente mudou de idéia. No cargo, não fez mais do que inventar esquemas grandiosos, em ritmo frenético, mediante os quais só fez oferecer combustível para sua máquina “midiática”.

A incompetência de Olmert como líder e comandante logo ficou evidente. A Segunda Guerra do Líbano foi um completo e escandaloso desastre. A “mídia”, que o aplaudira entusiasticamente no início da guerra, passou a atacar Olmert, depois da guerra, acusando-o de “erros de execução”, mas sem comentar o principal fracasso: a própria decisão de ir à guerra sem objetivo claro e realista e sem qualquer estratégia política e militar.

A incompetência de Olmert como estadista e como estrategista é equivalente à sua competência como político e como artista nas artes da sobrevivência. O fato de ter sobrevivido a dois anos de poder, depois de um fracasso tão monumental, prova talento político – tanto quanto prova a degeneração do sistema político em Israel. Depois da guerra, Olmert passou a procurar desesperadamente um cavalo novo. Escolheu o “processo político”: negociar com os palestinos e, adiante, também com os sírios.

Esta escolha é significativa: o sensível focinho político de Olmert farejara que aí estava o tema realmente popular: nada de “Grande Israel”, nada de novas colônias; mas negociações de paz e “dois Estados para dois povos”. E, o melhor de tudo: adotaria idéias já populares nos EUA e na Europa.

Dias atrás, líderes árabes reclamaram que agora “o processo político recomeçará novamente do zero”. Trata-se de um completo erro de má compreensão: o “processo” jamais saiu do zero. Sempre foi nada, sem qualquer conteúdo. Tudo foi conversa da “mídia”, tudo “spin”. O “processo” tornou-se substituto da paz; a idéia de um “acordo de gaveta” substituiu todos os possíveis verdadeiros acordos de paz. Jamais houve qualquer possibilidade de Olmert atrever-se a desagradar os colonos israelenses.

Resumo, numa linha, da era Olmert: Israel não deu nenhum passo, por mínimo que fosse, em direção à paz. A histórica iniciativa pela paz, da Liga Árabe, foi enterrada. A liderança secular palestina que trabalhou pela paz foi praticamente destruída, o que pavimentou a trilha para que o Hamás assumisse o controle na Faixa de Gaza, e também, possivelmente, na Cisjordânia. Nem uma casa em nenhuma colônia foi deslocada, e por todos os cantos as colônias só aumentam, sempre com novos prédios.

Sob um aspecto, Olmert assemelhou-se a Sharon: os dois amaram o dinheiro quase tanto quanto amaram o poder (como Netanyahu e como Barak). Ambos cultivaram relações pessoais com bilionários. Ambos arrastaram com eles uma nuvem de corrupção, que sempre está onde eles estão.

Nada disto incomodou Sharon, que irradiava liderança e nenhum escândalo jamais arranhou esta imagem. Foi robusto o suficiente para carregar os escândalos sobre os ombros. Olmert, muito mais fraco, foi soterrado pelos escândalos.

Ao final, desabou: não por ter levado Israel a uma guerra criminosa, não pela falta de seriedade nas tratativas de paz, não por ter indicado um ministro da Justiça com a missão de destruir o sistema judicial em Israel; desabou por causa de alguns envelopes gordos de notas de dólares e por férias gratuitas na Europa.

Quando os historiadores do futuro procurarem um modo de definir este capítulo para os anais da história do Estado de Israel, só encontrarão uma palavra, a mesma que o escritor David Grossman usou em contexto similar: o oco. Foi uma era oca. Um oco no tempo. Um período sem significação, sem conteúdo (embora tenha custado a muitos o preço da própria vida, da destruição e da ruína).

“O oco” serve também para descrever o próprio Olmert. Político oco, sem visão. Quem pesquisar as manchetes dos últimos dois anos encontrará altas doses de drama. Muitas “iniciativas”. Muitos slogans. Muita intriga midiática, muito “spin”. E ar. E a soma de tudo isto: nada, o raso, o oco. Um líder oco de um partido oco perseguindo políticas ocas num sistema político oco.

* Uri Avnery é jornalista e ativista israelense. Este artigo foi originalmente publicado no site Gush Shalom, dia 2 de agosto, e aqui reproduzido com autorização do autor e da tradutora, Caia Fittipaldi.

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.